a deseducao sexual
Marcelo Bernardi

 suwmus editorial
CIP-Brasil. Catalogao-na-Publicao Cmara Brasileira do Livro, SP
Bernardi, Marcello, 1922
B444d	     A deseducao sexual / Marcello Bernardi ; [traduo de Antonio Negrinil. - So Paulo Summus, 1985.
(Novas buscas em educao ; v. 21) Direo da coleo Fanny Abramovich.
Bibliografia.
1. Educao sexual 1. Ttulo.
                          17. CDD-612.6007
85-0369	           18. -301.418
Indices para catlogo sistemtico:
1. Educao sexual 612.6007 (17.) 301.418	(18. )
NOVAS BUSCAS EM EDUCAO
Esta coleo est preocupada fundamentalmente com um aluno vivo, inquieto e participante; com um professor que no tema suas prprias dvidas; e com uma escola aberta, viva, posta no mundo e ciente de que estamos chegando ao sculo XXI.
Neste sentido,  preciso repensar o processo educacional.  preciso preparar a pessoa para a vida e no para o mero acmulo de informaes.
A postura acadmica do professor no est garantindo maior mobilidade  agilidade do aluno (tenha ele a idade que tiver). Assim,  preciso trabalhar o aluno como uma pessoa inteira, com sua afetividade, suas percepes, sua expresso, seus sentidos, sua crtica, sua criatividade ...
Algo deve ser feito para que o aluno possa ampliar seus referenciais do mundo e trabalhar, simultaneamente, com todas as linguagens (escrita, sonora, dramtica, cinematogrfica, corporal, etc. ).
A derrubada dos muros da escola poder integrar a educao ao espao vivificante do mundo e ajudar o aluno a construir sua prpria viso do universo.
 fundamental que se questione mais sobre educao. Para isto, deve-se estar mais aberto, mais inquieto, mais vivo, mais poroso, mais ligado, refletindo sobre o nosso cotidiano pedaggico e se perguntando sobre o seu futuro.
 necessrio nos instrumentarmos com os processos vividos pelos outros educadores como contraponto aos nossos, tomarmos contato com experincias mais antigas mas que permanecem inquietantes, pesquisarmos o que vem se propondo em termos de educao (dentro e fora da escola) no Brasil e no mundo.
A coleo Novas Buscas em Educao pretende ajudar a repensar velhos problemas ou novas dvidas, que coloquem num outro prisma, preocupaes irresolvidas de todos aqueles envolvidos em educao: pais, educadores, estudantes, comunicadores, psiclogos, fonoaudilogos, assistentes sociais e, sobretudo, professores. . . Pretende servir a todos aqueles que saibam que o nico compromisso do educador  com a dinmica e que uma postura esttica  a garantia do no-crescimento daquele a quem se prope educar.
fNDICE
Apresentao da Edio Brasileira  Premissa 
1. A falsa educao 
2. Os falsos educadores
3. As falsas palavras 
4:	A sexualidade hoje 
5.	A programao da anti-sexualidade 
6. Atuao do projeto anti-sexual 
7. Os frutos da anti-sexualidade 
8. Represso sexual e patologia sexual 
9. Etiologia: a adaptao 
10. Patognese: a fuga de si
11. Sintomatologia e diagnstico: a economia monumental
12. Prognstico: a autodestruio
13. Terapia: a utopia 

Apresentao da Edio Brasileira
A melhor maneira de apresentar um livro inquietante  convidar o leitor a responder a um ou mais desafios que ele coloca.
O livro A Deseducao Sexual est repleto de desafios. Eis alguns deles:
     1 - A sexualidade enquanto um "problema inventado". Segundo o autor, "a sexualidade, de per si, no apresenta nenhum problema. Cada problema relacionado com ela deriva de sua elaborao secundria e das tenses produzidas por uma sociedade que procura constantemente autoproteo contra a prpria sexualidade". Como j afirmou Beach, em outro contexto, o que torna problemtica a sexualidade humana, so os processos de socializao do sexo e de sexualizao da sociedade.
     2 - A educao sexual: um falso problema. E por que um falso problema? Porque "se uma criana aprende sozinha a ler e a escrever todos se alegram com isso; mas se uma criana aprende sozinha o que  o seu corpo, o seu sexo, o seu prazer e, por isso, tambm o amor, ficam todos horrorizados. Queremos ns mesmos ensinar-lhe e do nosso modo. Assim, inventamos a educao sexual. Ou melhor, inventamos o problema da educao sexual". Portanto, a educao sexual  um problema porque assenta numa estratgia pedaggica mais ampla de socializao para a apatia, exercitada seja na famlia, seja na escola, seja nos programas polticos, seja na sociedade em geral. Vivemos numa cultura "sexofbica" e repressiva.
     3 - A liberdade sexual: uma problemtica utpica? Ao longo do livro vemos o autor posicionar-se claramente contra uma prtica educacional repressiva e valorizar o respeito pela liberdade sexual entendida no como libertinagem ou exerccio de violncia contra outrem, mas sim como sexualidade enquanto amor colorido de erotismo. Precisamente por essa razo, por reconhecer a fora subversiva do amor, o autor pondera que "a represso sexual e a represso sociopoltica nascem do mesmo tronco e crescem juntas, como tristes irms gmeas ... " A luta pela liberdade , portanto, a luta por Eros tambm.  precisamente essa luta que deve ser assumida por uma educao sexual fundada antes que tudo no respeito intransigente  sexualidade infantil. "Respeitar a liberdade sexual da criana, e, por isso mesmo, reconhec-la, significa colocar em crise a sexualidade deformada pelo sistema, comumente considerada a sexualidade adulta e, portanto, a sexualidade normal".
 a estes desafios que o autor nos convida. Aceit-los significar, por certo, dizer NO a uma educao sexual "muito bem comportada" como j escrevi alhures, para a qual a realidade  o que , no se podendo nem se devendo procurar transform-la. Resta saber quantos de ns acreditamos ainda que os "sonhos mais belos podem tornar-se realidade se nos empenharmos" [para isso]. Utopia? 
Talvez. Mas para ser utopista  preciso ter coragem. Para no s-lo, basta ter medo.
Maria Amlia Azevedo Goldberg


PREMISSA
Receber amor e conseguir amor so duas coisas muito diversas. H um nmero enorme de pessoas simpaticssimas, amveis, corteses, disponveis, prestativas, doces e atraentes que gozam da admirao geral. Estas conseguem amor. Representam um papel, algumas vezes conscientemente, outras vezes no, e ajustam-se quele modelo de comportamento que para elas  o mais vivel para fazer-se amar. Contrariamente, quem recebe amor sem procur-lo recebe-lo apenas porque, por sua vez, sabe amar. Pode-se fazer-se amar seguindo diversos caminhos, ostentando, por exemplo, benevolncia e compreenso, ou falando com calor e suavidade, ou ajudando as pessoas, etc.; mas o nico caminho para que se possa ser amado profunda e sinceramente  amar. Uma arte, me parece, bastante rara. Segundo Erich Fromm, rarssima. Pensando bem o amor , efetivamente, alguma coisa de absurdo para a mentalidade comum. O amor est alm dos costumes, dos limites sociais, dos regulamentos, e at de certos tipos de laos tradicionais. Se para existir precisasse de tudo isso, no seria mais amor. O fundamento das grandes filosofias e de cada religio autntica, amar o prximo como a si mesmo, significa simplesmente ser um com os outros, sempre e em qualquer condio. Um princpio no muito fcil de ser digerido por quem, como ns, vive em um mundo construdo muito mais sobre a diviso do que sobre a unio.
Se isto  vlido para o amor em geral, penso que seja legtimo consider-lo vlido tambm para o amor mais especificamente colorido de erotismo, para a sexualidade humana. Se a sexualidade , como acredito que seja, essencialmente amor, ento todas as superestruturas normativas que a aprisionam so estranhas  sua substncia. A norma, a restrio, a disciplina, podem ser um problema de oportunidade, de costumes, de organizaes sociais; no so nunca um problema verdadeiro de tica sexual. A sexualidade no pode ser imoral. Ao contrrio, ela  fonte de conscincia moral, como dizia
Horn. Em outros termos, os problemas no derivam da sexualidade, do amor, mas da sua negao, isto , do dio. No entanto, a sexualidade permanece, por si prpria, um dos problemas que mais agita nosso sistema social. O motivo existe, e ser tratado adiante. Mas um motivo nem sempre  uma justificativa e, em nosso caso, no . De qualquer maneira permanece o fato de que a sexualidade, e de forma mais geral o amor,  uma das coisas mais embaraosas para o 'homem de hoje. Tanto  assim que no se faz outra coisa se no falar e refalar sobre ela, escrever e reescrever, numa procura ansiosa de sadas do labirinto que construmos em torno de ns.
A contradio se faz de imediato mais assombrosa quando a questo penetra o terreno educativo. Parece que nada  to difcil quanto se defrontar com a sexualidade infantil. Uma criana que apresente comportamentos sexuais como, por exemplo, a masturbao, nos perturba e nos aterroriza. A idia de que so manifestaes normais que no requerem nenhuma interveno e nenhuma "educao", nem de leve passa por nossa cabea, Os mais progressistas agarram-se aos especialistas e aos manuais, os mais reacionrios recorrem sem pensar  represso. Uns e outros, no entanto, querem fazer educao sexual. Esta  a sua plataforma comum, este  o escudo com que cada um tenta se defender da angstia que o mortifica, o instrumento tcnico requisitado em toda parte para controlar a temidssima sexualidade. Se uma criana aprende sozinha a ler e a escrever todos se alegram com isso, mas se uma criana aprende sozinha o que  o seu corpo, o seu sexo, o seu prazer, e por isso tambm o amor, ficam todos horrorizados. Queremos ns mesmos ensinar-lhe, e do nosso modo. Assim, inventamos a educao sexual. Ou melhor, inventamos o problema da educao sexual.
A um Encontro promovido em Milo, entre 11 e 14 de maro de 1975, foi dado o ttulo de "Educao sexual, falso problema?" Lendo os textos das exposies feitas pelos participantes, no se pode esconder a sensao de que o Encontro objetivasse demonstrar que no se trata de um falso problema, mas de um problema verdadeiro, autntico e complexo. Assim falou-se demoradamente sobre problemas ligados aos costumes e  cultura, sobre a diferenciao social do sexo, sobre tcnicas de informao e condicionamento, sobre o desenvolvimento da personalidade, sobre questes semnticas, sobre represso, sobre a institucionalizao das relaes humanas, sobre certos comportamentos fidestas, sobre a coletivizao e o encarceramento; ou seja, falou-se de problemas que se originam da organizao social, nunca de problemas originados simples e exclusivamente da sexualidade. E isto aconteceu, a meu ver, pelo smplrrimo motivo de que a sexualidade, de per si, no apresenta nenhum problema. Cada problema relacionado com ela deriva da sua elaborao secundria e das tenses produzidas por uma sociedade que procura constantemente autoproteo contra a prpria sexualidade.  um problema inventado. Faz alguns anos escrevi um livro com este ttulo. Acredito que o meu trabalho de ento tenha sido amplamente superado por novos fermentos culturais, que ganharam vida nos ltimos tempos; mas o ttulo me parece ainda vlido. A sexualidade sempre nos d medo, talvez porque a tenhamos "liberado" de maneira aparente e enganosa. Nosso medo  tanto que nos obriga a inventar um mtodo de defesa contra ela. E temo que este medo da sexualidade no seja seno medo do amor, medo de amar e de ser amado. Se fssemos realmente capazes de amar e no, como diz Fromm, apenas de nos fazermos amar, nosso mundo ruiria, posto que est construdo sobre tudo, exceto sobre o amor.
1. 
A FALSA EDUCAO 
OS OBJETIVOS DA EDUCACAO SEXUAL
No obstante as aparncias, creio que atualmente pouco se faz em termos de educao sexual. Alis, pouqussimo. Quero dizer que a imensa operao  qual foi dado este nome nada tem a ver com educao. Nass (1) escreve: "Por educao, em sentido restrito, entende-se todo aquele processo com o qual se molda o aluno de maneira a prepar-lo para viver em harmonia com as regras codificadas da sociedade na qual est inserido". Provavelmente a maioria dos educadores est de acordo com esta definio, ou pelo menos age como se estivesse de acordo. Isto significa que se ensina s pessoas, especialmente s crianas e aos jovens, que as regras codificadas da nossa sociedade esto bem como esto e que devemos nos adaptar a elas. Isto significa que a eventualidade de mudanas  tacitamente rejeitada, por ser perigosa. Isto significa ainda, tocando o nosso tema, que o , indivduo deve aceitar a norma vigente da sexualidade e, obviamente, submeter-se a ela. Parece-me claro que nenhuma orientao educativa est presente em tal tipo de magistrio. Mas esta  a educao que comumente se faz, e esta  a educao geralmente acolhida de bom grado, promovida e encorajada. Quem se afasta dessa linha de conservadorismo e de imobilismo est destinado  desaprovao,  censura,  condenao. A educao entendida como dirigida  livre evoluo da personalidade e a uma procura crtica dos comportamentos ticos  considerada suspeita, perniciosa, socialmente daninha e anticultural.
O centro em torno do qual gravita a educao sexual de hoje  o casal, ou melhor, o casal legitimamente unido em matrimnio. Um matrimnio regular e naturalmente ordenado, no qual cada um dos dois contraentes est bem inserido no papel que lhe cabe e de cujo seio, mais cedo ou mais tarde, desabrocha a flor da prole. Nesta direo movem-se praticamente todos os educadores, de tal maneira que ao invs de educao sexual poderamos tranqilamente
falar de educao para o matrimnio. No interior de tal operao so permitidas algumas variaes modestas, tolerncia maior menor para com os desajustados, uma indulgncia mais ou men benvola para os pecadores, a aceitao de alguns comportamentos heterodoxos. Mas no  permitido colocar em discusso seu objetivo bsico, ou afastar-se dele: o matrimnio como fundamento da sociedade e como nico desaguadouro lcito para a sexualidade. O que, bem entendido, vale especialmente para as mulheres.
Trata-se, em essncia, de uma propedutica voltada para construo de um ncleo fechado, esttico, indissolvel e procriador freqentemente condenado  mais completa falncia afetiva e sexual.
    Para mascarar sua escassa credibilidade costuma valer-se de uma convicta linguagem retrica e bastante abstrata, como a de Ock citada por Kentler,(2) da qual vale a pena transcrever um trecho
porque constitui um exemplo clssico neste campo: "Quando e uma mulher desabrocha pela primeira vez o amor, na profundidade de sua alma surge o trpido pressgio do que acontecer: conceber, carregar a criana por nove meses, parir em meio  dor e de por alguns anos de sua vida, e com infinita pacincia, ocuparde um pequeno ser indefeso que precisa de sua proteo materna
O objetivo final daquela que s por razes  de comodida continuaremos a chamar educao sexur 1 , pois, a defesa e consolidao do matrimnio, isto , da instituio codificada pelos costumes vigentes. O objetivo imediato, que diz respeito a todos mesmo queles que nunca se casaro,  o controle da sexualidade.  Se a condio conjugal  a nica na qual o exerccio da sexualida  considerado lcito, coloca-se evidentemente um problema de 
auto-represso para aqueles que no pertencem quela condio jovens e adolescentes, solteiros e noivos, militares, prisioneir imigrantes, etc. Naturalmente no  simples convencer milhes de pessoas a viverem em castidade, mas os educadores acabar encontrando um bom sistema: dessexualizar o indivduo. 
Geralmente sexualidade est irremediavelmente mesclado o prazer. E eis ento que toma corpo a segunda operao educativa, que consiste em uma grande quantidade de conselhos e regras que tendem a encerrar a sexualidade nos confins zoolgicos da procriao, ou a transferi-Ia para bem longe da esfera da realidade, mediante idealizaes sentimentais. Por um lado tenta-se a tcnica da biologizao da sexualidade, por outro tenta-se torn-la angelical. Em ambos os casos ela est esvaziada de seu contedo humano, que  aquele do amor-prazer. Parece alguma coisa a meio caminho entre uma grosseira genitalidade reprodutiva de aspecto animalesco e uma tola cantilena onde amor rima com flor. Em suma, uma imagem da sexualidade que suscita o desprezo e o desgosto para com a relao fsica, uma espcie de esttica inclinao a uma relao incorprea idealizada, fantstica e ilusria.  uma manobra que facilmente consegue enganar o adolescente, mesmo aquele mais desconfiado e aparentemente astuto.
A dessexualizao das crianas e jovens produz, enfim, um fenmeno marginal porm importante para uma sociedade conservadora: a docilidade e maleabilidade dos educandos. Destruda a idia do prazer,  fcil impor a idia do "dever". Isto , do sacrifcio, da obedincia, da disciplina, da resignao. O pobre e velho Reich, desprezado tanto quanto perseguido, escreveu na sua Revoluo Sexual: "A revoluo no pode ter como ideal a besta de carga ao invs do touro, o capo ao invs do galo. As pessoas j foram bestas de carga por tempo suficiente. Os castrados no se batem pela liberdade". Eis porque continua-se astutamente promovendo uma educao sexual castradora e transformando os jovens em tantos outros bois. Assim no se correm riscos. Impossvel no lembrar aqui as palavras de Laing (3) : "Desde o instante do nascimento a criana  submetida a uma srie de constrangimentos praticados com violncia que so chamados de amor, repetindo o que aconteceu com sua me e com seu pai, com seus genitores, e com os genitores de seus genitores. Estas presses concorrem essencialmente para destruir a maior parte de suas potencialidades, empresa que, de forma geral,  coroada de sucesso: na poca em que o novo ser humano completa quinze anos, nos reencontramos com algum semelhante a ns, com uma criatura meio tola, mais ou menos integrada em um mundo louco. Esta , em nosso tempo, a norma". Esta, acrescentamos,  tambm a norma da nossa educao sexual.
OS INSTRUMENTOS DA EDUCAO SEXUAL
Freud formulou a hiptese de que o homem  um animal que tende a reprimir a si mesmo, e que se vale para isso da organizao social. Podemos legitimamente suspeitar que o homem serve-se da educao sexual tambm para o mesmo fim. E, vice-versa, podem supor que o instrumento primrio da educao sexual seja represso. A educao sexual deveria liberar-nos da angstia uma sexualidade frustrada e aviltada, valorizando seus contedos positivos. Mas eis a a mais assombrosa mistificao. Para os nossos educadores os aspectos positivos da sexualidade estariam na estabilizao institucional e na constituio da famlia, na fidelida perptua, na procriao e assim por diante. Ningum, que eu saiba tem claro para si que a substncia da sexualidade  o desejo, que o resto  artificioso e supra-estrutural. No existir jamais liberao da angstia se no existir a liberao do desejo. Mas desejo no consegue se libertar, ao contrrio,  sufocado com muito cuidado, desfrutando-se para isso dos mais variados pretextos. Assim  a represso sexual parece realmente constituir a linha mestra educao sexual.  verdade que hoje, pelo menos por parte de mais corajosos, toca-se em argumentos considerados absolutamente indecentes at h poucos anos, como a masturbao, a homossexualidade, ou as relaes pr-matrimoniais, mas se insiste sempre no fato de que os desejos que originam estes comportamentos os desejos insanos e reprovveis, que por isso devem ser dominados possivelmente sufocados. Ceder ao desejo, ou  chamada paixo, coisa tida como torpe e bestial. Os limites do discurso sobre sexualidade foram alargados, mas apenas em uma dimenso lusra. Sua rigidez no foi qualitativamente alterada. L onde consentese o desejo, comea a imoralidade e a depravao.
A conseqncia lgica e inevitvel da represso do desejo  sublimao: se o desejo sexual deve cair sob a proibio,  claro que ele deve ser transmutado em outros tipos de desejo. No
pode impedir o homem de desejar alguma coisa, mas pode-se condicon-lo a desejar coisas diferentes do que o exerccio da sexualidade.  Por exemplo: a conquista cientfica, a criao artstica, o sucesso econmico, a afirmao esportiva etc.  a uma tal mudana no curso do desejo que se d o nome de sublimao. Aqui  preciso deixar bem claro um aspecto fundamental: ningum est querendo sustentar que a sublimao deva ser negada. Cada ser humano pode e deve exprimir-se de vrias maneiras, e no apenas mediante um simples e direta atividade sexual. O que se deve rejeitar  o imprio universal e constante da sublimao sobre a pura sexualidade, desvio habitual de impulsos sexuais para objetivos no sexuais.
Desventuradamente  mesmo esta a poltica da educao corrente: convencer os jovens a adiar, no se sabe at quando, satisfao do seu erotismo propondo-lhes em troca um campeonato de atividades alternativas, isto , de sublimaes, que vo do estudo ao esporte, da arte ao bom comportamento, do servio militar vrias ocupaes recreativas, No  necessrio ser muito perspicas
para compreender que esta tcnica pretende imprimir na cabea do jovem a idia de uma contradio, de uma fratura entre a sexualidade, de nvel inferior, e. a sublimao, de nvel superior. Est formado o slido dualismo: de um lado o esprito, a razo, a cultura, etc., que so coisas "puras", e de outro o instinto, a paixo, o prazer, que so coisas impuras. A alma sobre o teto, o sexo no poro. Parece-rne patente que os educadores procuram, tambm desta maneira, chegar a uma dessexualizao dos educandos, e termo que em muitos casos consigam. Devo dizer que nunca encontrei uma sexofobia to intransigente e obstinada como nos jovens pertencentes a certos grupos integralistas de caractersticas absolutamente catlicas. No a encontrei nem mesmo entre os adultos mais reacionrios e conservadores.
Um fenmeno um tanto quanto desconcertante, caracterstico do momento histrico em que vivemos,  a transferncia da energia vital humana para objetos sem vida.  uma distoro j assinalada por Norman Brown em seu livro "A Vida contra a Morte": "A sublimao  uma mortificao do corpo e um confinamento da vida do corpo em coisas sem vida". Tornamo-nos todos tcnicos apaixonados. As coisas traduzveis em termos matemticos, em expresses numricas, em entidades quantificveis, nos fascinam irresistivelmente. A tecnologia tornou-se uma espcie de competidora da sexualidade. No somos mais capazes de gozar, mas estamos hablitadssimos a criar mquinas produtoras de cifras. Nesta matria somos perfeccionistas obstinados, talvez sejamos at mestres inigualveis. Intil dizer que a educao sexual tambm se vale amplamente deste mito da perfeio tecnolgica, mostrando-o aos jovens (e aos que no so mais jovens) como uma louvvel contribuio ao progresso da humanidade. Que o avano tecnolgico desancorado da energia vital, e portanto do amor, possa produzir o extermnio atmico, a guerra qumica e a bacteriolgica,  um detalhe que se prefere negligenciar. O encantamento pela tcnica  um potente fator de coeso dentro da perspectiva de conservao do atual sistema, Marcuse concebe o emprego da tcnica como liberao do homem do trabalho alienado para restitu-lo a uma genuna situao de jogo e de amor. O que seria razovel e profcuo. No entanto ns fazemos o contrrio: servmo-nos da tecnologa para acorrentar cada vez mais indissoluvelmente o homem a uma religio da mquina como um fim em si mesma e, concretamente, para identific-lo com essa mquina, alienando-o na medida progressivamente crescente da sua condio de homem. Estamos assistindo ao nascimento de uma confraria de programadores e de mecnicos especializadas, unidos entre si no por laos afetivos mas pela procura fantica de aparelhamentos prodigiosos capazes de produzir outros aparelhamentos, e depois mais outros, no caminho ilusrio direcionado ao domnio das coisas e dos seres vivos.  uma competio bastante assombrosa da qual todos participam: a elite projetando e calculando e a massa trabalhando cegamente por um objetivo que no pode conhecer nem compreender, motivada exclusivamente pelo salrio. O qual, alis serve unicamente para manter o nvel de consumo dessas mquinas inteis. Poder-se-ia dizer, com -uma boa aproximao da realidade que o automvel ou o televisor so um substituto bastante satisfatrio da sexualidade. Satisfao, repito, em tudo ilusria, dado que sublimao tecnolgica "apaga os instintos na mesma medida em que uma carta geogrfica satisfaz o desejo de viajar".(4)
Mas a verdade  que no se consegue apagar os instintos. Antes, como j foi dito, consegue-se o oposto, isto , a represso dos instintos.  Por esse motivo a educao sexual, fundada largamente sobre a sublimao, em especial sobre a sublimao cientfico-tecnolgica acaba por sair da rea da comunicao afetiva para entrar na de uma "objetividade" isolada e fria, tornando-se com isso ainda mais estril e dessexualizante.
De qualquer forma, o motivo dominante da educao sexual permanece sendo a represso. A represso, mais ou menos declaradamente, percorre os caminhos da sublimao, do tipo "cientfica mas apia-se sobretudo nos meios eficazes da chantagem. Em ensaio "Autoridade e Famlia", Fromm (5) entre outras coisas observa "( ... ) a causa da organizao fisiolgica do homem, a sexualide constitui uma fonte de excitao ativa que est alm do mnimo socialmente ajustvel, (e portanto) conseqncia da sua interdio a produo automtica de angstia e complexo de culpa... Em uma sociedade com fortes proibies sexuais, a autoridade consolida tambm pelo fato de ter a possibilidade, sobretudo na forma religiosa, de novamente liberar os homens de uma parte de seu complexo culpa. O alvio que advm est necessariamente conectado a uma mais forte submisso e devoo a essa autoridade". Em outros termos estimula-se artificialmente no homem complexos de culpa, ligados sexualidade, dos quais o homem pode se liberar desde que submeta autoridade, e logo  represso que a autoridade lhe impe e prpria mortificao. A morte deve ser aceita para salvar-se. " educao para a aceitao da morte introduz na vida, desde o princpio um elemento de capitalizao e submisso".(6) Implcita ou explicitamente, colorida com expresses confusas ou abertamente proclamada,  esta  a trama envolta na tica sexual que fornece  operao educativa a matria-prima para a formulao de normas e preceitos. Uma tica que, na verdade, me parece pouco moral. Uma tica que tem  como objetivo apenas a conservao e a salvao do matrimnio institucionalizado, a garantia de propriedade recproca dos cnjugues a fidelidade coagida e o autoritarismo intra e extrafamiliar.
     Com sua maneira de exprimir-se que lhe valeu a execrao pblica, e que era bastante incisiva, Reich disse que a moral coercitiva " moral dos velhacos e dos impotentes, incapazes de obter com amor 
o que procuram conseguir com a ajuda da polcia e da legislao matrimonial". Um pouco rude e provocativo, mas nem tanto equivocado. O fato  que esta moral sexual, embebida em ameaas e recatos, no convence. A suspeita de que se trata de uma simples operao do poder, de uma escolha programtica voltada para o domnio da mais poderosa - e perigosa - das energias humanas,  uma suspeita que no pode ser considerada vazia de fundamento. (7)
A ESTRATGIA DA EDUCAAO SEXUAL
Qualquer manobra educativa, inclusive no campo sexual, funda-se sobre trs princpios: os pequenos tm tudo para aprender,  os adultos tudo para ensinar; os pequenos devem nutrir uma confiana cega nos adultos, independentemente do comportamento destes ltimos; a conduta dos pequenos deve corresponder quela desejada e prescrita pelos adultos. Para mantermo-nos nos limites da benevolncia, poderamos deduzir que a presuno dos adultos  verdadeiramente desmesurada. Freud em "O Porvir de uma Iluso" observa: "Pense no deprimente contraste entre a radiosa inteligncia de uma criana sadia e o dbil intelecto de um adulto mdio".  um contraste que, se concedssemos um pouco de ateno aos fatos e s pessoas, poderamos constatar a todo momento. A criana age sempre segundo uma lgica sua, mas infalvel; o adulto age quase sempre de fora da lgica humana, e muitas vezes de fora de qualquer lgica. Mas este  um assunto que retomaremos adiante. Por ora limitamo-nos a sublinhar que a conduta educativa parte do postulado de que o educador sabe tudo e o educando nada, e portanto de que o educador est qualificado a tomar todas as decises e o educando no est apto a tomar nenhuma.
O adulto considera a si mesmo como o expoente perfeito da raa humana. Antes dele existe o indivduo em formao; depois, o indivduo em decadncia. Este ltimo no tem mais nada a dizer, o 
primeiro ainda no tem nada a dizer. O velho deve ir para o asilo e parar de intervir na atividade social, o jovem deve aprender a adiar suas intervenes at o momento em que o adulto julgue-o preparado para seguir em frente. A idade adulta , assim, uma condio privilegiada. Por isso, logicamente, o adulto procura impedir o acesso dos "menores", que devem permanecer assim o mais longamente possvel. No que deriva a propenso em adiar ao infinito o incio da velhice, vivida como uma desqualificao, e de, por outro lado, adiar o fim da juventude, fim esse que implica no afluxo de foras competitivas do reino adulto. Em sntese, o adulto quer permanecer adulto o mais possvel, e quer que o menor permanea menor o mais possvel. Isto vale tambm para o que concerne  sexualidade. E talvez numa medida ainda maior, pelo simples motivo de que o adulto tem medo da sexualidade infantil e juvenil porque estas colocam em crise a sua sexualidade, que ele adora chamar de madura. Reconhecer de modo concreto, e no abstratamente como se costuma fazer, a sexualidade das crianas e dos jovens, reconhecer exigncias e direitos, admitir que se trata de uma sexualidade autntica e no de uma nebulosa, formulao hipottica, significa ter de rever no s a conduta gerar frente aos menores, mas tambm o prprio comportamento sexual do adulto, a comear pela postura frente ao prazer. Significa recolocar em discusso toda a fundamentao sexofbica do nosso sistema, e por isso mesmo o prprio sistema. O adulto tende a colocar-se, como nico ser sexuado e tende a adiar a sexualizao de seus sucessores. A estes, enquanto permanecem na rea da infncia e da juventude, no s  negado o exerccio da sexualidade mas, at onde  possvel, a prpria sexualidade. Certo, aos adolescentes no se nega uma identidade sexual, mas freqentemente procura-se problemati z-la, dilu-Ia em mil interpretaes "cientficas", fazer dela alguma coisa complicadssima e, ouso dizer, "imatura". Assim o adulto ter sempre um modo de marginaliz-la e reprimi-Ia, seguindo -uma teoria educativa qualquer. Poder, em suma, remov-la, distanci-la e, na prtica, ignor-la. Quanto s crianas a coisa  ainda mais simples; reconhecemos, mesmo que apenas verbalmente, a sua sexualidade e ento passamos a seccion-la, categoriz-la, a enquadr-la em um esquema qualquer, a filosofar sobre. O importante  agir como ela no estivesse ali. Desse modo, a criana no pode traduzir seu eventual protesto em uma revolta operativa.
Definitivamente a estratgia da nossa educao sexual es direcionada ao adulto e traduz-se em colocaes marginalizantes e neutralizantes. Na maior parte dos casos no existe nenhuma inteno de educar para o exerccio da sexualidade, mas unem-se todos esforos numa educao para a represso da sexualidade. A mim parece que entre as duas coisas existe uma bela diferena. O que,  seguro, e temo no estar errado,  que hoje no se faz nada em termos de urna educao sexual autntica. Apenas fala-se dela e o bastante. E quem mais fala, menos faz. Travestida em falsas aparncias, conduz-se uma campanha que parece pretender colocar o homem no mesmo plano dos coelhos e das tulipas.

NOTAS
Weder Opfer noch Tdter richtige Sexualerziehung, Wiesbaden, 1967. 
 Kentler H., L'educazione critica della sessualit, Bompiani, Milano, 1971 
 Laing, La poltica dell'esperienza, Feltrinelli, Milano, 1968.
4. Cfr. Ferenczi in Final Contributions to the Problems and Methods; Psychoanalysis, Hogarth Press, 1955.
5. In Sexpol, Guaraldi, Rimini-Firenze, 1971.
6.	Cfr. Marcuse H., Eros e Civilt, Einaudi, Torino, 1967.
7. Cfr. Valsecchi A., Giudicare da s, Gribaudi, Torino, 1973.

2.
OS FALSOS EDUCADORES
RETRATO DE UM EDUCADOR
Quando se parte da convico de que  necessrio educar a criana para que se comporte bem, pressupe-se evidentemente que, sem educao, ela se comportaria mal. O educador apresenta, de fato, esta caracterstica fundamental: ele  aquele encarregado de corrigir a natureza humana. Mas por outro lado, contraditoriamente, ele  aquele que defende a natureza humana da corrupo. Deve-se deduzir que para o educador o educando  uma mistura de perverso e inocncia. Sobretudo no que toca  sexualidade a criana  seguramente perversa, posto que se deixada sozinha executaria aes reprovveis e seria arrastada pela libido e pela destruidora procura do prazer. Mas a criana  tambm inocente, j que no conhece ainda a torpe licenciosidade do mundo. O educador se debate entre a criana luxuriosa e a criana assexuada e tende a acentuar o vcio e a negar a sexualidade dos pequenos. Dessa situao conflitante deriva uma notvel, e bastante freqente, incoerncia de comportamentos.
A antilgica do educador sexual esbarra freqentemente no absurdo. Constata-se diariamente que quem se dedica  educao sexual preocupa-se, sobretudo, em negar a sexualidade, tanto a sua
como a dos outros. O educador no deve, por exemplo, envolver-se afetivamente em seu trabalho, no deve deixar que sua fraqueza frente s tentaes da carne suscite dvidas, deve permanecer distante e invulnervel. Seus costumes devem ser ntegros, bem como severos, de forma a poder conseguir a aprovao de todos. O educador deve manter-se acima de qualquer suspeita, portanto espoliado de propenses erticas. Deve ser macroscopicamente casto. Deve, em ltima anlise, preparar os outros para alguma coisa que ele no pode conhecer nem experimentar. Deve resolver problemas que no so seus em uma matria que lhe  obrigatoriamente estranha.
E de fato os educadores que gozam de maior crdito em nosso pas, e em pases semelhantes ao nosso, so os sacerdotes catlicos. Preferivelmente de linha tradicional.
Mas, como dizamos, no basta que o educador tenha eliminado a prpria sexualidade. Espera-se dele que sufoque tambm a sexualidade dos educandos. Desde que fale sobre anatomia e fisiopatologia est tudo bem, e melhor ainda se expuser normas que confundam a sexualidade. Dificilmente se tolera que o educador introduza um discurso sobre a essncia do problema, que  o binmio prazer-amor, Uma sexualidade agradvel, alegre, ldca e espontnea traz muto medo porque atravs dela todos conseguem perceber, ainda qoe  nebulosamente, que a desestruturao de todo o aparelho social hierarquizado comea a. Ao educador cabe propor uma sexualida biologizada, andina e sombriamente esfumaada pelo complexo culpa e pelo medo. Por outro lado deve apresentar-se como defensor do educando contra o perigo sexual, que pode ser de ordem fsico moral ou psquica, segundo as interpretaes preferidas por cada um. No mais das vezes o educador est sinceramente convencido de que esta configurao, imposta pelo clima cultural,  a correta. Conseqentemente, age apregoando a fuga do prazer, que term pela conquista de um Bem imerso indefinidamente em um futuro remotssimo.
Em substncia, o educador sente-se quase sempre investido dever de estabilizar a ordem em que vive, qualquer que seja e ordem. Os prudentes reformismos, em geral propostos muito mais nvel terico do que a nvel comportamental, so a sua arma. Ele  um moderado, no s nas aes, mas sobretudo nas aspiraes. No  deseja mudanas concretas e radicais, mas apenas aberturas micros-cpicas que, na verdade, venham consolidar um costume pr-existente. E permanece tanto mais vlido quanto mais consegue perseguir objetivos de imobilismo aprovados pela sociedade que o elegeu.

A FAMILIA
O pai acredita ser o primeiro e o mais importante dos educadores. E efetivamente, ele o , posto que age na fase mais sensvel mais vulnervel da evoluo humana: a primeira infncia.
poderia ser um bem se o ambiente familiar fosse autnomo, nutrido de afeto e preocupado com a dignidade de todos, independente das presses esmagadoras peculiares  organizao social. Mas na maior parte dos casos no  assim. A famlia  habitualmente uma miniaturizada da sociedade, com um governo constitudo pelo pai uma populao de governados constituda pelos filhos. A assim chamada autoridade intermediria  representada pela me, que se encontra com um p na rea governamental e outro na dos subordinados. A famlia tende a imprimir na personalidade dos subordinados uma determinada estrutura psquica, aprovada pela sociedade, e para isto vale-se de meios sugeridos pela prpria sociedade. O mais relevante desses meios  o culto  tradio. Tudo aquilo que decentemente se pode salvar do passado  imposto  criana como guia, como norma, como modelo, at que, dentro dela, se finalize a construo de um esquema psquico em tudo igual quele dos seus predecessores. Freud chamou-o de Superego. Este  dominado essencialmente pela figura do pai, em especial pela do pai detentor de poder e de autoridade. Para com o pai cada criana nutre um duplo sentimento, de amor e de medo, o mesmo sentimento que nutrir ao defrontar-se com qualquer outro representante da autoridade: desejo de ser querida e aprovada e medo de ser desaprovada e eventualmente punida. A famlia  uma escola de submisso, de obedincia e de resignao. Algumas vezes, muito raramente, no e assim; mas nesse caso deve-se perguntar se ainda  possvel falar em famlia.
     O programa educativo da famlia mdia normal  fazer os filhos aceitarem o princpio da necessidade do domnio; e de poucos sobre muitos, isto , de um governo. Para chegar a isto, obviamente,  inevitvel apresentar o governante como sendo severo mas bom, infalvel, justo, generoso, incorruptvel, etc. Segue da que a imagem da vida associativa que se oferece  criana  incontestavelmente mascarada. O pequeno deve adaptar-se na prtica  dependncia, presente e futura, de figura to incensurvel quanto onipotente. Esta condio mobiliza uma notvel carga de angstia e tende a fragilizar a personalidade da criana. Em outras palavras, a fraude de uma autoridade postulada como necessria produz na criana a angstia, que debilita sua personalidade, e essa debilidade impele a criana a invocar uma autoridade que a socorra. O procedimento, uma vez em curso, se auto-alimenta. O resultado  a fabricao ininterrupta de futuros cidados para os quais a autoridade  no s um poder que deve ser servido acriticamente mas tambm um ideal para ser venerado e, se possvel, imitado.
     A educao sexual praticada pela famlia segue muitas vezes as linhas mestras do que acabamos de expor. A famlia, em sua verso tradicional, desenvolve portanto duas funes fundamentais:
a primeira  a de impor a prpria autoridade e de governar do alto o exerccio da sexualidade dos filhos; a segunda  de apresentar-se aos filhos como modelo ideal de comportamento sexual. Desnecessrio, que se fale sobre a vigilncia repressiva da famlia. Mesmo os pais mais compreensivos, indulgentes e com uma viso mais aberta, tornam-se surpreendentemente autoritrios quando se trata da sexualidade. Sorriem benevolamente das traquinagens infantis, com admirvel serenidade passam por cima das mais provocativas empresas 
das crianas, adaptam-se  devastao da decorao domstica, chegam perto da tolerncia para com o insucesso escolar mas, quando entra em jogo o sexo, recorrem imediatamente ao autortarismo mais desumano. A criana acaba se convencendo rapidamente de que o sexo  alguma coisa proibida, vergonhosa e nefasta, 0 jovem aprende que o prazer sexual no  para ele, que precisa esperar, que poder goz-lo quando constituir uma famlia. E assim chegamos ao aspecto mais importante do discurso: a famlia como ideal ao qual devemos nos inclinar. E isto  importante porque a famlia, como  mostrada s crianas e aos jovens, no tem nada de sexual.
     Eu diria que a condio familiar clssica proposta aos filhos como amostra  a mesma usada nas mensagens publicitrias, particularmente na publicidade televisiva. Uma famlia nuclear consta temente alegre, com pais zelosos e brincalhes, mes diligentes caseiras, filhos saudavelmente saltitantes e dceis, avs repletos bondosa sabedoria, amigos afveis e cordiais.
     Uma famlia que, pelo visto, passa seu tempo a brincar, a arrumar a casa, cozinhar e consumir uma quantidade fantstica dos mais variados produtos. Nunca, ningum, faz amor. Os homens  so robustos, as mulheres graciosas, mas todos parecem viver em perene e absoluta castidade. No h nenhum indcio de relao carnal, nem ao menos de desejos que tenham uma mnima colorao  ertica. Esta  a soluo dos problemas sexuais oferecida aos jovens, no apenas pela tev, mas tambm pela realidade. Ora, que incrvel famlia seja usada para propaganda de detergentes, pacincia;  mas quando se torna um exemplo de vida concretamente imposto, as coisas mudam. Na verdade  difcil imaginar alguma coisa mais melanclica e antieducativa que esta colocao estril, programada e disciplinada da sexualidade. O prazer da relao interpessoal substitudo pelos falsos prazeres do consumismo, a transposio afetiva e a emoo cedem o lugar  segurana da estabilidade econmica e social, a excitao se exaure numa monotonia sem espera a aventura transforma-se em odiosa rotina, a criatividade e a inveno naufragam na mecanizao do comrcio conjugal, o dar-se generosamente torna-se possuir ciumentamente, a fidelidade recproca suplantada pelo contrato matrimonial. O projeto familiar, enquanto modelo de comportamento sexual, revela-se cada dia menos vivel. Efetivamente assistimos  sua falncia. Deplora-se o fato da famila  estar em crise, mas esta crise no surpreende. Os jovens recusam a famlia cada vez mais freqentemente, mesmo que depois no sabam como substitu-Ia. E a sua recusa  amplamente justificada pela desiluso. A famlia, no que toca  sexualidade, no tem nada oferecer. E menos ainda para ensinar. Est claro que  um dos espaos menos adaptados a uma evoluo sadia da energia ertica.
Falo, naturalmente, da famlia burguesa mdia, da chamada "famlia normal", j denunciada por psiclogos, socilogos, filsofos, mdicos e, em geral, por todos aqueles que prestam um pouco de ateno ao mundo em que vivemos.
Autortarismo, fidelidade acrtica  tradio, imposio de esquemas comportamentais pr-fabricados, represso da sexualidade, eis as pilastras da ordem familiar mais comum e mais amplamente aceita. Em um clima desse tipo, a maioria das crianas passa a primeira e mais delicada parte da vida aprendendo que a renncia  meritria e o prazer culpvel, que a resignao  obrigatria, que a aprovao social e a segurana so os bens mais desejveis, que a ordem e o conformismo contam mais que o amor. Assim so lanadas as bases da chamada educao sexual.

A ESCOLA
A famlia realiza sua obra antieducativa quase automaticamente, por uma inclinao intrnseca, independente de doutrinas especficas ou mtodos particulares. Os acontecimentos histricos e sociais que conduziram ao nascimento 'da famlia nuclear traaram-lhe ao mesmo tempo uma postura caracterstica frente  sexualidade. Isto tambm  verdade para a escola, mesmo que com um matiz levemente diferente. A paixo pela pedagogia, por exemplo, encontra no ambiente escolar uma oportunidade de penetrao maior do que aquela oferecida pela famlia, que permanece mais fechada e prejudicialmente hostil ao universo extracaseiro. Na escola as Teorias so recebidas triunfalmente. Parece que nada entusiasma mais nossos contemporneos quanto as teorias educativas, e na escola as orientaes educativo-pedaggicas mais diversas encontram um terreno fertilssimo. Acontece que tais orientaes so diferentes apenas no tocante a certos aspectos tticos, algumas vezes bastante secundrios, enquanto a substncia permanece igual em todas. Como a famlia, a escola  uma instituio que tende a conservar a si prpria. Mediante o uso de professores, horrios, programas, matrias de estudo, livros de texto, classificaes de tipo seletivo, providncias punitivas, etc., a escola submete o aluno a um condicionamento macio cujos objetivos praticamente se justapem aos da famlia: respeito pela autoridade, obedincia, repetio de uma determinada frmula comportamental, aspiraes por valores pr-estabelecidos. J foi dito que as metodologias pedaggicas no deveriam adequar-se ao sistema mas, ao contrrio, deveriam trazer  luz as contradies desse sistema. Bem, a nossa escola faz de tudo para encobrir as contradies alinhando-se junto das posies defendidas pelo sistema. E, solicitamente, trabalha para que o sistema permanea vivo sem mudanas qualitativas. O colossal engenho pedaggico funciona pessimamente no tocante reais necessidades dos alunos (e dos professores) mas, como apar condcionante e conservador,  mpassvel de crtica. Se a criana apesar da famlia ainda possui alguma coisa da sua potencialida criativa e da sua autonomia, a escola trata de elimin-la.
     Ao que parece a funo especfica da escola  esta: manter os jovens o mais possvel isolados na condio de dependncia econmica, cultural e moral; por outro lado fazer com que, quando esse perodo necessariamente acabe, o jovem tenha enfim se tornado to semelhante ao adulto que no crie conflitos e problemas. Uma gerao livre para poder evoluir sozinha poderia mudar o mundo e isto amedronta todos aqueles que no querem mud-lo. Isto a maior parte dos adultos. Atravs da escola este risco  neutralizado. Habitualmente afirma-se que o ciclo escolar serve para socializar crianas e jovens, para fornecer-lhes um mtodo de estudo e conhecimentos bsicos, para prepar-los para a vida. o que est subentendido  que a socializao tem como referncia o nosso tipo de sociedade, que o mtodo de aprendizado deve corresponder aos nossos mtodos, que os conhecimentos devem aqueles que ns consideramos indispensveis, que a preparao a vida deve ser a preparao para nossa vida. Seguindo raciocnio apenas superficialmente lgico, poder-se-ia dizer que jovens so preparados para um mundo que existe e ao qual  bem ou mal devem adaptar-se, e que seria insensato cultivar a idia um mundo feito de jogo, de prazer, de fantasia e de invenes.  Considerao superficial porque fundada sobre o pressuposto que no  possvel uma organizao social diferente daquela que conhecemos, que aceitamos e que mantemos em vigor, e que portanto o nico caminho sensato  o do consentimento  realidade presente, conseqentemente o da preparao para o desenvolvimento das funes que a prpria realidade confia aos indivduos. Trata-se evidentemente de um preconceito, sustentado apenas por experincia historicamente limitada e incapaz de superar a si prpria. A abertura em direo a solues coletivas, ainda distantes da prtica, representa uma condio para o avano cultural. sobre este plano que a escola deveria trabalhar e no trabalha.
    A escolarizao, diretamente ligada  manuteno e ao reforo da ordem social existente, age de modo a defender os esteios primrios dessa sociedade e, entre estes, a instituio familiar. A empresa  requer duas aes: suprimir todo gesto sexual que no esteja orientado  fundao da famlia e remover os impulsos e os desejos que possam sugerir o ato sexual cujo fim no seja um matrimnio codificado. Da derivam duas regras escolares: a proibio absoluta de qualquer comportamento sexual e a desqualificao da sexualidade. Isto significa a negao apriorstica e intransigente da experincia sexual dos alunos e a programao de uma "educao" que esvazie a sexualidade de todo contedo emotivo, ldico e gratificante. A escola, em outros termos, ope-se com meios notavelmente repressivos e freqentemente brutais s expresses da sexualidade infantil. Ao mesmo tempo tenta fornecer uma imagem desagradvel e distanciada da 'sexualidade valendo-se de informaes, algumas vezes francamente distorcidas, dignas de uma sala de dissecao anatmica, ou de um laboratrio de fisiologia, ou de uma clnica dermossifiloptica. Acredito ser incontestvel o fato de que certas ilustraes utilizadas na escola (e alhures) pela assim chamada educao sexual sugerem uma autpsia ou um tratamento de doenas venreas. Em resumo, a escola  dessexualizada e dessexualizante. A aceitao de experincias sexuais em seu interior, ou a aceitao de coloridos erticos em seus programas,  considerada pouco menos que criminosa. Como, ento,  possvel abordar a sexualidade na ausncia de qualquer trao de sexualidade? De fato, o que no permetro da escola  tido como educao sexual no  outra coisa seno uma informao desencorajante e enfadonha acompanhada de normas que visam salvaguardar as instituies.

A CINCIA
     Desde que a escola permanea o que , parece realmente impossvel qualquer operao tendente  sua sexualizao. Mas se a escola  uma fortaleza impalpvel, no se pode dizer a mesma coisa dos que nela ensinam. Muitos deles, mesmo que ainda em evidentssima minoria, dispem-se a uma reviso crtica dos cnones tradicionais, expondo-se conscientemente s represlias da autoridade. O corpo docente, que se bem observado  constitudo principalmente por mulheres, tem demonstrado uma diligente capacidade de renovao e uma considervel permeabilidade no que toca s instncias progressistas. A impermeabilidade mais tenaz  de uma outra categoria, no menos envolvida na educao sexual: a dos cientistas, ou dos que se pretendem cientistas. No transcorrer de um debate televisivo, um professor universitrio e cientista por definio, polemizando contra a contestao estudantil, disse: "Eles (os contestadores) continuam a tagarelar sobre centros de poder, mas no percebem que estes so necessrios porque so na verdade centros de saber". Identificao emblemtica esta do saber com o poder. Aquele que se autoproclama cientista, convencidssimo de ser proprietrio nico do saber, no se dispe a acordos. A nica verdade  a sua. E isto vale sobretudo para certos mdicos, e particularmente para os mdicos especialistas. No  fcil encontrar um especialista disposto a acolher outras opinies. Informao sim,  vontade. Mas opinies, nenhuma. Especialmente se trazem idias novas. Leunbach (1) escreveu: "Sabe-se h tempos que as pessoas com formao especializada so sempre aquelas que rejeitam mais o nadamente cada idia nova em seu campo. Esforaram-se uma (em sua juventude) para dominar os conhecimentos especializa necessrios e freqentemente imaginam possuir j o mximo sabedoria possvel. Nada lhes  mais desagradvel do que se verem  constrangidas a reaprender, perdendo assim a velha segurana.  Desde que Leunbach publicou seu trabalho, h aproximadamente dez anos, pouca coisa mudou. A comunidade mdica oficial move-se sempre entre posies de teimoso conservadorismo. A realidade fenomnica proposta, ou reproposta, pelas novas geraes e cultura so ignoradas ou rejeitadas pela maioria de seus membros.
     Ora, como se sabe, os mdicos so, por consenso universal, peritos em assuntos como sexualidade, junto com os sacerdotes. estabelecem os limites morais da sexualidade, aqueles os aspectos 
higinico-sanitrios e psicolgicos. As pessoas confiam nos mdicos porque os consideram objetivos, racionais, equilibrados e acima de qualquer polmica ou de qualquer preconceito. Efetivamente de ser assim: o cientista estuda os fatos, descreve-os, compara-os verifica, formula hipteses de trabalho, mas sem julg-los. Para um estudioso um fenmeno no  nem bom nem ruim:  simples matria de indagaes. Mas muitas vezes as coisas caminham de modo diferente. Talvez sem nem ao menos sab-lo, um nmero  respeitvel de mdicos adota teorias e interpretaes que parecem mais ter sido formuladas para validar juizos de natureza moral.  suficiente folhear um tratado de algumas dcadas atrs para encontrarmos as mais extravagantes afirmaes, saborosamente moralistas: que a masturbao debilita o intelecto e predispe  impotnccia e  tuberculose, que as relaes sexuais pr-matrimoniais depauperam o organismo, que a castidade revigora, etc. Em uma obra publicada em meados do sculo XVIII sustentava-se at que deitar ao lado de uma pessoa nua provocava a absoro de suores venenosos desse companheiro, ou companheira, de cama. Indicava-se tambm a quantidade: cerca de um quarto de litro por noite. Cito a ttulo de curiosidade histrica, mas  verdade que ainda hoje isto acontece com muita freqncia a medicina oferece um apoio "cientfico" s  sentenas morais. Exemplo ntido, e atualssimo,  o manifesto  exagero quanto aos perigos ligados ao uso de anticoncepcionais hormonais.
     Surpreende o fato de que dessa manobra tenham participado e ainda agora participem, aqueles pesquisadores e estudiosos mais que os outros, poderiam ou deveriam intuir a existncia de uma energia constantemente reprimida. Pretendo falar dos psiclogos e em particular dos psicanalistas. No de todos, naturalmente, mas de certos teorizadores que formulam suas opinies como se fossem valores universais. Desde que a Sociedade Psicanaltica Internacional expulsou Wilhelm Reich, em agosto de 1934, o comportamento de alguns especialistas manteve-se bastante prximo ao de seus colegas daquele tempo. O ponto de partida  o de sempre: a objetividade e o distanciamento da cincia. Hoje, enquanto toda uma cultura vai se posicionando contra a sexofobia tradicional, existe quem pense estar sendo anticonformista relanando a prpria sexofobia em bases cientficas. A contestao e a procura de solues novas para os problemas humanos, verdadeiros e falsos, seria, segundo essas pessoas, apenas moda e, nadando contra a corrente, pretendem furiosamente neg-la. Criou-se a imagem de um tipo de mecanismo pseudopsicolgico automatizado que exclui qualquer forma de autonomia e portanto tambm de rebelio: a sociedade  assim porque assim deve ser, porque o homem  concebido de um determinado modo que no pode ser mudado, porque se alguma coisa mudasse sucederia um desastre e ao final tudo ficaria como antes. Traumas e complexos reinam soberanos: algumas das chamadas perverses derivam de uma disciplina errnea imposta ao esfncter, outras derivam do medo de castrao ligado ao complexo de :dipo; o fascnio pelo sexo nasce da proibio em descobrir o mistrio do quarto dos genitores, como se no existindo tal forma de censura uma bela mulher sentisse por um belo homem a mesma atrao que sente por um copo de gua fresca (ou um homem por uma mulher, bem entendido); o sadismo  a conseqncia quase inevitvel para quem presencia uma cpula, o homossexualismo por sua vez  o resultado para quem dorme muito freqentemente com o pai (ou com a ,me); o abuso dos "jogos proibidos" leva  neurose e ao insucesso; e assim por diante. Algumas vezes lendo um livro de psicanlise tem-se a impresso de que se est falando de pilhas atmicas: quando a reao  escorvada, no espetculo de duas pessoas que fazem amor, ela prossegue em cadeia, automtica e irrefreavelmente, at a deflagrao. Isto , at  perverso,  doena,  runa.
     Talvez no valha a pena nem ao menos sublinhar como este tipo de mecanismo presta-se  justificao das mais impiedosas injustias. Quando se quer exercitar alguma nova forma de represso sobre algum, eis de imediato o libi cientfico oferecido por uma ou por outra teoria. A diviso entre o bom e o mau, precisa e sem arestas, foi superada apenas nas declaraes doutrinrias; na realidade, como dizia Brown, "o que a psicanlise ortodoxa fez foi repropor com sua nova terminologia o dualismo de corpo e alma, hipostasiando o Ego em uma essncia substancial que continua a combater o Id atravs dos mecanismos de defesa. "Em outras palavras, o Ego  substancialmente bom e o Id mau, mesmo que ningum mais ousasse cham-lo assim. Bom e mau coexistem em uma condio de guerra sem quartel, como o corpo e a alma, a virtude e o vcio, Deus e o diabo. O importante  que o consiga vencer o mau. E o que  bom  decidido pelo sistema social: a psicanlise empresta-lhe os instrumentos tericos. Assim o Dever  que  bom, deve ser amado em detrimento do prazer, que  mau; e a Moral, boa, em detrimento da sexualidade, m.
     Na verdade no se pode ficar seno perplexo e desconcertado frente a certas simplificaes e a certos tons impostivos dos de tores oficiais do saber. A psicanlise, at prova em contrrio,  fenmeno cultural de importncia gigantesca e, sem dvida alguma, uma hiptese interpretativa no mnimo genial, mas no  verdade absoluta e indiscutvel. O prprio Freud, que considerava a crena numa melhora radical da condio humana uma fansia  utpica, e que portanto acreditava na necessidade de uma resignada  aceitao do presente opressivo e repressivo, evitou promulgar e decretar normas de vida. No deu nem ao menos conselhos. alguns dos seus seguidores o fazem. E o fazem de modo bastante  inoportuno, dada a desenvoltura com que suas palavras so instrumentalizadas pelos defensores dos "bons costumes".
     A cincia, seja a dos mdicos, dos psiclogos ou a de qua outro, torna-se extremamente perigosa quando  subjugada ao no s avalisa com o prprio prestgio operaes que de per si teriam o puro sabor da arrogncia, mas presta-se ela mesma a pregar a excelncia de alguns tipos de conduta e a abjeo de outros servindo-se de argumentos que o leigo no pode refutar.  o est acontecendo.  educao sexual familiar e escolar junta-se a sanitria, que certamente no  melhor que as duas primeiras. Fala-se, por exemplo, no perigo de um exerccio no disciplina da sexualidade, proclama-se que a sexualidade feminina se identifica com a maternidade, afirma-se que o senso comum do pudor parte da fisiologia humana e que portanto a ausncia de pudor  um trao patolgico, dramatizam-se os riscos da contracepo, elogia-se a prostituo como defesa da famlia, etc. E  importante tambm o seguinte: os especialistas podem, em seus campos, serem especialistas o quanto quiserem; mas isso no os torna educadores. Dizendo em outros termos, sua cincia os qualifica como educadores aptos a responder s exigncias da sociedade conquanto aceitam o jogo que lhes  imposto. E, di diz-lo, eles o fazem com freqncia alarmante.
A POLITICA
     Que os posicionamentos polticos de direita batam-se a favor de uma educao sexual mentirosa e castradora pode no surpreender.  Est bastante claro que o conservador recusa as transformaes que um estmulo liberador, como a educao sexual propriamente dita, inevitavelmente promove. Mas surpreende o fato de que at os movimentos progressistas, mesmo aqueles que prognosticamos como minoritrios, tomem parte no moralismo sexofbico. Passaram-se sessenta anos desde que os decretos de Lenin e os escritos de Trotsky lanaram um ataque decisivo  desumana ordem czarista desmantelando a instituio familiar e as bases da servido sexual, e agora estamos novamente s voltas com os fetiches que os primeiros revolucionrios acreditavam ter liquidado. J em 1923 o sistema sovitico comeou um explcito movimento de retirada das posies conquistadas em 1917/18 e depois, entre 1933/35, se posicionou declaradamente na rea da mais grosseira represso: defesa extremista da famlia e do matrimnio, guerra  contracepo, condenao indscriminada do aborto, campanha demogrfica, negao da sexualidade juvenil, etc. A reviravolta dos dirigentes moscovitas no esqueceu de condicionar pesadamente os comunistas de todo o mundo. Em 31 de outubro de 1935, por exemplo, L'Humanit publicou um artigo que continha estas assombrosas afirmaes: "Os comunistas querem lutar pela defesa da famlia francesa. Romperam definitivamente com a tradio pequeno-burguesa, individualista e anrquica que faz da esterilizao o seu ideal. Eles querem preparar um pas forte e uma raa fecunda. A URSS indica o caminho. Mas  necessrio tomar medidas efetivas para salvar a raa". Parecem palavras de um discurso de Mussolini.
      Sobre esta estrada alguns supostos progressistas ainda marcham.  bem verdade que, faz pouco tempo, surgiu uma publicao na qual alguns intelectuais de esquerda propunham corajosamente uma nova linha de pensamento e de ao no tocante  poltica sexual. O trabalho "Famlia e Sociedade Capitalista", (2) continha textos de Luciana Castellina, Pier Giorgio Rauzi, Giuliano Della Pergola, Mariella Gramaglia, Umberto Cerroni, Franca Pieroni, Nilde Jotti, Rossana Rossanda e outros, e abordava com urna certa vivacidade assuntos inflamados, como a relao entre lei e famlia, a famlia e a religio, o divrcio, as interferncias episcopais em assuntos sexuais e similares.  tambm verdade que a defesa do divrcio deu-se em um clima de aberta e unnime sublevao das esquerdas contra a represso sexual. E  enfim verdade que faixas cada vez mais amplas do setor laico e progressista vo assumindo, nos confrontos com a sexualidade, uma postura nova, aberta e liberadora. Mas ainda estamos bem longe do momento no qual as reivindicaes pela liberdade sexual faam parte integrante da luta poltica. Tanto no topo como na base dos movimentos de trabalhadores existem ainda pessoas que rejeitam firmemente tudo aquilo que, para elas,  "anarquia sexual". Muitos entre os mais acesos revolucionrios permanecem, dentro da vida domstica, implacveis conservadores. Frente  instituio matrimonial,  organizao de uma famlia  fechada e inabalvel,  hierarquizao das relaes intrafamiliar  chamada fidelidade conjugal,  represso da sexualidade prmatrimonial, etc. muitos abaixam a cabea, reverentes. Assim, a educao sexual que o filho de um operrio, de um sindicalista ou de lder poltico recebe no  muito diferente daquela que recebe o filho do capitalista, do burgus mdio, do reacionrio ou do fascista. A idia de que a liberdade consiste na faculdade de realizar prprios desejos, incluindo os sexuais, e portanto de satisfazer prprias necessidades, no encontra consenso expressivo nem mesmo entre os proletrios politicamente empenhados. Parece que para um bom nmero de militantes a liberdade deve brotar de uma de minada ordem econmica, e s dela. Em outros termos, parece que poucos ousam pensar que a economia deveria estar a servio da necessidade-desejo, e no vice-versa.
     A educao sexual esterilizante e moralista que os pretensos revolucionrios concedem aos prprios filhos e aos prprios alunos  na verdade a conseqncia, lgica e previsvel, de um medo tipicamente reacionrio: o medo de perder o poder. A sexualidade, repetimos ainda uma vez,  inimiga de toda forma de poder, portanto  temidssima por aqueles que querem exercitar uma forma qualquer de domnio sobre quem quer que seja. O livre fluir da sexualidade, que  procura de prazer e amor,  inconcilivel com a opresso, com a disciplina militarista, com as renncias em nome da permanncia das instituies, com o dio, com a perseguio  com a fetichizao do sacrifcio, com a "sublimao" dirigida  conquista. E so estes os elementos do que se costuma chamar luta poltica. Sobre este propsito  exemplar o que escreveu membro do Partido Comunista holands, em 1935: "Nos da conta que uma restrio da sexualidade , seja sob o aspecto
ou sob o aspecto social, uma premissa para a sublimao. S sublimao proveniente de uma moral sexual cuja rigidez  insdita permitiu as poderosas criaes do trabalho cientfico, artstico, da raa branca. A humanidade aprendeu a ser feliz no mais atravs da harmonia do seu prprio sistema com a natureza, mas a ser feliz enquanto a sua vontade consegue dominar e modificar a natureza. O trabalho, e portanto a nossa tica do trabalho, tornaram-se o smbolo deste domnio e desta vontade de mudana" poder do partido, que se exprime no domnio sobre homens e coisas, indubitavelmente fascina no poucos de seus membros. Tanto que talvez no esteja realmente longe a hiptese de alguns, segundo a qual o Partido poderia assumir o papel de um genitor autoritrio e protetor que concedesse defesa e apoio em troca de disciplina e submisso.
     Mas nem todos os militantes de esquerda esto dispostos a  admitir uma realidade deste gnero. A educao sexual repressiva, ministrada por alguns dos chamados progressistas s novas geraes, baseia-se em grande parte em motivaes de outra natureza. Motivaes que notadamente assemelham-se a pretextos o mais das vezes inconsistentes. Diz-se por exemplo que a sexualidade - qualificada freqentemente como licenciosidade, vcio, libertinagem, depravao, luxria, devassido, etc. - debilita a personalidade do revolucionrio e o afasta da luta de classes, alm de ser um impulso burgus que deve ser rejeitado com absoluta determinao. Sustenta-se que a revoluo precisa de braos e de crebros, precisa da massa a mais numerosa possvel, e que por isso o verdadeiro proletariado deve ser prolfico, deve distanciar-se do prazer sexual como um fim em si recusando qualquer forma de contracepo. A procriao dos filhos em ritmo contnuo, proclama-se,  um dever sagrado daqueles que militam em um movimento poltico progressista. Afirma-se que a liberao da sexualdade, afastando das fileiras inovadoras os componentes tradicionalmente sexofbicos como os catlicos, acabaria por despedaar a frente "revolucionria". Estabelece-se que o revolucionrio deve ser casto, virtuoso, asctico e assexuado, e que ao mesmo tempo deve dar as costas s crticas e s ciladas do maldoso reacionrio.

NOTAS
In Zeitschrift fiir politische Psychologie and Sexualkonomie, IV/1, 
Quaderno n. 1 de 11 Manifesto, Alfani Editore, 1974.

3.
AS FALSAS PALAVRAS
O terreno sobre o qual prospera a falsa educao sexual  o da hipocrisia. Em pblico cria-se uma imagem da prpria sexualidade que no  verdadeira, e ela  apresentada como uma trama bem ordenada de relaes pr-estabelecidas e codificadas. Mas na privacidade aceita-se tranqilamente aquelas "desordens" que oficialmente so recusadas como perverso, desvio, depravao, e assim por diante. Um cidado mdio pode ter uma amante, mas no aceitar nunca colocar em discusso a fidelidade conjugal. A cidad mdia pode ter uma libido normal e por isso procurar alguma satisfao no necessariamente ortodoxa, mas frente s pessoas representar sempre o papel da perfeita me de famlia, disciplinada e frgida. Usa-se largamente a prostituio, pratica-se o aborto clandestino em escala nacional, sustenta-se um promissor mercado da chamada imprensa pornogrfica, abusa-se do corpo feminino usando-o como meio para incrementar o consumismo, mas se mantm a fachada da mais rigorosa retido moral. Trata-se de uma falsidade que, apesar disso, passou a fazer parte dos costumes e que  considerada absolutamente normal. Uma mentira coletiva que goza da proteo do moralismo corrente, o qual est disposto a tolerar qualquer baixeza a nvel individual, mas no transige sobre a exterioridade da norma. Atos impuros so cometidos sem nenhum impedimento, mas condena-se a impureza. E para manter viva e operante tal condenao, a despeito de uma realidade que a contradiz de modo evidente, recorre-se a um lxico particularmente mistificatrio, feito de grandes palavras nas quais se coloca um contedo cmodo. Da hipocrisia dos fatos avizinha-se a hipocrisia das palavras.
A MORAL
Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moral sexual, isto , que a sexualidade deve ser gerida basicamente por um cdigo moral que lhe seja prprio e que  diferente daquele destinado a guiar outras expresses humanas, como por exemplo a ao poltica ou econmica. Conseqncia disso  que uma determinada operao, suponhamos - a procura no finalizada do prazer, pode ser lcita e at louvvel em um certo campo por exemplo no da gerao de idias ou do atletismo - e condenvel no campo sexual. Descobrir a soluo de um problema cientfico ou deitar-se em um gramado para tomar sol so coisas que do prazer, freqentemente um prazer que  fim em si mesmo e sobre o qual ningum tem nada a dizer. Mas todos tm muito a dizer se a satisfao, desvinculada de fins procriativos, sociais ou de outro gnero,  procurada na rea da sexualidade.
     As normas ticas reservadas ao exerccio da sexualidade so sugeridas, ou impostas, em uma perspectiva de relatividade e de aderncia s necessidades de um dado contexto social. Isto parece lgico se o livre fluir da sexualidade, no limitada por ordenaes particulares, causasse dano quele determinado tipo de ordem comunitria e, naturalmente, se este ltimo fosse satisfatrio a ponto de ser conservado inalterado. Eis os dois postulados sob os que se funda a tica sexual: no h hiptese, ao menos por ora,
um sistema melhor que o atual, e tal sistema no deve deteriorarem contato com um costume sexual liberatrio. Bem, a segunda parte do discurso  previsvel, mas a primeira, ao contrrio, oferece  muitos motivos para perplexidade. Para sustentar a necessidade de uma moral sexual ocorre entretanto que ambas as afirmaes so reconhecidas como plenamente vlidas, e  exatamente nesta direo que se movem os moralistas: as conseqncias de uma liberao da sexualidade so apresentadas como runa, caos e regresso. desintegrao do sistema  interpretada de maneira puramente negativa, e definida como temvel em qualquer de seus aspectos. Em suma, cada soluo alternativa quelas vigentes  considera um prejuzo, algumas vezes dramtico, e afirma-se que uma sexualidade livre conduziria a esse prejuzo da condio humana. Vem da a imposio de uma moral sexual especfica e relativa, prpria para o sistema existente, e portanto a negao de uma tica global e estvel que considere a gesto da sexualidade no nvel de qualquer outro comportamento humano, independentemente das exigncias do prprio sistema. Fala-se ento abundantemente de tica sexual muito pouco de tica pura e simples. Mesmo porque esta ltima ope-se a manobras limitativas que distoram sua essncia e que se traduzam, como no nosso caso, em uma opresso da pessoa em vantagem da organizao social, de cuja perfeio nem sempre existem provas incontroversas. A moral sexual poderia portanto, e no sem razo, ser chamada de imoral. Mas ela  apresentada como um grande sinal de civilidade e como um instrumento indispensvel de progresso.

A NATUREZA
     Todas as prescries da tica sexual fundam-se sobre o conceito de Natureza, ou de "leis naturais". A guerra  contracepo, a defesa do matrimnio indissolvel, a negao da sexualidade infantil e juvenil, a subservincia sexual da mulher, a condenao dos chamados desvios, tudo isso e mais um pouco explica-se pela Natureza, da qual os moralistas - mesmo no nos tendo explicado nunca o que ela seja - proclamam-se os nicos e infalveis intrpretes. O perigo, que j atraiu atenes,  que a Natureza torne-se um objeto por si mesmo bom, isto , moral, que precisa ser defendido a todo custo. Em tal caso chegar-se-ia a acolher, por exemplo, a tese de algumas seitas religiosas segundo as quais a doena, enquanto natural, no deve ser curada; ou se chegaria a rejeitar o emprego da energia eltrica, como ainda hoje fazem certas populaes dos Estados Unidos, pois se trata de energia no natural. Ou se correria o risco de querer salvar um objeto moral, qualquer que fosse, referindo-se a uma normatva declarada mais ou menos arbitrariamente "natural". Ento poderia ser alcanada uma proteo extremista do objeto moral - suponhamos a Ptria ou a Igreja - mediante uma guerra santa baseada na considerao de que tambm na natureza existem guerras. Por exemplo a das formigas. No  uma hiptese paradoxal e a histria do homem est a para demonstr-lo: os massacres feitos "Em nome de Deus!" para defender o Bem do Mal no so poucos nem pequenos, e foram sempre tidos como naturais.
     Para poder usar o basto da Natureza e a tutela da Moral dever-se-ia pois, antes de mais nada, clarificar bem qual o significado das palavras "natureza" e "natural". Aqui aparecem as dificuldades. Os prprios moralistas catlicos admitiram-no explicitamente em mais de uma ocasio. No volume "Magistrio e Moral", (1) que contm as atas do terceiro congresso dos moralistas italianos, sublinha-se o fato de que a Igreja reconduziu grande quantidade de preceitos s leis naturais, vendo-se depois obrigada a recuar frente a certas conseqncias, nitidamente absurdas, de tal conduta. Falar de lei natural  perigoso, at mesmo por um defeito de clareza semntica. Alguns autores, sempre catlicos, propuseram abandonar definitivamente a locuo "leis naturais", posto que muito ambgua e substancialmente abusiva. Foi colocado tambm que o problema da competncia da Igreja sobre os contedos da lei natural  excessivamente debatido entre os moralistas, e que no basta afirmar que se  competente na matria para s-lo de fatos No entanto, no ponto 5 da Declarao sobre a tica sexual elaborada em 29 de dezembro de 1975 pela Sacra Congregao para a Doutrina da F l-se: "Este mesmo princpio (o da finalizao do ato sexual), a Igreja recolhe da Revelao divina e da prpria interpretao autntica da lei natural, funda tambm sua doutrina tradicional, segundo a qual o uso da funo sexual tem seu verdadeiro sentido e sua retido moral apenas no matrimnio legtimo". Chocante, eu diria. Pergunto-me como - estando-se em um juizo perfeito pode-se aceitar afirmaes deste gnero que impem  pessoa humana, catlica ou no, uma determinada conduta sexual em virtude de uma revelao divina e de uma lei natural incerta e esfumaada da qual, com coragem mas sem nenhuma justificativa razovel proclamam-se os intrpretes "autnticos" e exclusivos.

A EDUCACO
     Para a maior parte das pessoas educar quer dizer amestrar criana para que se comporte de um modo determinado, precisamente conforme as exigncias de um costume considerado mdio e normal. Isto implica: que o educando deve ser a criana; que no se pode ter confiana nos recursos e potencialidades da criana a qual, privada do ensinamento supracitado, no chegaria nunca elaborar tipos de comportamento aceitveis; que certos comportamentos, socialmente aprovados, so o objetivo da educao, bem como o seu fim ltimo, sem o qual se reincidiria na anormalidade que o impulso de operar daquela determinada maneira deve fazer parte da mentalidade do educando at que, em certo ponto, no precise mais ser educado e possa seguir o caminho sozinho tornando-se por sua vez um educador. Bem educado seria, por isso, um indivduo que age segundo as normas estabelecidas pelo costume vigente, que esteja perfeita e irreversivelmente condicionado neste sentido, e que portanto no precise de vigilncia ulterior ou de outros  ensinamentos. Se tudo isto  verdade, fica por esclarecer qual diferena entre uma criana bem educada e um co bem amestrado E qual a diferena entre educao e um banal e grosseiro condicionamento.
     Na verdade, o mais elementar bom senso induz  recusa categrica de todos os pressupostos do que normalmente se chama educao. Pensar que a criana deve ser educada e o adulto no 
 absolutamente ridculo. Se se admite, e no vejo como neg-lo de forma razovel, que a educao  uma operao dialtica na qual a pessoa  o sujeito, e no o objeto, e, que constitui o primeiro empurro para todo o movimento evolutivo, no se compreende por que motivo o adulto no continua participando dessa operao, Como se a chegada da chamada maturidade coincidisse com um estado de perfeio absoluta e insupervel. No se compreende que motivo a criana necessariamente tornar-se- anti-social, selvagem e criminalide se o adulto no providenciar reprimir-lhe o Mal e ensinar-lhe o Bem, por meio de uma espcie de domesticao. No se compreende ao menos qual o valor de uma estrutura psquica imutvel, governada por um Superego prefixado, indelevelmente marcada na mente do indivduo e que dirige as aes deste em uma nica e sempre idntica direo. Uma humanidade composta de gente "educada" deste modo seria bastante similar a um formigueiro. E de fato parece que o . No entanto esta educao, condicionante e opressiva,  a predileta de quase todos. A criana no deve ser aquilo que , no deve realizar sua potencialidade, no deve avanar pela sua estrada, no deve desenvolver as suas qualidades. Ela tem obrigao de tornar-se igual a ns, de desenvolver-se segundo a nossa vontade, de percorrer o caminho que ns escolhemos, de valorizar a qualidade que ns julgamos boa. Ns somos infalveis e perfeitos, e deste axioma partimos para plasmar os nossos filhos. A nossa imagem e semelhana, bem entendido, assim como fez Deus. Talvez Nietzsche tivesse razo quando sustentava que os educadores so os inimigos naturais das crianas e dos jovens.

A RESPONSABILIDADE
     Eis um dos instrumentos mais caros  represso sexual: a Responsabilidade. Para exercitar a sexualidade  preciso ser responsvel. E a criana, sabe-se, no pode ser responsvel. Nem o jovem. A responsabilidade chega com a idade madura, quando chega. Para muitos no chega nunca, e por toda sua vida esses sero julgados irresponsveis e inaptos para toda relao sexual. Os rebeldes, os contestadores, os anticonformistas, os originais, os livres pensadores, os no alinhados, os brincalhes, os sonhadores, os utopistas, todos so irresponsveis. Se se quer impedir algum do exerccio da sexualidade basta dizer que esse algum no tem senso de responsabilidade. E  o que se diz de todo aquele que no respeita as regras do jogo impostas pelo sistema.
Parece-me bastante precisa a formulao de Fromm: "Responsabilidade  a capacidade de responder  necessidade, expressa ou inexpressa, de um outro ser humano". Se penso no bem-estar dos outros, se no sou surdo s solicitaes dos meus semelhantes, se concedo minha ateno queles que esto  minha volta, ento sou uma pessoa responsvel. Mas o significado que os nossos moralizadores associam a esta palavra  bem outro: ser responsvel, segundo esses bravos cidados, quer dizer inserir-se ordinariamente e docilmente no mecanismo social, aceitar suas imposies, "constituir uma famlia", adaptar-se a um trabalho "normal", ter sucesso, conseguir alcanar uma certa posio econmica, e sobretudo ter a idade certa. Que , intil diz-lo, a adulta. Viver a prpria vida com alegria,
com generosidade, com amor,,  coisa de gente irresponsvel.  preciso viv-la sofrendo, na alienao e na submisso aos ditames da tradio, na renncia e na resignao. Responsvel, em suma, seria aquele que exercita a prpria sexualidade nas .condies do costume vigente, dado que a submisso aos costumes parece ser a nica garantia considerada vlida para a tutela da pessoa humana. 
     O discurso do moralismo sexofbico  bastante sutil: se voc faz amor com uma jovem deve espos-la; se gasta suas energias no sexo no sobrar nenhuma para a realizao dos seus deveres; se voc, mulher, perde a virgindade, est privando seu companheiro de um bem a que ele tem direito; se voc se une a uma pessoa fora da instituio matrimonial ficar em uma situao socialmente  incmoda, e assim por diante. Discurso sutil, repito, mesmo que os argumentos sejam trgicos, pois se trata de um discurso chantagista que impe a culpa: se voc no respeita as regras far mal  pessoa que voc diz amar. Voc ser portanto culpado frente ao seu(sua) companheiro(a) e apenas a obedincia s regras poder reparar o seu erro. Que dois seres humanos possam assumir verdadeira responsabilidade de estarem juntos em uma troca proca de amor e prazer, e de contarem consigo mesmos e no com a aprovao social para serem felizes  coisa praticamente impensvel para muitos dos chamados educadores. Existem jovens e at crianas freqentemente mais responsveis que certos adultos, e existem cidados humildes bem mais responsveis que os qualificadssimos  guardies da moral. Mas oficialmente jamais sero reconhecidos como tal: a responsabilidade mistura-se com a firma reconhecida e
a conta corrente do banco. Quem no est de posse de documentos  irresponsvel, portanto inepto para o exerccio da sexualidade, portanto culpado caso a exercite. No acredito estar exagerando. Infelizmente este discurso sobre a responsabilidade freqente e mal acabado, com urna referncia constante a normativa que parece nutrida mais de burocracia que de razo.

A MATURIDADE
A palavra "responsvel" assoca-se fortemente a palavra duro". Quem  maduro  automaticamente responsvel. E vice-versa.   bom lembrar que na linguagem comum "maturidade" significa 
o alcance de um determinado. nvel evolutivo: aquele que mais menos coincide com as caractersticas da idade adulta. Este  definido por um conjunto de peculiaridades que, por tradio,  considerado o melhor em termos  de comportamentos humanos essas peculiaridades so derivadas de um modelo preexistente transmitido, exatamente, pela tradio. Portanto  julgado maduro a que copia com suficiente fidelidade este modelo, mais ou mesmo 
antigo. Assim, a maturidade de um indivduo depende menos da procura de uma experincia pessoal e mais da capacidade de adaptao a um modelo dado. Entende-se que tudo isso vale tambm para a sexualidade. A sexualidade madura  aquela que corresponde ao comportamento do adulto mdio normal: genitalizada, procriativa, monogmica ou monondrica, e institucionalizada. A chamada sexualidade conjugal. As outras formas de atividade sexual so imaturas e portanto imperfeitas. Toleradas com reserva se so praticadas por crianas, condenadas se so praticadas por jovens ou adultos. Devem ser controladas no primeiro caso, e reprimidas no segundo. Em outras palavras a sexualidade extragenital, no procriativa, no polarizada permanentemente em uma nica pessoa e no institucional, impe uma teraputica, de educao ou reeducao, que a canalize para a maturidade.
     Uma colocao desse tipo  funcional relativamente aos esquemas habituais de conservao cultural, mas no  facilmente sustentvel. J h alguns anos Arthur Jersild escrevia: "A maturidade no  um ponto terminal ou um resultado final, mas uma qualidade ou caracterstica, relativamente alcanvel em cada idade ( ... ) no  uma meta longnqua, mas uma realidade presente: cada um  maduro em proporo ao quanto foi capaz de realizar ou est para realizar,, bem como em proporo  sua capacidade de fazer, de pensar, de sentir e de participar ativamente de cada estgio da vida".(2) Evidentemente esta concepo  bastante mais dinmica e credvel do que aquela que vimos acima, que  continuamente reproposta. Mas, aceitando-a como vlida, devem-se acolher tambm os seus efeitos desastrosos sobre nossos esquemas habituais: amadurecer no deveria abolutamente reportar-se a formas de conduta transmitidas do passado e validadas pelo consenso da quase maioria, mas antes deveria significar uma progressiva conquista de si prprio. Tratar-se-ia pois de viver em um certo modo e no de chegar a um certo nvel de perfeio tido como insupervel. Com efeito, parece arriscado falar de sexualidade madura e de sexualidade imatura, e declarar aceitvel a primeira e inaceitvel a segunda partindo do pressuposto de que, entre as duas, exista um ntido limite cronolgico abaixo do qual presume-se a imaturidade. E parece ainda mais arriscado associar a sexualidade madura ao adulto e a imatura  criana e ao jovem, posto que a sexualidade pertence ao homem como tal, independentemente da sua idade, e que uma criana de poucos meses pode muito bem ser mais madura que um adulto, se  verdade a colocao de Jersild. Talvez fosse oportuno evidenciar, no tocante a este propsito; que comumente identifica-se a maturidade sexual com a organizao genital tpica do adulto considerado normal. Mas deve-se tambm lembrar que segundo alguns estudiosos, no poucos e no negligenciveis, a organizao genital seria uma tirania exercida pelo sistema sobre o indivduo, enquanto o homem traria indelevelmente estampada dentro de si a sexualidade "global" e polimorfa, prpria da infncia. Assim a limitao da maturidade  dentro da esfera da organizao genital viria a configurar-se depauperamento das potencialidades e das atitudes da pessoa, portanto como fator de no-maturao.
      importante precisar um ltimo aspecto: a maturidade, acepo tradicional da palavra,  herana da pessoa dotada de conscincia moral socialmente aprovada. Mas a conscincia aprovada pelo nosso costume  uma forma de autoridade interiorizada promove um constante e instvel conflito entre instinto(Es) e Ego, e que produz portanto uma desagregao da personalidade, tende a produzi-la. A chamada maturidade, em outros termos, peculiar a uma condio de autodestruio. Estaria, portanto, permeada pela morte. "A destruio que se move em seu interior  constitui o ncleo moral da personalidade madura. A conscincia, a funo moral mais adorada pelo indivduo civil, resulta permeada pelo instinto de morte; o imperativo categrico imposto pelo Superego permanece um imperativo de autodestruio, enquanto constri a  existncia social da personalidade". (3)
     Conclui-se que  imprudente, alm de arbitrrio, usar a palavra "maturidade" assim como  usada hoje, especialmente no que  educao sexual. Sexualidade madura, como querem alguns, poderia significar na verdade sexualidade mutilada, apagada mortificao, regressiva e frustrante. Isto , anti-sexualidade.

O DEVER E O SACRIFICIO
     Quando se fala de sexualidade fala-se habitualmente de matrimnio e famlia, e quando se fala de famlia ou de matrimnio fala-se de Dever e de Sacrifcio. A abertura conjugal para a sexualidade - e este aspecto  tido como inevitvel para a fundao de uma obra educativa - no  abertura ao prazer, mas  sobretudo compromisso para a disciplina, para a renncia e para um autocontrole que se dissipa largamente na auto-represso. Uma sexualidade que no governada pelo Dever, entendido como represso de si prprio, acabar fatalmente condenada, posto que vergonhosa e infame.  at desnecessrio sublinhar o fato de que o educador ortodoxo fale continuamente de Dever. Convm, ao invs disso, prestar ateno na ambigidade desta palavra, que freqentemente esconde atrs de sua nobre aparncia um contedo substancialmente comercial. De fato quando algum age unicamente por dever aceita o sofrimento, mas pretende alguma coisa em troca. Cumpre o dever para se sentir includo no grupo dos bons e conseguir algum proveito, para ser
aprovado e estimado, para obter um prmio futuro neste ou no outro mundo, para conquistar um poder privado ou pblico. Cabe perguntar o que a sexualidade tem a ver com tudo isso j que, como se dizia, deveria ser prazer e amor e no sofrimento e comrcio. No se pode amar por dever. O amor "devido" no existe, no pode existir. E o prazer quando  devido, isto , obrigatrio, cessa imediatamente de ser prazer.
     O Dever implica obviamente no Sacrifcio. O discurso continua com poucas variantes. Mas se apenas levantarmos a cortina da retrica rudimentar que encobre esse vocbulo, vistosamente ambguo, no poderemos deixar de perceber que, em substncia, sacrificar-se equivale a penosamente empenhar-se na glorificao da imagem que se tem de si mesmo, ou garantir a posse sobre quem se "ama", ou ainda para aprisionar os outros na rede da gratido e portanto conseguir melhor domin-los. O Sacrifcio, como o Dever,  ainda e sempre uma transao comercial. Moral ao invs de monetria, mas nem por isso menos rude. Evidentemente dar qualquer coisa por amor no  nunca um sacrifcio mas, certamente,  um prazer e uma alegria. Logo, uma necessidade. Dizer que o amor impe sacrifcios, no sentido do sofrimento,  pouco sensato. E contraditrio. Todavia esta contradio encontra grande crdito junto aos educadores, e pode-se imaginar que a razo seria a seguinte: mediante o espectro do Dever-Sacrifcio procura-se ofuscar, ou extinguir, a substncia da sexualidade, transformando-lhe o regozijo em tdio, o prazer em nsia e desiluso, o amor em autodestruio:  uma operao que no geral parece conseguir bons resultados. O esqulido fantasma do pai de famlia que se aflige para sustentar os filhos, ou da me de famlia dessexualizada e consumida pelas incumbncias domsticas,  a coroao da relao sexual "normal", e parece que um grande nmero de pessoas acredita nela. Talvez falar de castrao moral coletiva seja exagerado, mas falar de educao e seguramente falso.

A INOCNCIA
     O trabalho do educador  quase sempre direcionado no sentido de fazer com que a criana e o jovem se comportem como adultos. Considera-se muito importante que o filho, ou o aluno, aprenda rapidamente uma quantidade notvel de idias, que desenvolva atividades integradas dentro e fora da escola, que respeite as regras da vida comunitria, que no cause distrbios, que "raciocine", que execute pontualmente as ordens, que se adapte aos costumes, etc. Faz-se de tudo para que seja mais inteligente, mais hbil, mais estudioso, mais forte, mais empreendedor, mais socivel. Mas nada se faz para que aprenda alguma coisa sobre a sexualidade e sobre prazer-amor, ou para que aprenda a gozar o prprio corpo. A zona da sexualidade  a nica zona proibida, onde a criana no deve pr os ps. A criana deve aprender de tudo, mas nada referente ao sexo. Como j foi dito muitas vezes, o sexo  o limite, a barreira, a linha de demarcao entre a menor e a maioridade. O sexo  o feudo do adulto. Quem no  adulto deve ser privado de sexualidade, quer dizer, deve permanecer inocente. A inocncia  a conotao mais relevante que se atribui  criana. E esta total ignorncia da sexualidade - ou, inocncia -  defendida por todos os meios. Costuma-se dizer: no  necessrio perturbar a inocncia da criana, no  preciso mancha-la e no se deve permitir que a criana a perca. Portanto  indispensvel defender a criana da curiosidade mals, dos contatos excitantes, dos estmulos inconvenientes.  preciso fazer com que no toque em excesso nos prprios rgos genitais e muito menos nos dos outros, que no se envolva em jogos proibidos e,naturalmente, que no se masturbe. Qualquer atividade infantil que  faa referncia  esfera sexual deve ser impedida a qualquer custo. Caso contrrio a criana perder, para sempre, a sua inocncia.
     Perde-se a inocncia no s como conseqncia de ms aes, mas tambm por conhecimentos inoportunos. A criana no dev, saber tudo. Alguma coisa sim, de modo a satisfazer a sua petulante curiosidade, mas tudo certamente no. Sabendo demais a criana poderia ter maus pensamentos e desejos deplorveis, que maculariam com o lodo da malcia a limpidez da sua ingenuidade. Fala-se, nos  tons mais poticos, do vulo materno e do smen paterno, da npcias, da maturidade, das flores e das borboletas. Fala-se tambm, mas com cautela, do fato de que fmea e macho no so iguas.  Mas nada alm. Explicar, por exemplo, que os meninos tm um pnis e as meninas uma vagina  j arriscado porque isto atrairia a ateno do pequeno inocente sobre seus rgos genitais, e quem sabe com que funestas conseqncias. No faz muito tempo um semana milans publicou as opinies de alguns leitores sobre um programa televisivo de educao sexual. Uma senhora de nome Catarina escreveu: "A mim parece a `matana dos inocentes', em sentido espiritual ( ... ) em uma tenra idade de desenvolvimento no se deveria  estimular a parte inferior do ser humano e perturbar, antes do tempo seu equilbrio psicofsico". Uma outra, Maria Rosa: "No faam as criancinhas pensarem em sexo! H tempo, deixem-nas despreocupadas e inocentes". E uma terceira pessoa, de sexo no especificado: "No vejo quais os danos que pode causar uma me que, com um sorriso, responde ao filho que quem o trouxe foi o Senhor Deus. .." Finalmente chega a vez de um tal Papai Nando que declara, irado: Mas esta poca de folia vai acabar e a velha e bonachona cegonha  voltar ( ... ) a TV no deve contentar os erticos por profisso e os amantes do vcio: por um bando de depravados, hoje,; toda sociedade perdeu o controle sobre o lcito e o ilcito". Parece que estes bravos pais e mes de famlia consideram que nada  mais precioso que a ignorncia. Parece que consideram a cegonha necessria para deter a obra malfica dos erotistas, dos viciados e dos depravados. Parece que eles propem o no saber como o Bem mximo para a criana, para o menino e, talvez, tambm para o jovem. Parece, finalmente, que estes paladinos da inocncia no esto a par do fato de que a ausncia de informao, e a angstia que dela deriva, podem levar um menino ao desespero e at ao suicdio. J aconteceu. Ou ento caberia acreditar que o fervor dos moralistas  tal que os faz considerar o fenmeno do suicdio como um incidente trgico, sim, mas de relevo secundrio frente  hiptese de uma contaminao da alma infantil.
     A nsia em proteger a inocncia das crianas logicamente leva o adulto a afastar dos pequenos tudo aquilo que poderia ofender essa inocncia. Em primeiro lugar a experincia. O pensamento de que uma criana, ou um meninote, possa experimentar o prazer da masturbao, ou que tenha como ver uma pessoa nua, ou que se depare com o espetculo efusivo de duas pessoas enamoradas, ou que oua falar de abraos e coisas semelhantes,  intolervel para alguns educadores. E quem, ao contrrio, acha tolervel acaba sendo acusado de ser um "obcecado por sexo" e substancialmente um corruptor.
     Uma coisa  certa: a criana que sabe alguma coisa sobre sexo ou pior, que desenvolve uma atividade sexual, semeia o pnico entre adultos de um determinado tipo. J vimos a razo deste curioso fenmeno. Mas talvez ainda exista outra, essa tambm muito simples: o adulto sente-se inconscientemente perseguido pela represso que ele mesmo exercita e mantm, e gostaria de liberar-se dela da nica maneira que pode aceitar, isto , eliminando o que deve ser reprimido, a sexualidade. O adulto em suma gostaria de libertar-se da prpria sexualidade para no ter que sujeitar-se  represso. Gostaria de ser "inocente". Para tanto criou um modelo de inocncia, e este modelo  a criana. Se a criana no fosse inocente o adulto no teria  sua disposio nenhuma referncia para fundar a hiptese de uma nosexualidade, no poderia sustentar a possibilidade concreta de uma existncia separada do sexo e seria inexoravelmente condenado  represso. O adulto, para poder tolerar o prprio moralismo sexofbico, precisa desesperadamente da criana assexuada e inocente. Por isso a inventou e pretende que ela assim seja, ignorando o fato de que a criana no  inocente. Ou pelo menos no o  no sentido que comumente se d a essa palavra.
A PUREZA
     So duas as categorias humanas cuja sexualidade  negada: a primeira, como vimos,  a das crianas, a segunda  a das mulheres.
Para as crianas foi socialmente elaborada a virtude da inocncia, para as mulheres a da pureza. A categoria feminina, que segundo a nossa cultura  do tipo receptiva-passivo, articula-se convencionalmente em uma srie de posturas obrigatrias que compreendem acima de tudo um certo tipo de disponibilidade, a submisso e a fidelidade. Se a mulher aceita a condio que lhe  imposta, qualificada a partir destes trs princpios,  pura. De outra forma no o . Se  pura, ou seja, capaz de reprimir o desejo em funo de uma pertinncia jurdica a um determinado homem, deve manter uma conduta sexual mente limitada, ou assexuada, tornando-se o objeto  disposio da sexualidade marital e privada de impulsos prprios. A libido feminina, quando reconhecida, pode manifestar-se apenas em. operaes ordenadas; discretas e programadas.
     A pureza exprime-se portanto em primeiro lugar na devoo a marido. Sobre este tema alguns educadores assumiram posies que, poderiam ser consideradas extremistas, chegando a afirmar que mulher no deve trabalhar fora porque "esta atividade toma-lhe foras que precisa para assistir o marido", ao qual deve uma "dedicao completa". Estes conselhos esto em um livro educativo alem dos anos sessenta. Logo, a mulher que tambm tem interesses pessoais  suspeita; aquela que procura fora dos muros domsticos alguma  satisfao, mesmo que puramente cultural, est destinada  desaprovao; e aquela que procura satisfaes sexuais fora do matrimnio  condenada.
     O outro aspecto fundamental da Pureza  a Maternidade: uma mulher que tem relaes com um homem diferente do mas  condenvel, aquela que se deixa abraar apenas por prazer desprezvel. Admitem-se apenas duas justificativas para a sexualdade feminina: a dedicao ao marido e a maternidade. Diga-se de passagem que estas duas justificativas, contrariamente ao que acontecia no passado, j so aceitas at pelos sexofbicos mais irredutveis. aceitas pela igreja catlica, por exemplo que poucas dcadas as considerava com notvel desconfiana. Hoje o ,magistrio vaticano elogia, praticamente sem reservas, o amor conjugal e a procriao superando assim a posio paolna que colocava o matrimnio na rea das estratagemas para evitar a perdio da luxria. A sexualidade de per si, permanece como reprovvel, mas pode ser resgatada nas exigncias conjugais e na procriao. Se a mulher tem relaes  sexuais com o marido, e s com ele, e se consente a possibilidade que cada relao seja prolfica, pode ainda ser considerada pura.
     A vlorizao da pureza poderia ser reduzida  pura curiosidade antropolgica se dela no fosse feito um instrumento de presso se no fosse ela a causa de autnticas tragdias. Kentler,(4) em seu  trabalho citado mais acima, refere-se ao seguinte episdio: "Ento notamos que as 
moas das classes inferiores eram extremamente reticentes ao falar de anticoncepcionais e preferiam discutir o melhor sistema para `eliminar a criana'. Uma vez perdi a pacincia: `Por que vocs se interessam tanto pelo aborto? Por que ao invs disso vocs no procuram saber o que se faz para no engravidar?' As moas ficaram incomodadas e realmente no sabiam o que dizer. Apenas depois de outros cursos percebemos o motivo dessa resistncia. Para estas moas a nica imagem positiva da mulher  a da me, e correndo o risco de uma gravidez sentem-se em paz com sua conscincia, posto que nada fazem contra a natureza, A adoo dos anticoncepcionais, ao contrrio, significa uma recusa aberta  maternidade e uma aceitao total da sexualidade, coisa digna apenas das prostitutas". A descoberta de Kentler no  surpreendente: quem j se ocupou do problema do aborto sabe muito bem que um dos motivos mais fortes que leva a este tipo de soluo  a fetichizao da maternidade-pureza, de maneira que se uma mulher quer ter respeito por si mesma deve estar em condio de ser me, uma condio pura e respeitvel, mesmo que depois tenha que pagar a prpria respeitabilidade com a interrupo da gravidez. E tambm no surpreende o fato de que sustentando uma educao sexual fundada sobre a mistificao da pureza estejam os mesmos que falam do aborto-homicdio e do respeito pela vida. Como se sabe, a tica fundada sobre a abstrao dos princpios leva a contradies deste tipo.
O PUDOR
     Dizer a ,um homem que ele  despudorado equivale a censur-lo. Chamar uma mulher de despudorada  um verdadeiro insulto. O pudor  uma qualidade inevitvel da pessoa normal e s, especialmente se for uma pessoa do sexo feminino. Geralmente os educadores nunca tm dvida sobre este ponto. Para uns o pudor  natural e instintivo, para outros  o fruto do progresso e da civilizao. Para todos  alguma coisa absolutamente necessria para se viver ordenada e virtuosamente. Quem se mostra nu comete um delito. A menos que o faa no tempo, modo e lugar estabelecidos pelos regulamentos de um determinado sistema, oferecendo o corpo como instrumento de lucro, por exemplo, na publicidade ou no espetculo. Caso contrrio trata-se de uma desordem socialmente perigosa. O senso comum do pudor, defendido pela Lei,  um dos principais esteios dos bons costumes. E o bom costume  um dos princpios-guia para a educao sexual. Ningum entretanto jamais disse que coisa seja o pudor.
Pode existir em cada um de ns uma certa reserva no que toca s opinies polticas, s orientaes existenciais, s aes de todo dia. E  sem dvida compreensvel que em muitas ocasies no se queira tornar pblico o que, por um motivo ou por outro, se considera ntimo e privado. Todavia nada disso chama muito a ateno.  normal aborrecer o prximo com longas exposies pessoais sobre como combater a criminalidade, ou com preocupaes e opinies polticas, ou com uma detalhada descrio do nosso estado de nimo, ou com o relato completo do que se fez no fim de semana. O mais das vezes a discrio  uma qualidade pouco apreciada pelos que falam e pelos que ouvem, pelos atores e pelos espectadores da vida cotidiana. Os comportamentos mais imodestos so perfeitamente tolerados, e algumas vezes encorajados, em todas as esferas da atividade humana, incluindo as menos confessveis. Exceo feita  esfera sexual. Ningum se envergonha de ser o mais "esperto", de fazer bons negcios s custas dos outros, de guiar o automvel como um louco e colocando em perigo a vida dos pedestres, de manifestar o prprio dio, de ser "protegido", de nutrir aspiraes ao poder, etc. 0 arrogante, o ladro, o incivil, o invejoso, o bajulador, o ambicioso, no fazem nada para esconder as prprias empresas. Antes as ostentam, contando vantagem. E no raramente so admirados e invejados, j que a Lei no tem instrumentos para persegui-los. Mas as expresses de desejo sexual so objeto de execrao e de perseguio jurdica, especialmente se no correspondem aos paradgmas da moda. Disso sim devemos nos envergonhar. Mas escondido, caso contrrio pessoas poderiam ver. 0 pudor est curiosamente ligado ao sentido da viso. Como se as qualidades sexuais fossem uma ignominiosa deformidade da qual somos culpados e que precisamos esconder. como se a atividade sexual fosse uma perversidade. Definitivamente pudor, na acepo comum do termo,  o no mostrar aquilo que  e aquilo que se faz no mbito da sexualidade. E sobre esta ntida incongruncia erigiu-se uma das pilastras da educao sexual.
     Para justificar esta singular estranheza afirma-se, como esboamos acima, que o pudor  instintivo. Afirmao que implica numa notvel negligncia para com a histria do costume humano.Na Idade Mdia a nudez em pblico era coisa habitual, tanto que salas de banho dos grandes castelos possuam uma galeria para hspedes, e at os contatos mais "impulsivos" ocorriam  vista todos, incluindo crianas. Tambm no Renascmento a nudez, especialmente a feminina, era plenamente aceita e realmente apreciada em vrios ambientes, at no eclesistico. Foi entre os sculos XVI e XVII que comeou a se difundir o desprezo pelo corpo. Mostrar nu ou seminu para pessoas estranhas tornou-se impensvel. 0 pudor foi violentamente imposto a todos. S aqueles que pertenciam  casta dominante, como os aristocratas da corte francesa ou os nobres ingleses, continuaram a cultivar uma nudez fortemente erotizada, entre si, fosse na presena de servos - considerados subumanos por isso irrelevantes - fosse impondo essa nudez s mulheres pregadas como objeto de uso. A nudez foi por algum tempo um 
costume reservado  elite. Depois a obrigatoriedade da vergonha se generalizou. Na mesma Inglaterra que havia tolerado com indulgncia afvel a sinistra crueldade da chamada libertinagem, o moralismo vitoriano vetou completamente a nudez, no s nos fatos mas tambm nas palavras. A locuo "a olho nu", por exemplo, tornou-se nadmissvel. Alm disso, cobriram apropriadamente as pernas do piano. Depois as coisas mudaram at que, nos anos sessenta, lanaram a mini e a microssaia, os hot-pants e o top-less. Hoje a nudez integral, em determinadas condies, torna a aparecer aqui e ali no nosso terreno social, no obstante os vibrantes protestos dos curadores dos costumes.
     Que este pudor, to mutvel, to incerto, to macroscopicamente ligado a certos momentos histricos e a certos usos, to exasperado em certos perodos e substancialmente inexistente em outros, seja uma qualidade inata do homem, "natural" e instintiva, parece realmente pouco provvel. Alguns pretendem defender esta hiptese se partindo do fato de que at as crianas, e mais ainda os adolescentes, em geral recusam a exibio do prprio corpo.  verdade. Mas esto se esquecendo no mnimo de duas coisas dignas de nota. Primeiro, de que a criana pequena goza abertamente da sua nudez, e que comea a neg-la quando percebe que seu corpo pode ser agredido pelo adulto - por exemplo nas ocasies de vacinao - ou em alguns procedimentos teraputcos brutais, ou em certas manobras de limpeza, etc.; sem se falar, naturalmente, do terror inconsciente da castrao mobilizado por uma educao autoritria e persecutria. Segundo, de que o adolescente torna-se zeloso do prprio corpo porque em um dado momento tende a anular qualquer relao, mesmo aquela puramente tica, com um modo adulto que lhe  substancialmente inimigo. Definitivamente e com uma boa aproximao pode-se supor que para a criana, assim como o adolescente e para a mulher, o pudor seja apenas o filho do medo. De um lado o medo inconsciente de uma agresso, do outro o medo da desaprovao social.
     A hiptese de que o pudor seja um produto da civilizao e de que promova o progresso dessa civilizao parece tambm muito pouco plausvel, a menos que se queira confundir a civilizao com os costumes do mundo industrial. Algumas populaes do globo ignoram o uso de ndumentras e no tm o problema da nudez. Nossos hbitos so outros. Cobrimos o nosso corpo porque no somos selvagens, deixando entender com isto que os selvagens, tambm por esta diferena, so inferiores. Discurso bastante incoerente, est claro. Antes, parece realmente arriscado fazer coincidir o nvel evolutivo de uma coletividade humana com o tipo de vestirio. E por outro lado parece imprudente estabelecer que o nvel evolutivo dos brancos  mais elevado, suponhamos, que dos polinsios. A julgar por certas empresas nossas, como a poluio, ou a desertificao do solo, ou a prostituio, ou a guerra total, no se diria.
     De qualquer maneira uma coisa  segura: o pudor, assim como  inculcado nas crianas e nos jovens,  um timo instrumento de deseducao sexual. Em substncia ensina-se ao indivduo que o seu corpo  alguma coisa de sujo e degradamente e que a sexualidade  uma ocorrncia vergonhosa, obscena, suicida e revoltante. So estas as palavras precisas usadas por trs educadores no de todo desconhecidos - Bauer, Blumenbach e Vogel - cujo objetivo declarado era dissuadir os jovens das relaes sexuais.
O ALTRUISMO
     Um dos discursos prediletos dos educadores sexuais  o do amor "egosta". Quem procura na relao sexual o prazer, quem tende  satisfao das paixes, quem se deixa guiar por propenses libidinosas, quem cede ao desejo, este  chamado egosta. E, bem entendido, o seu amor no  realmente amor, mas apenas uma censurvel caa do gozo e um alvio para os seus instintos animalescos. Quem, ao contrrio, pensa naquilo que presume ser o bem do outro e no no prprio bem, quem rejeita o prazer ou a ele renuncia, quem resiste aos impulsos do corpo, quem se sacrifica, este  um altrusta. E o seu  o verdadeiro amor. Aquele amor para o qual os jovens devem ser educados. Imposio fundada sobre uma lgica urgente e oportunssima para o desenvolvimento de argumentaes moralistas contra a sexualidade. Todavia  suficiente uma modesta anlise do modelo proposto pelos educadores tradicionais para se perceber o engano escondido na palavra "altrusta". Altrusta, diz-se,  aquele que ama os outros mesmo  custa de sacrifcio prprio. Tomemos como boa esta definio. No esqueamos porm que o nosso juzo refere-se ao comportamento de uma pessoa, comportamento que podemos observar, e no aos seus sentimentos, que no podemos conhecer. Para ns, portanto,  altrusta o indivduo que age como se amasse os outros mais que a si mesmo. Que este indivduo no ame a si mesmo  provavelmente verdade. No devemos excluir tambm o fato de que ele possa nutrir para consigo mesmo um inconsolvel sentimento de dio profundo. Por motivos muito complexos, que freqentemente fogem de uma anlise superficial, muitas pessoas tidas como altrustas tendem  autodestruio. Para elas amar os outros significa negar a si mesmas. O chamado altrusta, em outras palavras no s ama a si mesmo menos do que ama os outros, como no se ama de fato. Muitas vezes se detesta. Ora, como j foi dito muitos momentos, no se pode dar aquilo que no se tem. No pode dar amor se no se tem amor dentro de si e para si. Quem odeia a si mesmo dificilmente pode amar os outros; pode apenas agir como se os amasse. Pode fazer o papel do bom, sem no entanto s-lo realmente.
     Aquele que comumente  chamado altrusta, de imediato incapaz de amor sincero, sente mais ou menos confusamente o prprio defeito e procura compensa-lo com a ostentao de um amor doentio.  o caso da me hiperprotetora, da mulher escrava-patroa do marido, do pai de famlia opressivo que se consome pela mulher e pelos filhos, desinteressando-se pelo resto da humanidade. Todas imagens retricas bastante celebradas pelos educadores. Aqueles no amam os filhos, o companheiro, a esposa. No amam ningum. Nem a vida. Tanto que a enchem de amargura e frustraes e, tudo somado, a desprezam. Isto, este desprezo pela vida, ensinam a quem est  sua volta. Talvez no com palavras, ou pelo menos no sempre; mas sempre, e seguramente, com o prprio comportamento. No so pessoas plenas de amor, como gostariam de fazer crer aos outros e a si mesmas, mas apenas de rancor. So obcecados pela prpria incapacidade de encontrar satisfao na vida, e no podendo gozar de nenhum prazer procuram desesperadamente apagar-se com a dor. E naturalmente consideram os outros os responsveis pela sua infelicidade.
     O verdadeiro altrusta, acredito, no nega a si mesmo e no rejeita o prazer. Muito menos o prazer sexual, que  veculo de prazer tambm para o companheiro(a). O verdadeiro altrusta en contra alegria em sua existncia e na dos outros. Ele se d generosamente porque lhe agrada faz-lo, sem pedir em troca gratido ou devoo. Ele  realmente rico em amor, e o espalha  sua volta. No se ama se no se sente prazer, se no se  capaz de colher a infinita gama de prazeres que constituem a riqueza da vida. Sem classificar prazeres nobres e prazeres condenveis. Pode-se dizer, ao invs disso, parece-me, que existem prazeres ligados ao amor e compensaes ligadas ao ressentimento e ao rancor. Eu diria, sem dvida, que o prazer sexual est entre os primeiros, e o falso altrusmo entre os segundos.
NOTAS
1. Magistero e Morale, Edizioni Dehoniane, Bologna, 1970. 
2. Jersild A., La psicologia del bambino, SEI, Torino, 1960. 
3. Cfr. Marcuse H., Eros e Civilitd, cit.
4. Kentler H., ob. cit., pp. 200-201.

4.
A SEXUALIDADE HOJE
     A observao da realidade atual poderia levar  concluso de que o homem, conscientemente, trabalha com prodigiosa perseverana para a prpria infelicidade. Concluso inexata, ao meu ver. No acredito que a maior parte das pessoas seja realmente infeliz. Certamente ningum, mesmo com um medocre nvel de conscincia, quer ser infeliz. Provavelmente o seria se no existisse o fenmeno do hbito. Mas sabemos que o hbito existe, e que aos poucos o homem se adapta a quaisquer condies - ou quase - a ponto de tolerar, e at mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lhe parecia doloroso e opressivo.  o que acontece com a sexualidade: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma represso que, objetivamente, poderia parecer pura loucura.
     Mas se  verdade que no se procura conscientemente a infelicidade - ao contrrio, procura-se evit-la - no  menos verdade que se faz de tudo tambm para evitar a felicidade. Esta, como o seu contrrio, brota das grandes emoes. Ora, como j foi sutilmente sugerida, o nosso tipo de cultura impe um severo autocontrole que impede que o efeito das prprias emoes ultrapasse certos limites. No costume atual tudo  orientado para a produtividade, e a dor, o prazer, o dio, o amor, o medo, e todas as outras emoes violentas, no favorecem a eficincia produtiva, mas lhe impe obstculos. Por isso a boa educao burguesa tende a neutraliz-las. Para isto j no se vale do meio grosseiro da represso externa, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumento mais eficaz de autocontrole, isto , a represso interiorizada. Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoo intensa. O cidado de bem no deve nunca ser perturbado pela emoo. Em outras palavras, ela no  tanto reprimida quanto negada.
     De todas as fontes de emoo sem dvida me parece que a mais importante  a sexualidade, a qual em conseqncia  tambm a mais tenazmente recusada. A condio humana seria portanto esta:
o indivduo aspira  mxima produo de bens de consumo e contemporaneamente ao acmulo mximo de meios de aquisio, e de ambas as coisas espera o que acredita ser felicidade, mas que da felicidade  apenas um substitutivo decadente, geralmente chamado bem-estar. Mas para obter produo e lucro ele deve ser eficiente, e para ser eficiente deve negar a emoo. Em particular aquela de natureza sexual, que  a menos produtiva e a mais dspersiva. Com isso ele nega o amor-prazer, e portanto a prpria e autntica felicidade, e na ilusria convico de encontrar uma alegria que considera mais verdadeira, porque foi educado para isso, entrega-se a um trabalho alienado que lhe fornece dinheiro para comprar bens que ele mesmo produz.
     No me parece portanto uma procura da infelicidade, mas uma recusa da felicidade. Da felicidade profunda, inebriante, total, capaz at de dar medo. O homem tem medo desta felicidade:  uma coisa estranha frente aos seus costumes e ele no foi educado para goz-la. O prazer que lhe  familiar, e praticamente o nico que ele est em condies de apreciar,  o que a civilizao industrial lhe oferece: a posse de objetos inanimados. A educao sexual  manifestamente drigida a esta condio. A biologzao e, como veremos, o sexo como mercadoria, unidos a uma normativa entre as mais rgidas que a sociedade jamais experimentou, esto endereadas a um s objetivo: relegar a sexualidade s margens da existncia humana e reduzi-Ia a uma funo secundria, programvel e mediocremente atraente. Menos atraente do que a compra de um carro, de uma televiso a cores ou de um bilhete para a partida de futebol.
     Gostaria agora de dedicar algumas reflexes sobre esta condio que alguns propuseram definir como "sndrome anti-sexual", antes resultado da ausncia de qualquer educao sexual e hoje conservada por meio daquela educao sexual, falsa e castradora, que procuramos analizar nos captulos precedentes.

5.
A PROGRAMAO DA ANTI-SEXUALIDADE
     A condio em que vivemos, caracterizada como se disse por uma substancial recusa da sexualidade, no  casual. Ou ao menos no d a impresso de s-lo. Ao contrrio, tem-se a sensao de que ela  o fruto de um amplo e minucioso projeto que h muito vem sendo realizado com notvel tenacidade e mediante o emprego de expedientes de todos os tipos. H quem sustente que o peso maior nesta operao repressiva coube  religio, e h quem atribua o grosso da responsabilidade  burguesia, e em particular  burguesia industrial que surgiu no final do sculo passado.  sem dvida difcil separar nitidamente a obra moralizadora eclesistica daquela dos seus colegas laicos.  provvel que o poder econmico e sociopoltico tenha se unido ao religioso no esforo de realizar uma sociedade sexofbica - a nossa sociedade de hoje - que arregimentando para a chamada educao sexual procura conservar-se a todo custo. Seja como for, no  tanto um processo das responsabilidades histricas do costume atual que pode ajudar-nos a superar a misria do nosso estado, quanto uma anlise das linhas operativas adotadas pelo poder na sua luta contra o amor e contra o prazer. Estas linhas, acredito, no so muitas nem particularmente engenhosas, mas certamente so bastante eficazes.

A PROMOO DA CULPA
     A culpa, j vimos,  um dos instrumentos preferidos pela represso. Evidentemente o sentimento de culpa generalizado, que impera na mente da totalidade dos seres humanos em nosso mbito cultural, conseqncia da inveno do Pecado. Uma inveno que se traduz em um conceito obscuro, nebuloso, rude, elementar, e por isso mesmo potentssmo. Estabeleceu-se que aquele que "transgride a vontade de "Deus"  um pecador, e como a vontade de Deus  misteriosa e o mortal comum no pode conhec-la, assim  providencial criar uma casta de Iluminados que, ao contrrio, a conhecem e podem portanto decidir como, quando e quanto ela  transgredida. Existe a Revelao,  verdade, a qual est ao alcance de todos, mas tambm ela deve ser interpretada pelos mesmos Sacerdotes, ou pelos seus superiores, dado que em muitos pontos ela aparece bastante enigmtica.
     O mecanismo chantagista  ntido: eu, Ministro do Senhor, sei qual  a sua vontade e sei quando voc no a respeita, e portanto sei quando voc comete pecado. E se comete pecado deve pedir perdo a mim, que represento Deus, e apenas eu, na qualidade de plenipotencirio do Eterno, posso absolv-lo e clarear a sua alma. Em suma, se voc no fizer aquilo que eu digo deve suportar o nus da culpa, para sempre.
     Deste modo  faclimo subjugar todas as pessoas, sem nenhuma exceo, porque todos podem ser acusados de no terem feito a vontade de Deus e por isso colocados na condio de pedir piedade aos detentores do poder espiritual. Os quais absolvem mas, bem entendido, em certas condies por eles mesmos estabelecidas. No fundo, o domnio da Igreja ergiu-se e conservou-se principalmente sobre este simples expediente, como demonstra o fato de que no se cansa de repetir: todos os homens so pecadores, e portanto chantageveis. Tanto assim que, para no deixar dvidas, deu-se vida ao mito do Pecado Original, que no poupa realmente ningum, 0 homem  pecador, portanto culpvel, pelo simples fato de ser homem.
      incrvel que um estratagema to primitivo tenha colocado em xeque por sculos centenas de milhes de pessoas, e acredito que ningum pode contestar essa realidade assombrosa. Mas tambm a idia do Pecado, como cada outra idia, era destinada a sofrer a influncia de elaboraes sucessivas que, aos poucos, suavizaram sua dureza original. Entre os mesmos moralistas catlicos h quem se pergunte o que seja o pecado e o que seja a "desordem", e que diferena h entre um e outro, e quando se pode falar de culpa "grave", e se o pecado est na "globalidade do comportamento" o na "momentaneidade um s gesto". At Paulo VI, Sumo Pontfice, na sua celebrrima encclica Humanae Vtae manifestou alguma incerteza sobre este ponto, evitando cuidadosamente qualificar como "graves" e "mortais" certos pecados que a Igreja havia sempre considerado como tais. De outra parte o avano cultural e tecnolgco, a "acelerao do crescimento" - que est produzindo aprecivel "salto" evolutivo da mente humana -,- a enchente de problemas polticos, sociais, econmicos e ecolgicos sempre mais distantes da influncia direta do magistrio eclesistico, tudo isso vai fragilizando a fora da presso religiosa, de maneira que o instrumento do  Pecado no parece mais suficiente para manter o senso coletivo de culpa nos nveis de intensidade desejados. Creio que aqui o sistema burgus entra em jogo.
     Tanto o Estado, como a Igreja, precisa de sditos culpveis. Se cada um vive os prprios impulsos originais - que como vimos so de natureza essencialmente sexual - como culpveis, tender obviamente a reprimi-los. Atravs do incremento do sentimento de culpa dos cidados chega-se portanto a uma atenuao daquela felicidade sexual que representa o obstculo mais grave para o desenvolvimento da civilizao industrial. Em seu ensaio O Incmodo da Civilizao Freud observa: "( ... ) o preo do progresso da civilizao  pago com a reduo da felicidade, dada a intensificao do sentimento de culpa". Com todas as reservas que se possa ter em relao  obra freudiana, e levando-se em conta o fato de ,que uma frase isolada de um contexto orgnico pode prestar-se s mais arbitrrias interpretaes,  preciso reconhecer que raramente a condio humana contempornea foi analisada e descrita com tal preciso e com um nmero to pequeno de palavras.
     A tcnica adotada pelo poder "laico" para suscitar e manter vivo o sentimento de culpa nos sditos no  muito diferente daquele do poder eclesistico: cria-se o pecado inevitvel, que nesse caso chama-se crime. O cidado  prejudicialmente um ru. Sempre. Existe uma quantidade enorme de regras, especialmente na matria sexual, e atravs do processo de doutrnamento conhecido com o nome de educao faz-se com que o indivduo as interorize, as absorva, as tome como suas. E como  impossvel para qualquer pessoa respeitar constantemente todas as normas impostas pelo sistema, e por isso  inevitvel que algumas sejam transgredidas, o indivduo sente-se perenemente culpvel. Assim ele deve voltar-se para a divindade judicial, isto , a Lei, para reparar a sua falta e ser readmitido entre os justos e honestos. Ele, no que toca ao nosso discurso, deve gerir a prpria sexualidade segundo as orientaes fornecidas pelo Cdigo, em pblico ou privadamente, nas obras e nos pensamentos, nos atos e nos desejos. Como se dizia, deve concretamente negar a prpria sexualidade. S agindo assim pode considerar-se inocente.

     Que o ser humano aceite uma tal distoro de sua mente, distoro produzida mediante o emprego do sentimento de culpa, no deve surpreender. O tipo de educao geralmente empregado imprime na personalidade da vtima um carter claramente masoquista, no sentido de que a induz a acolher como coisa boa e at agradvel, a submisso a um poder externo. E o masoquista, sabe-se, tende a dvnizar o passado, seja qual for, a conserv-lo intacto o maior tempo possvel, e eventualmente a projet-lo na eternidade. Para ele nada deve mudar e por nenhum motivo. 0 que ainda no foi feito no poder ser feito nunca, e de qualquer forma no dever ser feito. Especialmente se se trata de inovaes que ameaam o poder, ao qual o masoquista  cegamente devoto. A educao, em outras palavras, determina no indivduo a incapacidade no s para a rebelio, mas tambm para a crtica. Assim o homem continua a levar dentro de si o fardo dos seus sentimentos de culpa e com eles a devoo  autoridade que, em determinadas condies, pode aliviar esse fardo.

A DEGRADAO DO CORPO
     Os sentimentos de culpa sob os quais providencialmente sepultou-se a sexualidade produziram em decorrncia a recusa do corpo. Uma recusa que foi encorajada tambm por outras vias. O corpo humano, que em um tempo parece ter gozado de certo prestgio, tornou-se alguma coisa bem pouco nobre, bem como vergonhoso e desprezvel. Algumas de suas partes so consideradas universalmente repugnantes. Aos poucos o desenvolvimento da civilizao ocidental tornou abjeto o contato com outros corpos e, em alguns casos, com o prprio corpo. Os prazeres que derivam do corpo esto cada vez mais em posio inferior na escala da dignidade humana. A razo deste estranho fenmeno  bvia, e j foi esboada: o gozo obtido com o corpo distancia o indivduo do gozo dos bens inanimados do comrcio, portanto constitui um obstculo para o mecanismo produo-consumo-lucro, portanto  danoso para o sistema. Marx escreveu que o capitalismo cessaria de existir se a satisfao, e no a acumulao de bens, fosse seu motivo propulsor. Acredito que sobre isso no h duvidas.
     Poder-se-ia objetar que hoje, talvez mais do que nunca, cuida-se muito da sade e da higiene, assim como da esttica do corpo humano. No entanto, a resposta a esta objeo poderia ser na realidade cuida-se de algumas qualidades do corpo e no do corpo em seu conjunto.. E os componentes fsicos aos quais se d maior peso so aqueles que direta ou indiretamente permitem a realizao do lucro. De fato, a indstria farmacutica e a de cosmticos vem realizando grandes negcios, as academias de luxo se multiplicam, os massagistas e as clnicas capilares cobram taxas astronmicas, no muito diferentes das cobradas pelos dentistas e endocrinologistas. Mas, exceo feita a algumas escolas srias de artes marciais, fundadas sobre urna cultura que no  a nossa, no me parece que algum realmente ensine s pessoas que
e coisa  o corpo e como se usa, e menos ainda como se faz para goz-lo. Mas ensina-se, at a exausto, como apreciar uma porcaria qualquer que tem o nico mrito de enriquecer quem a produz. Ao "vcio" da gula oferece-se todo tipo 
de bebidas e alimento, vantajosamente produzidos em escala industrial.  ao "vcio" da luxria que nada se oferece. Em sntese, para a boa burguesia hoje reinante o corpo  protegido e cultivado como instrumento apto a conquistar prestgio, sucesso e dinheiro. E pelo visto se esquece que o corpo  o homem, ou ao menos  a dimenso presente do homem, aquela em que o homem vive.
     Esquecimento voluntrio e bem calculado, com o qual a religio no deixou de contribuir seriamente. Quer dizer, o ensinamento religioso nada tem tido a ver com o desprezo burgus; apenas declarou que o corpo nada mais  que um invlucro, um estorvo, uma cadeia que impede a verdadeira parte do homem, isto , a alma, de elevar-se em direo ao seu destino celeste. O corpo  sujo, podre e mortal. O corpo no pode ser seno o servo da alma. O corpo  dominado, mortificado, humilhado. O ideal de cada crente deve ser a eliminao do corpo, das suas necessidades e das suas propenses. A mxima virtude corresponde  negao do corpo, e por isso de si prprio. Entre o corpo, pejorativamente chamado "carne", e o esprito, chamado "alma", h um abismo incalculvel. O esprito, como dizem as escrituras,  rpido, gil, leve, areo; a carne ' dbil, corrupta, mortfera. O esprito vai para o cu, a carne est destinada  putrefao e  pulverizao. O esprito  o sopro de Deus, a carne  a armadilha do demnio.
     Convm sublinhar que na linguagem religiosa corrente usa-se muito freqentemente a palavra "carne" para fazer referncia  sexualidade. E no por acaso. Ningum faz objees particulares contra os ps, o pncreas, as cartidas ou o nariz, nem contra suas funes. Tanto o cidado comum como o fiel fervoroso podem tranqilamente caminhar, digerir, consentir no afluxo de sangue para o crebro e cheirar uma flor. Mas no que toca  sexualidade a coisa  outra. Alis, observe-se bem, a coisa  outra em tudo que pode relacionar-se com a sexualidade. No estamos falando especialmente dos rgos genitais, por sculos definidos como "vergonhosos", mas tambm da pele, da boca, da lngua, dos cabelos, das coxas, do traseiro, do peito, todos pontos extremamente suspeitos, cujas funes so preocupantes. A carcia e o beijo, para no falar de outros contatos erticos menos suaves, constituem ofensas  Lei do homem e  Lei de Deus.
     Esta identificao do corpo sexual com o Mal, sustentada com fervor por religiosos e burgueses, conduziu a outros dois projetos educativos. Muitos indcios sugerem a idia de que o corpo feminino
 sexualmente muito mais emblemtico e significatvo que o corpo masculino. Tambm eu, provavelmente em contraste com algumas posies feministas contemporneas, acredito que seja assim. Esta opinio encontra conforto na teimosa intransigncia com a qual o moralismo, eclesistico ou no, combate a "carne" da mulher. Desde o princpio a educao de um indivduo deixa bem claro que a mulher nua  alguma coisa reprovvel, incivil, pouco usada e indecente. At h algumas dcadas a mulher - considerada do ponto de vista cvico - era chamada por alguns sacerdotes de "diabo branco", e pode-se supor que at hoje a julguem assim. Normalmente todos os moralistas mostram a mais indomvel desaprovao pelo corpo da mulher na perspectiva sexual. Da deriva o primeiro dos dois files educativos a que nos referimos: o amor pela mulher  tanto mais nobre e louvvel quanto mais desencarnado, espiritual, idealizado, incorpreo, romntico e assim por diante.  um discurso j feito e no vale a pena voltar a ele. Recordo-o apenas como, componente do programa de negao da sexualidade que o poder vem trazendo at nossos dias, em nada desencorajado pelos divergentes e contestadores.
      surpreendente que nunca tenha sido revelado com a devida clareza como tal desqualificao moral do corpo feminino tenha constitudo sempre um importante fundamento da discriminao sexual: sendo o corpo da mulher mais "impuro" que o do homem chega-se '  concluso de que a mulher  genericamente inferior ao homem. Na tradio eclesistica a mulher, comeando por Eva, a tentadora, e portanto o veculo da perdio, a arma do Diabo no final das contas, um ser que o macho deveria controlar, obviamente do alto, e manter  devida distncia. Na tradio burguesa  habitual o emprego da palavra "puta" para indicar as mulher que no se adaptam escrupulosamente aos modelos de comportamento escolhidos pelo homem. E esta imposio cultural e "educativa", a meu ver, est ainda bem longe de ser superada.
     O segundo filo de que falava  este: o corpo sexual da mulher pode aspirar a aprovao s no caso de estar inserido em um contexto produtivo, isto , procriativo. Parece-me significativo o fato de que a chamada exploso demogrfica tenha alcanado sua fase mais aguda exatamente em correspondncia com a revoluo indstrial. O produtivismo sufoca a sexualdade que se converte em genitalidade, e da genitalidade flui a natalidade. A civilizao industrial fez da sexualidade um instrumento produtivo. Nada de estranho.  Mas  estranho que ningum atente para isso, ou proteste con uma tal opresso. Evidentemente a poltica educativa do poder mais sagaz do que se pensa, e os resultados obtidos, em termos resignao ou at de consenso imediato e de participao, o provam.  A maioria, me parece, est satisfeita com esta sociedade industrial que impe uma represso sexual das mais pesadas que se tem notcia.
     H quem diga que tudo isto no  verdade, que  exagero, se est dramatizando. Dizem que, no final das contas, hoje pode-se gozar de uma notvel "liberalizao do sexo", talvez at excessiva, e que a prpria posio da Igreja mudou depois do Vaticano Segundo. Gostaria que fosse assim, mas temo que realmente no seja. No so as pequenas concesses formais que mudam um costume, no  o novo Direito de Famlia que transforma as relaes educativas, no so as novas modas do vesturo que restituem dignidade ao corpo humano, no  o divrcio que resolve o problema da instituio matrimonial codificada, no  a educao sexual que requalifica a sexualidade. Nem ao menos no que toca s posies renovadas da Igreja acredito que se possa ter iluses. As orientaes de base no mudaram em nada, e basta ler a declarao sobre algumas questes de tica sexual, promulgada pela Sacra Congregao para a Doutrina da F em dezembro de 1975 e j recordada, para perceber isso: a nica forma de sexualdade concedida  a genitalidade matrimonial e procriativa. O corpo humano permanece no lodo e, por hora, no h esperana de que possa sair.
A SUBSTITUIO DO CORPO
     Dado que o indivduo  educado para aceitar o corpo, seu e dos outros, com alguma reserva, e tambm para acolher o prazer fsico - e particularmente o sexual - com algum desprezo, ocorre dar-lhe em troca alguma coisa que lhe satisfaa e que no provoque nenhum embarao, mas antes que seja universalmente aprovado, elogiado e invejado. Esta alguma coisa  o dinheiro. E, naturalmente, tudo aquilo que o simboliza. O aperto de mo que firmava um acordo cedeu lugar ao documento notorial, o abrao de agradecimento  gorgeta, a terna carcia ao talo de cheques, o murro ou o bofeto  fatura ou  denncia por danos. O dinheiro  o objeto de amor privilegiado, aquele que resolve tudo e traz qualquer alegria. A relao fsica entre os homens no  admitida: a expresso corprea do amor  considerada indiscreta e de pssimo gosto, a do conflito  proibida. S o governante pode praticar a violncia, mas atravs de terceiros e com meios que prescindem do contato fsico. Entretanto  inevitvel, e encorajada de mil maneiras, a relao concretizada atravs do dinheiro. A moeda substituiu o gesto. Pode-se viver muito bem e indefinidamente sem tocar um corpo humano, e quase sem tocar o prprio corpo, mas no se pode viver sem manejar o dinheiro.  isto o que acontece com o cidado mdio, exceo feita s fugazes relaes genitalizadas que se pode conseguir em troca de uma determinada soma ou com o registro de um contrato matrimonial. O dar e o receber tornaram-se, o mais das vezes, vender e comprar. Porque para dar e receber deve-se usar o corpo, para vender e comprar deve-se usar o dinheiro.
     A promoo do dinheiro a soberano e governador da existncia dos homens produziu obviamente uma bizarra distoro da atividade humana. Pode-se dizer, com boa aproximao da realidade, que a maior parte das aes que cada um cumpre objetiva a realizao de um lucro, e conseqentemente a realizao de uma despesa, e no a procura do prazer. Em outros termos, confundimos a compra com o prazer. Isto significa que o nosso agir no  dirigido, como seria lgico,  satisfao, mas  procura de um meio que nos permita conseguir um suposto bem atravs do qual, ilusoriamente, esperamos satisfao. Este  o jogo do poder. De fato no se espera dos cidados que gozem dispersivamente a vida, mas pretende-se que trabalhem para acumular uma riqueza atravs de cuja gesto o poder refora a si prprio, em prejuzo dos cidados que o sustentam com seu trabalho. Assim, acontece que o indivduo no procura mais um prazer mas se dedica  conquista de um objeto banalssimo, o talo de cheques, que  o smbolo do dinheiro. O qual por sua vez simboliza o ouro, que convencionalmente representa o poder de compra e que portanto  a transcrio simblica do bem que se deseja. homem, em resumo, no persegue o prazer, mas o smbolo do smbolo do smbolo do prazer. Esse, o prazer, pode no ser alcanado nunca e  vivel acreditar que na maior parte dos casos realmente no o seja.
     De tudo isso deve-se concluir que, assim como nada  to reeal como o corpo, nada  to irreal quanto o dinheiro, este substituto do corpo que a nossa sociedade nos impe. A vida do homem  uma espcie de movimento no vazio, incansvel tanto quanto enganosa em direo a uma meta que no alcanar jamais. Todavia se o dinheiro constitui para o indivduo uma realidade ilusria, quase uma no-realidade, isso traduz-se em uma realidade bem concreta para o poder, que vive graas a acumulao desse mesmo dinheiro.  Em outras palavras, o dinheiro no serve para conquistar o praser, mas serve perfeitamente para conquistar o poder, de modo que sua fetichizao leva no s  distoro da ao humana, mas tambm  distoro da relao entre os homens. A relao de cooprao desapareceu praticamente por completo, e cedeu lugar a relao de domnio-sujeio. Isto , exatamente, a uma relao poder.,

     Poder-se-ia dizer que de tal operao substitutiva do corpo humano a religio no tenha participado. Mas, ao contrrio, participou, e de forma no desprezvel. A Igreja foi acusada muitas vezes, inclusive pelos seus prprios ministros, de ter firmado alianas de vrios gneros com o poder temporal e de ter indevidamente exercitado um poder tambm por conta prpria.  difcil liberar-se da impresso de que ainda agora tal propenso exista: tambm hoje, como observa discretamente Valsecchi, a Igreja leva avante operaes 
de poder, sabiamente dissimuladas mas nem por isso menos reas. E isto explica a indulgncia com a qual o magistrio espiritual julga a acumulao de riqueza, e a severidade com a qual condena os que contestam tal acumulao. A ateno dos moralistas, nos fatos e nas palavras, continua concentrada sobre o pecado da luxria, e no sobre o pecado da avidez, da ambio, da avareza e do desfrute. O bom cristo pode, com toda tranqilidade, ser vergonhosamente rico. Basta que rejeite, ao menos em pblico, a fornicao. A moral clerical em suma  complacente, obscura e ambgua. Fala-se de "mundo cristo" com orgulhosa arrogncia, descuidando-se serenamente do fato de que tal mundo coincide quase perfeitamente com o do capitalismo mais descarado.
     Racionalmente poder-se-ia submeter uma situao deste gnero a uma reviso crtica, mas a religio oficial no aceita crticas, como j foi demonstrado e declarado em vrias ocasies, e no aceita nem ao menos a razo. O parecer de Lutero, para o qual a razo era "esposa e puta" do demnio, parece ser amplamente partilhado tambm em nossos dias no s pelos seguidores do grande dissidente mas at pela Ctedra de Roma. A substituio do corpo e sobretudo do prazer que dele deriva pelo dinheiro e por sua capacidade ilusria de dar alegria no encontra obstculos concretos no posconamento da Igreja, a despeito de genricas deploraes moralistas, de todo ineficazes, que a prpria Igreja sempre ostentou nos confrontos com a riqueza. No  a lgica mercantil que a religio rejeita, mas apenas a lgica do prazer.

A HIERARQUIZAAO
     A negao do corpo e a sua substituio por um smbolo nanimado, o dinheiro, supe uma moral ajustada para defender essa distoro que, sem um suporte tico universalmente imposto, seria claramente inaceitvel. E a imposio de um cdigo tico desse gnero requer uma hierarquia dotada de fora suficiente para dominar a populao inteira, praticamente sem excees. A burguesia providenciou ambas as coisas.
     A moral que governa a nossa vida cotidiana, em todos os nveis,  sem dvida uma moral tipicamente burguesa; certamente nada tem a ver com as normas que estavam na base da conduta das elites nobres de uma poca, marcada como se sabe pela chamada libertinagem, nem com os costumes camponeses e populares, largamente abertos a rituais e tradies prprias e antiqussimas, e muito mais aderente ao culto da fecunddade que  moderna sexofoba produtivesca. Desde quando a burguesia alcanou o domnio sobre outras classes, ou seja, h dois sculos, imps a prpria moral a tods as reas sociais, inclusive ao proletariado industrial. A normativa que hoje dirige a gesto da sexualidade, para ficar em nosso campo, e que se funda sobre a legalidade do lucro e sobre a ilegalidade do prazer, foi desejada e mantida viva pela burguesia. A "mentalidade burguesa" ou "cultura burguesa"  dominante tambm no seio das categorias sociais no burguesas.
     A cultura burguesa construiu uma hierarquia realmente formidvel, talvez a mais forte que jamais existiu alm da sacerdotal: a hierarquia do poder econmico institucionalizado. Com efeito os conselhos administrativos das multinacionais tomaram as rdeas do direcionamento de todas as.estruturas e de todas as atividades humanas em nosso mundo, da poltica  escola, da famlia ao trabalho. Eles governam mediante uma hierarquia muito bem concebida que  afirma-se estavelmente em qualquer lugar: no interior do ncleo familiar domina quem ganha mais, para os cargos pblicos so eleitos aqueles que podem gastar mais ou que esto em posio de exercitar uma maior presso contratual; o prestgio de um indivduo  diretamente proporcional  sua renda, e assim por diante. Uma relao interpessoal que no seja hierrquica no  nem ao menos pensvel. Todos tm um chefe acima e sditos abaixo. Uma condio paridade e de interdependnca paralela em geral parece absurda comumente inalcanvel.
     Isto vale tambm para a sexualidade, que entretanto pare manter-se fora da lei universal da hierarquizao. O objeto de amor , em nossos dias, um objeto de consumo. Isto significa que no um objeto-sujeito, que em uma troca afetiva mtua d ao mesmo tempo que recebe; mas que  uma coisa pertencente a algum que em virtude de uma ordem hierrquica, tem o direito de us-la. mulher  propriedade do marido e lhe  submissa e, talvez, vice- versa; os filhos esto sob o governo dos genitores; a prostituta depende do protetor e do cliente; o educador impe ao educando certos modelos de comportamento sexual. Tudo, sempre, no mbito de uma gesto econmica do poder.
     Por sua vez a hierarquizao requer uma seleo dos quadros dominantes baseada nas atitudes de cada um a dominar, de forma que os candidatos s posies dretvas so preferivelmente
opressores, os astutos, os chantagistas, os violentos, os dominadores, os prepotentes, os oportunistas. Em conseqncia o exerccio da sexualidade  sistematicamente submetido s normas adotadas pelos que, por vocao pessoal, esto longssimo da essncia da prpria sexualidade. A propsito  bom lembrar que entre os dominantes que pretendem governar a sexualidade humana, alis com clamor incompetncia, esto os tericos da chamada moral crist, os funcionrios da Igreja, os hierrquicos da religio.
     A hierarquizao eclesistica, com diferenas irrelevantes, prope os mesmos objetivos da burguesa e segue os mesmos caminhos. A finalidade, como se sabe,  a de impor a negao do prazer corpreo, ou "carnal", e de promover a sua substituio pelo prazer espiritual, isto , pela f em uma beatitude futura que ser concedida, em outra vida, aos virtuosos dceis e obedientes. O burgus impe a felicidade guarnecida pelo smbolo-dinheiro, o sacerdote impe a felicidade guarnecida do smbolo-virtude. Um e outro valem-se de um elenco de dirigentes colocado em uma rea inacessvel, defendido de toda crtica, e munido de uma autoridade indiscutvel e absoluta. Para o burgus o chefe  o Presidente, ou o Dirigente, ou o Comandante, ou similar; para o religioso o chefe  o Bispo. Em uma notificao do episcopado lombardo, emitida h dois ou trs anos atrs a propsito de uma publicao no alinhada, l-se: "Nestes tempos em que so divulgadas hipteses teolgicas um tanto provisrias, o nosso povo cristo e o nosso clero sabem encontrar seu guia autntico nos pastores legtimos, que foram investidos pelo Esprito Santo da responsabilidade e de autoridade a servio da comunidade crist".  o caso de se perguntar qual a diferena entre um Mussolini qualquer, Homem da Providncia, e um Bispo "investido de autoridade" pela mesma Providncia, ou seja, por Deus.
     Em substncia, para convencer o homem a recusar a sua maior riqueza, que  a sexualidade,  preciso impor-lhe uma desfigurao total dos valores. E para chegar a isto  nitidamente necessrio preparar uma hierarquia que parea incontestvel e dotada de autoridade absoluta. Que esta hierarquia seja fundada sobre o poder econmico ou sobre o poder moral no parece importar muito. Importa apenas que seja eficiente.
     
A DISCRIMINACO
     Chegamos assim ao ltimo componente da estratgia sexofbica que est conduzindo nossa cultura a um destino desalentador: a guerra. No falo naturalmente da guerra efetuada com bombardeios, encouraados e armas atmicas, mas de uma outra guerra; to mais difundida quanto universal, que coloca cada um de ns defronte ao prprio vizinho como defronte a um inimigo, pelo menos em potencial. Falo daquele estado de conflito permanente que existe entre os que se consideram bons e os que so considerados maus, entre a faco dos certos e a dos errados.
     L onde a hierarquia existe, existe tambm a obrigao de respeit-la, e conseqentemente existe uma separao entre aqueles que se submetem a tal obrigao e aqueles que a recusam. Os obedientes so definidos como "respeitveis" segundo o jargo burgus, como "bons cristos" segundo o eclesistico. Os outros so chamados de diversas maneiras, todas elas ultrajantes e desprezveis. Esta discriminao , de per si, um produto inevitvel da hierarquizao mas, para no deixar dvidas, procurou-se e procura-se refor-la recorrendo a expedientes bastante conhecidos nesse campo: a educao para a intolerncia, a propaganda contra os "diferentes" e o reagrupamento dos indivduos sob chefes como autoridade irrefutvel, sendo um absolutamente Bom e o outro absolutamente Mau. Deus e o Diabo. E assim  feito o jogo. De fato sabe-se h muito tempo que quando se d aos homens duas bandeiras diferentes, nada conseguir jamais reconcili-los. E este , sem dvida, o objetivo tramado pelas castas dirigenciais: o mau, isto  o desobediente, deve ser mantido sob um controle constante portanto deve ser combatido e perseguido sem trgua e com energia Sodoma e Gomorra devem ser destrudas, assim como a Babilo Cartagena e Paris.
     Acredito que ningum  mais ferozmente intolerante do que aqueles que pensam ser proprietrios de uma Verdade absoluta de trabalhar a servio de um Bem absoluto. Por ocasio das polmicas sobre a anticoncepo, sobre o divrcio, sobre o aborto, sob a sexualidade pr-matrimonial, sobre a homossexualidade, sobre droga, vimos a que limite de intransigncia e de crueldade chegar os defensores da Virtude. Os exemplos mais vistosos desta crueldade "em boa f" foram fornecidos recentemente pelo monsen Lefebvre, que declarou tranqilamente ser inadmissvel a liberdade de religio, negando com isto a todos os seres humanos o direto de pensarem com a prpria cabea e no com a sua, e pelo padre Charbel Khassis, Superior cristo-maronita da Confederao Ordens Libanesas, o qual resolveu enviar um pequeno batalho de guerreiros, obviamente com a cruz sobre o peito, ao massacre de crianas palestinas no campo de Tall Zaatar.  verdade que tanto um como outro foram excomungados pelo Vaticano, mas  verdade tambm que na base de sua loucura homicida estava aquela mesma ideologia extremista e inflexvel que o Vaticano continua a propugnar, e a defender com documentos desconcertantes, para dizer pouco. Claro: para que a guerra santa contra os maus possa desenvolver-se sem obstculos  preciso dar liberdade  violncia, fsica e deolgica, E esta no perturba em nada o poder. De fato, a prtica de alguma violncia afasta o exerccio da sexualidade, como j dissemos. E a sexualidade  dispersiva, improdutiva e portanto desagregadora sistema. Melhor ento a violncia que a sexualidade, tanto mais que a mesma violncia  necessria para impor uma expanso artificiosa dos mercados, a competio e a eficincia. Uma violncia que a maioria dos casos  habilmente mascarada pelas imagens sorridentes da publicidade, pelas relaes empresariais, pela assistncia social e sanitria, pela psicoterapia e pela educao, mas que no entanto permanece sempre violncia.

O PATRIARCADO
     A construo do costume anti-sexual - engenhosamente articulada em um primeiro momento sobre a produo do sentimento de culpa generalizado, em um segundo momento sobre a negao do prazer do corpo e sobre a afirmao do prazer do dinheiro, e finalmente sobre a organizao de uma hierarquia capaz de impor a moral sexofbica da violncia - parece estreitamente ligada  fetichizao da figura paterna. O Pai, nas vestes de Deus, do Sacerdote, do Governante, do Genitor, do Educador ou do Patro, domina a cena do nosso mundo. Na linguagem corrente, que no fundo reflete bastante fielmente o costume, fala-se freqentemente da paternidade de idias, de pais da ptria ou da cincia ou da arte, de um Pai Eterno, da ptria potestade, do Santo Padre, etc. A palavra "pai" est no vrtice da pirmide verbal referente a qualquer tipo de poder. E, como veremos, o Pai  o protagonista principal de todas as operaes dirgidas  fundao da sndrome anti-sexual.
     Em primeiro lugar o Pai  aquele que impe a disciplina, a lei e a ordem, que estabelece a obrigao do trabalho produtivo, que julga e que condena, que premia e que pune.  o dominador. Como tal  naturalmente odiado e atrai para si a execrao dos filhos-sditos. Todos os dominados desejam mais ou menos conscientemente a morte do dominador. Mas o pai-dominador  tambm aquele que deu a vida e que a defende, que garante a segurana e os meios de sustento, e que torna possvel uma convivncia aceitvel mediante a sua lei. Por isso ele  venerado e amado, de forma que o desejo de v-lo morto ou mesmo de mat-lo  vivido pelos filhos com uma grave culpa de ingratido e como um abominvel crime. J vimos como a religio - a nossa religio, bem entendido - e a burguesia alimentaram e desfrutaram desse sentimento de culpa. Podemos pensar na hiptese de que em uma cultura no fundada sobre o predomnio do Pai, esse sentimento de culpa no existe, e que portanto uma semelhante condio de culpa universal no  inevitvel. Ela s  inevitvel em uma civilizao de tipo patriarcal.
     Ao sentimento de culpa que nasce do desejo de matar o Pai junta-se provavelmente um segundo, originrio do fato de no t-lo morto. Trata-se em substncia do remorso de no ter conquistado, por meio do parricdio, a liberao do Pai-tirano. Assim a culpa existiria sempre e em qualquer lugar onde existe um Pai, ou porque se deseja elimin-lo, ou porque de fato foi eliminado, ou porque aceitou-se a idia de no elimin-lo, e portanto aceitou-se a submisso.
Tambm a segunda fase do condicionamento sexofbico parece desenvolver-se sob o signo do Pai. No final das contas  ele mesmo que impe a rejeio do corpo, isto , do prazer, enquanto reserva um espao preeminente ao Dever. Primeiro o dever, depois o prazer, costuma-se dizer, E esta  um pouco a sntese da condio patriarcal.  o smbolo verbal de uma realidade feita de operaes geralmente alienantes, frente s quais a procura do prazer deve ser deixada para "depois", subentendido que este "depois" deve estar o mais longe possvel e que talvez possa confundir-se com um "nunca". O Pai-Patro  o deus da acumulao e da conquista, da indstria e da guerra, da fora de trabalho e da carne do canho, Portanto, no pode evidentemente ser o deus do amor-prazer. A proibio do prazer corporal torna-se assim uma das manifestaes fundamentais da autoridade paterna, que para criar sua base econmica precisa de indivduos que produzam riqueza, que estejam dispostos substituir o prazer pelo dinheiro.
     No acredito que seja indispensvel relevar que a hierarquia, indispensvel para alcanar a completa submisso de todos ao princpio da eficincia produtiva,  chefiada tambm por uma figura paterna. No vrtice de cada pirmide hierrquica est invariavelmente o adulto macho, dotado dos atributos de Pai: autoridade e potncia. Lei e Ordem.  importante, todavia, prestar ateno ao fato de que o Pai aceita a responsabilidade de proteger os filhos-sditos, mas em troca exige proteo  sua volta. Os filhos deve defender o Pai, isto , o poder, o estado, a ptria, a raa, a religio, e por isso devem combater contra os filhos de um outro Pai, inimigo. Quem recusa a lei do Pai deve ser aniquilado, j que passa a seguir a lei de um antipai. Assim, cito alguns exemplos da atualidade o negro que recusa a lei da raa branca, o "comunista" que recusa a lei do capitalismo, o mulumano que recusa a lei crist, o rebelde que recusa a ditadura. O homem, que presume-se fosse originariamente propenso ao prazer, vive em uma atmosfera saturada de dor. Uma dor que ele mesmo produz e renova a cada dia, e em obsquio a um dolo patriforme ao qual sente-se indissoluvelmente ligado.
     A pergunta que surge espontnea  se o poder do tipo patriarcal est fatalmente pr-determinado ou no. Partindo de alguns postulados da psicanlise dir-se-ia que sim. Mas certos elementos histricos 
de que dispomos no podem ser ignorados, e eles nos fazem pensar que existiram civilizaes no patriarcais prsperas e evoludas. O prprio Freud afirma a realidade desse parntese histrico, marcado pelo matriarcado, em "Moiss e o Monotesmo". Mas a nossa cultura de hoje parece preferir interpretar o matriarcado mais como "incidente" no desenvolvimento do patriarcado do que como alternativa concreta a esse mesmo patriarcado. Em outros terra prefere-se pensar que o matriarcado no tenha sido outra coisa seno um refluxo provisrio de poder da vertente masculina, refluxo 
que inevitavelmente exauriu-se na reconquista das posies originais por parte do patriarcado. Esta espcie de interpretao fatalstca do dado histrico  indubitavelmente lgica no contexto de uma cultura patriarcal, mas exatamente por isso  ao mesmo tempo indubitavelmente suspeita. A verdade  que o matriarcado, pelo que sabemos, levaria a uma ordem social bem diferente da atual, isto , levaria a um "baixo grau de dominao repressiva", no dizer de Marcuse, e a uma notvel "ampliao da liberdade ertica". Provocaria portanto uma verdadeira runa do sistema econmico sexorrepressivo.  portanto previsvel a hostilidade com a qual o patriarcado observa as hipteses de possveis `solues matriarcais de qualquer problema. Admite-se, no melhor dos casos, que o no-patriarcado tenha existido, mas no se admite nunca a possibilidade de uma reelaborao do matriarcado. O Pai, como se dizia,  defendido aos extremos. Mesmo contra a Me.

AS BASES OPERATIVAS DA ANTI-SEXUALIDADE
     A traduo de uma estratgia em operaes concretas requer meios prprios. A idia de um grande capito de nada serve se ele no dispe de armada, navios, frota area, provises, bases; o desenho de um explorador no leva a nenhuma descoberta se lhe falta especialistas, aparelhamentos e sistema logstico. Do mesmo modo o projeto anti-sexual teria permanecido letra morta se seus pais no houvessem pensado em guarnec-lo com uma instrumentao adequada. Os instrumentos, ou melhor, as bases operativas da anti-sexualidade, a meu ver so trs: uma, que por simplicidade podemos chamar de cultural,  a histria; a segunda, de tipo organizativo,  a instituio; a terceira, que se refere mais diretamente ao comportamento humano,  o trabalho.
     So trs pilastras to ntimas e profundamente inseridas no sistema patriarcal sexofbico, que parecem alguma coisa absolutamente invencvel. A ponto de que a hiptese de uma existncia desvinculada da histria, desprovida de instituies e independente do trabalho, no s parece impensvel aos olhos do cidado mdio, mas at mesmo o ofende. Como se a negao destes trs pontos fosse realmente um vilipndio da dignidade humana. Conseqncia, tambm esta, da habilidade com a qual o mecanismo paternal se prope a si mesmo como nica soluo possvel para todo problema, individual ou coletivo.
a. A Histria
     A histria, pelo menos a que conhecemos como tal, no fundo no  outra coisa .seno uma interminvel cadeia de violncias fsicas e morais distribudas ao longo da linha de um tempo convencionalmente codificado em cifras arbitrrias. Mas a histria deve ser a linha mestra da vida, como se diz repetidamente; e de fato o , mas  uma linha mestra que nos ensina a vver de um certo modo, o nosso modo, o da burguesia capitalista, moralista e opressora. O que aprendemos com a histria? Substancialmente eu responderia o seguinte: que atrs de ns, no tempo, existiram modelos perfeitos ou quase perfeitos de organizaes sociais, e modelos no menos perfeitos de comportamentos individuais que devem ser imitados o mais fielmente possvel. A histria nos oferece determinados esteretipos aos quais, querendo ou no, devemos adaptar-nos. A figura do homem  e deve ser aquela transmitida pela histria.
     Tomemos os clichs do sistema social transmitidos pela histria: orgulhosas repblicas, reinos e imprios prsperos, luxuosos domnios, etc. Muitas vezes esses esplndidos aparelhos seguiam triunfais atravs dos sculos, at que eram destrudos por um rival mais forte ou mais afortunado. Se o modelo "bom", que foi agredido e derrotado,  tomado como nosso, isto , como inspirador do nosso modo de viver, o inimigo responsvel por sua derrota torna-se objeto da nossa vingana. Torna-se o "inimigo tradicional". Outras vezes o sistema exemplar deteriora-se, decai, corrompe-se, e ento deve ser punido na mesma medida em que traiu sua misso histrica. A punio , via de regra, a derrota e a conseqente desorganizao geral, dominada por um outro sistema mais so e virtuoso. Tambm neste segundo caso o modelo originariamente bom, que depois se degradou, pode ser tomado como nosso, como gerador do nosso prprio sistema. Deriva da que a sua corrupo e a sua falnca sejam consideradas como "culpa dos pais", culpa que nos cabe expiar. Possivelmente restabelecendo o antigo esplendor e repropondo virtudes ancestrais, e portanto dedicando-nos  austeridade, ao sacrifcio e  renncia.
     O modelo de comportamento individual exprime-se historcamente atravs da imagem do Heri. O Heri, em suas diferentes verses de guerreiro, conquistador, governante, santo, navegador, poeta ou mrtir,  aquele que se coloca a servio do sistema bom combatendo contra o mau. Freqentemente, talvez quase sempre, suas aes adquirem valor no tanto pela sua qualidade quanto pelo seu sucesso. Por isso a histria promove  categoria de Heri um aventureiro qualquer que, por mrito prprio ou das crcunstncas tenha conseguido provocar fenmenos teis para o triunfo do sistema bom. O que conta  que o exemplo do Heri seja seguido pela posteridade - vale dizer, por nossos contemporneos - porque ele  promotor de no mnimo trs fenmenos vantajosos para conservao do aparelho patronal: primeiro, a reproduo da figura herica contribui de maneira determinante para a perpetuao do artifcio histrico; segundo, a figura herica sugere o dever de sujeio ao bem supremo do sistema; terceiro, o comportamento do Heri est condicionado ao adiamento do prazer. O Heri sacrifica-se hoje, mas ter a glria amanh. E assim devemos agir todos ns.
     Em resumo, como dizia, a histria parece no ser outra coisa que um conglomerado de violncias: punies, vinganas, expiaes, contas a ajustar. Talvez quem a chamou de "um sufoco" tivesse razo. E, por tudo o que se disse, no poderia ser diferente. A verdade, temo,  que no se queira agir diferentemente. A histria alimenta os sentimentos de culpa, nutre o desprezo pelo presente e portanto pelos prazeres atuais, valoriza os smbolos imortais e no entanto inanimados,  um excelente sustentculo para a hierarquizao, demonstra a necessidade e at a utilidade da guerra. Em suma,  o melhor fundamento cultural que se pode imaginar para a conservao de um sistema autoritrio e repressivo. E pertence de maneira privilegiada  rea do costume patriarcal. Ao que parece existem fundamentos para se acreditar que as civilizaes matriarcais e sexualmente mais livres no do, e nunca deram, muito espao ao culto da histria. Isto, de resto, seria perfeitamente lgico dado que uma civilizao no sexofbica  caracterizada solidamente por um modestssimo contedo de agressividade destrutiva, e portanto no tem necessidade de vinganas; no conhece o conceito de pecado, e portanto no cultiva a filosofia da punio;  imune ao sentimento de culpa generalizado, e portanto no se impulsiona  expiao coletiva; no  construda em torno de um poder patronal, e portanto no dispe de servidores passveis de serem mistificados como Heris: no prope o adiamento do prazer, e portanto no procura substituir o prazer presente com um prmio futuro. Para uma civilizao livre a histria - feita como vimos de vinganas, punies, expiaes, mitos hericos e renncias gloriosas - no tem sentido. Mas, ao contrrio, tem um sentido preciso para os estrategistas da anti-sexualidade e da opresso, os quais, como podemos constatar diariamente, valem-se amplamente dela.

b. A Instituio
     A palavra "instituio"  muito vaga e  oportuno clarificar-lhe o significado no que toca ao nosso discurso. Tal significado poderia ser o seguinte: organizao idnea que consente um exerccio de poder consoante com as exigncias de um sistema autoritrio. Para detalhar melhor, vamos partir de uma constatao: o poder idividual, aquele que cada pessoa exercita por conta prpria sobre outra pessoa, no  til para o sistema. Quem procura convencer algum da qualidade das prprias opinies, quem dirige um determinado trabalho, quem obriga um semelhante a fazer ou no fazer alguma coisa valendo-se da prpria superioridade fsica ou intelectual, quem procura impor qualquer coisa a quem quer que seja, este exercita uni poder.  o poder do escritor, do mdico, do chefe de obras, do comerciante, do assaltante, do publicitrio, do mafioso, do esportista, do comandante de um avio. Todos esses poderes, de per si, nada valem para efeito de um sistema. Passam a valer no caso de estarem enquadrados em uma organizao orientada de um certo modo. O mdico poderia contrariar o mecanismo produtivo prescrevendo ao trabalhador um perodo de repouso, o publicitrio poderia convencer as pessoas a no consumirem um determinado produto, o operrio poderia chantagear o empreendedor sabotando o trabalho, o malfeitor acaba criando desordem e desconfiana na autoridade, e assim por diante. Tudo isto deve ser evitado.  preciso uma organizao que controle e dirija os poderes singulares e que definitivamente, transforme os indivduos em outros tantos instrumentos de poder superior. Esta  a instituio.
     . O poder da instituio  de uma espcie bem diferente dqu do poder individual. Este ltimo  exercitado diretamente pela pessoa que o detm, enquanto que o institucional  exercitado atravs de terceiros, encarregados de empregar a violncia contra cidados de tudo desconhecidos por quem os oprime. Em segundo lugar, o poder individual  empregado com base em uma tica individual, de tipo emotivo, enquanto o poder da instituio segue as normas de uma tica fundada no costume vigente, funcional portanto a um determinado tipo de estrutura social. O poder individual, enfim, nasce da qualidade, positiva ou negativa, da pessoa, enquanto que o da instituio surge do fato de que um certo nmero de pessoas confiou ao governante o prprio poder, renunciando contemporaneamente a ele. O poder institucional deriva portanto do consenso de uma massa. Consenso que, se no for espontneo, poder ser imposto.
     Estranheza, funcionalidade e centralizao me parecem as prerrogativas fundamentais do poder institucional, e tambm da prpria instituio. Pode-se dizer que este  o melhor caminho para todo tipo de opresso. A estranheza garante a impessoalidade dos conflitos entre dominantes e dominados, a funcionalidade assegura um justo emprego da violncia e evita a disperso dos esforos, a centralizao torna impossvel qualquer rebelio, posto que o eventual contestador deveria combater contra a massa inteira daqueles que declararam em consenso com o monoplio governativo do poder.
     A instituio, alm disso, corresponde exatamente  operativa do patriarcado: como o Pai, tambm a instituio defende  quem a ela se submete, tutela a ordem e fornece a segurana em troca de obedincia. Por esta razo  considerada necessria pela maioria. A instituio defende cada um, portanto  indispensvel.
     Assim, a institucionalizao, praticamente sem encontrar obstculos, difunde-se em todos os setores da existncia humana. H a instituio da famlia, da escola, das foras armadas, do direito, da justia, da burocracia, da assistncia social e sanitria, do fisco, e assim por diante. Mesmo aquele que acredita exercitar um poder prprio e a ttulo pessoal, na realidade no  seno um emissrio da instituio: o genitor que comanda o filho, ou o marido que impe alguma coisa  mulher, podem agir desse modo porque apoiam-se no instituto familiar e matrimonial, o professor que exige disciplina pode faz-lo porque est respaldado na instituio escolar, o magistrado que condena ou absolve age em nome da instituio jurdica, o mdico que prescreve o uso de um remdio age no quadro da instituio sanitria, etc. E essas pessoas acreditam comportar-se tanto melhor quanto mais suas aes forem despersonalizadas, purificadas de todo impulso emocional, aderentes  lgica da eficiencia, aprovadas pela maioria. At as relaes mais ntimas, as intrafamiliares, so governadas pela instituio: exemplo claro  o do genitor que, acreditando estar agindo por conta prpria, geralmente condiciona o filho mediante o uso de pessoas estranhas, como o professor ou o sacerdote. Assim acaba realizando sua empresa baseado muito mais em uma tica oficial que em uma tica prpria, adequando-se de preferncia ao que  socialmente aprovado. A aprovao social, aos seus olhos,  muito mais importante do que aquilo que com um mnimo de senso crtico ele mesmo poderia aprovar. A instituio, habitualmente aceita sem reservas, tende a esvaziar o indivduo de toda iniciativa, de coragem, de fantasia, de confiana em si mesmo, de responsabilidade, de inteligncia, de dignidade.
     A instituio  um instrumento formidvel e, veremos adiante, o mais largamente usado, e com maior proveito, pelos planificadores da represso sexual. A sexualidade, como j foi sublinhado infinitas vezes - para alguns com pesar, por outros com complacncia - contm uma potencialidade enorme e  essencialmente anrquica.  uma bomba psicobiolgica que ameaa constantemente o edifcio da sociedade patriarcal mercantil e repressiva.  o reino do Prazer, que a todo momento poderia transtornar o imprio do Dever.-Por isso  preciso no apenas neutraliza-la, mas tambm apropriar-se de seu contedo energtico e lana-lo na fornalha do produtivismo econmico. Assim ocorre enrolar a sexualidade na espiral da instituio, nico dispositivo em grau de cumprir uma operao to complexa e decisiva. Poder-se-ia dizer que a induo pseudocultural chamada histria  a preparao do campo de ao, enquanto a instituio  a realizao concreta do mecanismo operante sobre o terreno historicizado. Sobre esta construo de fundo prospera aquele vertiginoso movimento dessexualizado chamado trabalho.

c. O Trabalho
     A escolha, imposta do alto, entre Dever e Prazer, entre dinheiro e corpo - obviamente com a obrigatoriedade da escolha do Dever-economia e com a mesma obrigatoriedade de recusa da satisfao carnal -  de tal ordem que os desejos e impulsos originariamente investidos na sexualidade so transferidos para outras reas de comportamento e para outras operaes, aparentemente no-sexuais. A este fenmeno d-se o nome de "sublimao". Falamos dele no captulo sobre "Os Instrumentos da Educao Sexual". Mas acredito que seja necessrio retomar o discurso,  medida que da sublimao deriva aquilo que parece ser um dos males mais graves da nossa sociedade, e que  tambm um dos aspectos mais importantes da sndrome anti-sexual: o trabalho.
     O trabalho, segundo o cdigo tico da burguesia,  um dever. Ao mesmo tempo  produtivo. Portanto corresponde exatamente melhor escolha para um indivduo que aceita os mandamentos do sistema e que consente em colocar numa atividade economicamente vantajosa as energias afastadas do exerccio da sexualidade. renncia a uma alegria imediata, a sexual, tendo em vista alegria mediata e confinada a um futuro longnquo - ou seja, uma alegria derivante da posse de meios de aquisio -  uma renncia ilgica e irracional. De fato o trabalho assim como  concebido nosso clima cultural - uma labuta destinada  conquista de smbolo monetrio mediante o qual se poder comprar uma satisfao que nos compense do sofrimento atual -  coisa irracional. Mas , se me permitem a expresso, tanto mais racionalstico. Pretendo dizer com isso que a "verdadeira" razo deveria conduzir ao alcance da satisfao, ao contentamento dos prprios desejos, complementao de si mesmo na unio com o ser amado. substncia, quela plenitude de vida que provm da aceitao incondicionada do prazer-amor. Mas existe tambm uma razo "falsa", um culto extremista das operaes e dos posicionamentos unicamente racionais, objetivos, espoliados de qualquer componente emotivo, uma devoo absoluta a uma realidade dada, seja ela boa ou m, e que em nosso caso  a realidade da necessidade do trabalho. Em suma, uma filosofia da razo "pura", de uma razo que ousaria chamar de mecanicista. Um racionalismo irracional, se me permitem um jogo de palavras.
     Seria bastante fcil, a essa altura, falar de "princpio do prazer e de "princpio da realidade", e propor ainda uma vez as vrias consideraes j vrias vezes feitas sobre o "bem" de um e sobre
o "mal" de outro, ou vice-versa. Seja como for, trataremos disso mais  frente, em uma perspectiva diferente. Por hora gostaria de salientar que o homem  menos esquematizvel do que se gostaria fazer crer. Portanto talvez no seja to bvia a separao entre obrigao aos mandamentos do sisteina existente e a propenso de agir de maneira diferente de tal normativa. Por exemplo: no se disse, de uma atividade que esteja voltada  satisfao dos prprios impulsos criativos que ela no traz compensao alguma. E de qualquer modo, tratando-se de uma atividade inserida no grande quadro das gratificaes ldico-afetivas - portanto sexuais e por isso mesmo passveis de gerar problemas e conflitos na realidade ambiental - no me parece que ela possa ser definida como irracional. Assim como no me parece que o objetivo ao qual esta atividade est dirigida, ou seja, a procura do prazer, possa ser definido como ilusrio. Pelo contrrio, no sei como considerar lgico e racional o consenso a um trabalho no satisfatrio e freqentemente desagradvel, dirigido essencialmente a uma retribuio econmica que, por sua vez, destina-se  aquisio de meios de sobrevivncia ou do chamado "bem-estar". 
Em resumo, parece-me perigoso estabelecer que existe um contraste insanvel entre realidade e prazer. A realidade pode tambm ser agradvel. Ou melhor, poderia s-lo em um mundo diferente do nosso.
     No nosso mundo, ao contrrio, a realidade  desagradvel. Quase sempre. E como  nesta realidade que  preciso viver, geralmente acredita-se que  necessrio aceitar o desprazer para seguir avante e que a procura do prazer, como atividade precpua, deve ficar confinada ao reino da iluso. Assim a procura do prazer, essencialmente emotiva,  julgada irracional, enquanto a aceitao do desprazer, espoliada das inclinaes emocionais dispersivas,  perfeitamente racional. Mas a razo pura, como observou Ferenczi, poderia ser pura loucura.
     A atividade humana que propicia prazer  o jogo. O jogo  livre de condicionamentos histricos, dado que nada tem a ver com os desejos de vingana, com os posicionamentos punitivos, com as tendncias expiatrias, com as aspiraes  glria e a dedicao a um sistema. E est livre de toda interferncia institucional. O jogo  simplesmente uma atividade alegre que pode exprimir-se em operaes criativas ou durante relaes afetivas. Nitidamente o jogo mais excitante e gratificante  o jogo ertico, peculiar ao ser humano. Por esta sua conotao o jogo pode ser considerado como a negao do trabalho, e este como a negao do jogo. Jogando, o homem poderia viver imerso no prazer e ao mesmo tempo criar com amor, portanto da melhor forma. Mas na realidade atual, ao contrrio, o homem vive submerso no desprazer e no cria nada. Limita-se a executar, geralmente com cansao e repdio, uma srie de operaes das quais no consegue ao menos saber os objetivos. E eis que os artesos vo desaparecendo, os camponeses abandonam a terra, os profetas cada vez mais comercializam seu trabalho, os homens da cultura procuram muito mais o sucesso que a inveno, os cientistas transformaram-se em tcnicos. A imensa maioria dos homens vive desagradavelmente a servio de um mecanismo desmesurado que persegue fins desconhecidos e indiferentes a ela.
     Que o trabalho seja a negao do jogo, e portanto do prazer, e que conseqentemente seja um desprazer, parece-me claramente demonstrado pela necessidade das frias, que no so mais que um retorno provisrio ao jogo-prazer. Um indivduo que diverte-se vivendo, criando e amando alegremente, no tem a menor necessidade de interromper as prprias atividades, e nem deseja faz-lo. Apenas quem vive "fora de si mesmo" - aprisionado por um mecanismo estranho e transportado pela corrente de um movimento que, como pessoa humana, no lhe diz respeito - sente necessidade de abandonar periodicamente o modo de vida. S quem supor uma constante represso dos prprios desejos ldicos aspira fluir um intervalo, no qual a represso  menor e assim lhe  concedida a oportunidade de tornar a ser, mesmo que por poucas horas, homem que joga, que goza e que cria livremente. Isto e, um homem. Ora, se  verdade que o trabalho  a negao do jogo, se  verdade que o jogo encontra sua mais genuna expresso no exerccio da sexualidade,  claro que para reprimir a sexualidade basta tornar o trabalho inevitvel. E parece-me que isto foi feito de maneira mais eficaz.
     A objeo mais previsvel a tudo quanto expus  que o trabalh no  realmente desumanizante mas que, ao contrrio, ele faz parte da natureza humana; o homem sempre trabalhou e inclusive  o
trabalho  um dever para com a coletividade,  a fora que prodiz o progresso. Afirmaes capciosas e superficiais. Comecemos examinando a primeira: o trabalho  uma atividade essencialmente humana, o homem  para o trabalho e o trabalho  para o homem o homem que no trabalha no  plenamente homem, o trabalho enobrece, etc. Detenhamo-nos um pouco para conceder algum ateno ao trabalho a que se dedica atualmente a maioria a pessoas. Na fbrica uma multido de indivduos faz as mquinas funcionarem, maneja materiais de todo tipo, monta e desmonta, controla, une e separa, acumula e elimina, confecciona e empacota, repete centenas e milhares de vezes o mesmssimo gesto na cadeia de montagem. Nos escritrios um outro exrcito compila documentos, escreve cartas, faz contabilidade, formaliza contratos de compra venda, telefona, arquiva as datas. Em outro escritrio, de nvel superior, uma minoria gerencial elabora projetos, discute programas verifica balanos, participa de reunies, estuda os ndices de produo e consumo. Todos, por um certo nmero de horas dirias ou um certo nmero de dias ao ano, executam as operaes de sua competncia com a repetio caracterstica dos rituais. Para que fim?
Ningum sabe. O operrio que ajusta a pea de uma mquina no sabe para que ou para quem aquela mquina ser til. Muitas vezes no sabe sequer de que mquina se trata. O empregado que prepara um documento no sabe porque aquele documento  necessrio, alm de que frentemente o considera de todo intil e arbitrariamente imposto por uma misteriosa burocrasia. O gerente que estuda o mercado de um produto no tem, de costume, a mais vaga idia da maneira como aquele produto entrar no indecifrvel jogo do poder econmico. Dessa forma cada um age, por toda a vida, sem nunca perceber o sentido das prprias aes e sem nunca poder ver-lhes o fruto, at o dia da aposentadoria. Dia em que tudo  cancelado, em que tudo se perde no passado e se dissolve sem deixar vestgios. Como se nas dcadas anteriores no se tivesse feito nada. Apenas uma privilegiada minoria pode desenvolver uma atividade gratificante e diretamente criativa, e sentir-se parte viva e operante da comunidade humana. Os outros so condenados ao sentimento de sua prpria inutilidade.
     Todavia todos os homens, acredito que sem excees, possuem potencialidades relevantes, ideadas ou executadas, mas sempre apreciveis. E pode-se constata-lo quando um indivduo est em condies de dedicar-se livremente aos prprios afazeres. Um operrio melancolicamente ligado a uma cadeia de montagem poderia ser um excelente jardineiro, ou um arteso, ou um pintor. Conheci alguns que se ocupavam no indignamente da filosofia. Uma datilgrafa poderia ter a qualidade de uma poetisa ou de uma campe de tnis. O empregado do cadastro poderia ter a vocao do escultor ou do fotgrafo. O encanador talvez tenha o gnio de um engenheiro eletrnico, o fruteiro o gnio do entomlogo, o gerente o do msico, o funcionrio o do mestre de jud. Nenhum deles pode exprimir plenamente a si mesmo nem dar a prpria riqueza para a coletividade. Todos devem desperdiar seu tempo em um trabalho que no os satisfaa, que raramente entendem, que no serve para nada a no ser para sustentar um sistema socioeconmico longnquo, pouco interpretvel e menos ainda agradvel. O trabalho, aquilo que ns hoje chamamos trabalho, na maior parte dos casos no tem a mnima conexo com atitudes verdadeiras e com a capacidade do homem. Tanto  verdade que cada um de ns sempre faz alguma coisa diferente do que  constrangido a fazer para garantir os meios de sobrevivncia. Dizer que o trabalho - este trabalho desta nossa sociedade - faz parte do homem  ridculo. E no basta. No s o trabalho separa o homem de si mesmo, como tambm provoca um deterioramento da pessoa humana. Falava-se anteriormente daquela moral burguesa que pretende a represso das emoes individuais. Isto vale, e em medida extrema, para o trabalho. "No trabalho", como se costuma dizer, no h lugar para simpatias ou antipatias, para relaes afetivas de qualquer espcie, para o temor, para o entusiasmo, para
a alegria, para a tristeza, para o rancor, para a gratido, para ternura, para a nsia. No trabalho deve-se ser "srio". Quer dizer,  necessrio transformar-se de pessoa em mecanismo, tornar-se material indiferente, desprovido de reaes prprias, disponvel constantemente ao emprego mais profcuo para o funcionamento aparato no qual est inserido. O trabalhador deve abandonar a dinmica do prprio eu e reduzir-se a um instrumento esttico, inerte, e portanto desfrutvel sem dificuldades e sem problemas.
     Tudo isso no pode deixar de influir nas relaes entre tralhadores. No ambiente de trabalho as pessoas no podem cultiivar  laos de qualidade humana  medida que no devem conservar prprias conotaes humanas. As relaes de trabalho so relaes entre robs, entre tcnicos da renda, entre objetos manipulados pelo deus produtivesco. So relaes instrumentais, mecnicas, codificadas funcionais, esterilizadas. Certamente no humanas. Acredito que, existam poucos espetculos to deprimentes quanto o refeitrio de uma empresa. E me pergunto se os apologistas do trabalho alguma vez viram um.
     Passemos  segunda objeo: o trabalho  fonte de progresso e civilizao. Isto seria de fato verdadeiro se o trabalho fosse oriientado para a obteno da felicidade, ou pelo menos daquele tanto 
de felicidade que podemos aspirar. Se do trabalho viesse a ceia de bens indispensveis para todos, como a casa, a comida, os meios mais necessrios para cuidar da sade, etc.; se dele brotassem todos aqueles objetos que servem para satisfazer as exigncias estticas de cada  um e para tornar a vida mais agradvel; se dele derivasse uma liberao do homem das fadigas suprfluas e penosas, ento realmente poderia falar que o trabalho leva ao progresso. Mas no  assim. Parece-me que o trabalho hoje em dia se prope essencialmente de objetivos, sendo que nenhum dos dois tm muito a ver com a felicidade. O primeiro objetivo  obviamente o do poder econmico. Um poder - e isto  importante - que no pertence nem pode pertencer aos indivduos, mas que est nas mos das oligarquias que garantem a sua fora. Quero dizer que um membro de um dirigente, sozinho, no conta nada. Mas se fizer parte do grupo ele , ao contrrio, potentssimo. Em outros termos, a oligarquia  seus componentes isolados no. Estas oligarquias que detm e geram o poder econmico so os conselhos administrativos das multinacionais. Deles depende o trabalho de todos. E o objetivo a todos imposto  o de produzir riqueza em favor do poder. No importa como. Recorrendo  explorao mais impiedosa, provocando artificialmente crises econmicas, especulando cinicamente nas catstrofes inventando necessidades falsas, criando mercados absurdos, aumentando a pobreza de muitos para incrementar o privilgio de poucos. O resultado desta estratgia  uma queda vertiginosa do verdadeiro bem-estar. A poluio dilata-se de maneira espantosa, o mar est se tornando um esgoto, a gua escasseia, bosques e prados desaparecem, a atmosfera pouco a pouco transforma-se em um misto de poeira e gases txicos, as casas assumem as caractersticas de horrveis caixotes de cimento, o barulho se infiltra em toda parte, os alimentos esto sempre mais caros e menos gostosos, os objetos de arte no se fazem mais e os poucos que so feitos esto reservados aos miliardrios. No se pode mais passear entre as rvores, nem banhar-se no rio, no lago ou no mar, nem ter um instante de silncio, nem olhar o cu. Em compensao deve-se trabalhar sempre mais, sem respirar e sem esperanas.
     O segundo objetivo do trabalho  o domnio. No so econmico, mas absoluto. Um domnio que se estenda sem obstculos sobre coisas e homens. Todos, mais ou menos, direta ou indiretamente, trabalhamos em favor de um avano tecnolgico. E a tecnologia  empregada para dominar. Ao mesmo tempo que o conhecimento e a habilidade do homem aumentam, cresce a potncia destrutiva de suas armas, isto , dos seus meios de intimidao e opresso. No nosso sculo, especialmente nos ltimos quarenta anos, a produo de instrumentos de extermnio atingiu nveis preocupantes: campos de eliminao eficientssimos, ogivas termonucleares, gases nervosos, armas bacteriolgicas, etc. Ao lado de uma tal produo mortfera proliferam algumas operaes marginais que por sua vez valem-se de diversas maneiras da tecnologia; a perseguio s minorias, a neutralizao dos opositores mediante tratamentos mdicos os mais atualizados, a tortura. As informaes de que dispomos demonstram sem dvida que a prtica da tortura espalha-se incrivelmente, mesmo nos civilizadssimos pases da Europa ocidental.
     No, no me parece verdadeiro que aquela operosidade sem sentido que ns hoje chamamos trabalho seja fonte de progresso. E creio que no h como discordar daqueles que o consideram fator de runa e decadncia. Se o homem continuar a trabalhar assim chegar provavelmente  autodestruio. J est chegando. Mas disso os dirigentes do destino humano no tm medo. Ao invs tm medo, e muito, da sexualidade. Mas j que o trabalho  o melhor antdoto contra a libertinagem ertica, ento est tudo bem.

6.
ATUAO DO PROJETO
 ANTI-SEXUAL
     A sexualidade em nosso clima social parece condicionada, como vimos, pelo sentimento de culpa, pela negao do corpo, pela sua substituio pelo dinheiro, pela ameaa da hierarquia e da intolerncia. Estas so as orientaes estratgicas de fundo do patriarcado autoritrio e repressivo. Dizamos que para traduzir estas linhas programticas em realidade operante o poder vale-se essencialmente de trs rgos executivos: a histria ou tradio, a instituio e o trabalho imposto. O melhor deles, do ponto de vista patronal bem entendido, parece ser a instituio, a qual  utilssima para consolidar e nutrir os outros dois. E a instituio pr-escolhida para aniquilar a sexualidade  o casamento. Ousarei dizer que o casamento, assim como  concebido e concretizado em nossa sociedade,  uma doena coletiva de gravidade alarmante. Talvez uma das piores e mais trgicas intoxicaes da convivncia humana. Com isso no quero dizer que o casamento no deve existir. Quero dizer que no deveria existir este casamento. Provavelmente no estamos longe da verdade quando responsabilizamos o casamento pela promoo de uma grande parte dos desprazeres que afligem a humanidade. Muitos percebem isso, e esta conscincia do "dano matrimonial", bastante difundida,  manipulada pelos mdicos, psiclogos, assistentes sociais, advogados. Em suma por todos aqueles que tm alguma coisa a ver com as relaes familiares. Por outro lado, e o veremos a seguir, o casamento  substancialmente necessrio para a conservao de um regime burgus-autoritrio. Por isso insiste-se tanto em calc-lo na cabea das pessoas como alguma coisa que no pudesse ser diferente do que .

O FIM PRIMARIO DO CASAMENTO
     Deve-se, antes de mais nada, distinguir o conceito de casamento do conceito de famlia. 0 casamento, no sentido do matrimnio,  a codificao da unio de duas pessoas, ato que torna lcito o exercco da sexualidade entre elas. Famlia  o conjunto de pessoas ligadas entre si pelo vnculo matrimonial, os cnjuges, ou pelo vnculo de sangue, os filhos. Na prtica no h famlia sem casamento e o casamento d origem automtica a uma famlia. Naturalmente pode existir uma famlia "irregular", isto , privada do pressuposto matrimonial, e  por isto que a instituio mais ardentemente defendida pelo sistema  exatamente o matrimnio: para evitar irregularida O contrato nupcial, civil e religioso,  a garantia fundamental da submisso de todos  norma vigente. Mas este  o fim genrico do contrato matrimonial. Seu fim especfico por um lado diz respeito ao destino da prole e, por outro lado, ao destino da sexualidade de todos os cidados.
    Todas as crianas nascem e crescem no seio da famlia portanto em seqncia a um matrimnio, exceto os filhos chamadas  ilegtimos, os quas constituem uma minoria que se procura tomar a mais exgua possvel. Muitos dizem e sustentam que a meta matrimnio  proteger os filhos e assegurar-lhes um ambiente afetivo e educativo estvel, tutelado pela lei civil e cannica. Se isto  verdade,  preciso dizer que esta providncia insttuconal demonstrou uma ineficcia desconcertante. As crianas, e no  preciso muito esforo para perceber, esto bem pouco protegidas contra as ameaas  mais graves, aquelas ligadas  nefasta influncia de um mundo  desumanzado, descaradamente mercantil e moralmente mservel e excessivas vezes no dispem de um clima afetivo realmente estvel. Geralmente - mesmo com excees - o filho  bem defendido de um ponto de vista puramente fsico, mas no o  do ponto de psicolgico, mental e educativo, nem ao menos nas famlias universalmente consideradas de bem.  melhor ento no falar da estabilidade e serenidade afetiva da famlia. No  mistrio para ninguem, que entre os cnjuges a intolerncia recproca, o conflito, o desamor a incompatibilidade, e at o dio, so to freqentes que podem ser considerados habituais, se no comumente explcitos. Isto  fruto da convivncia coagida, do lao indissolvel imposto de fora, da necessidade - e no mais do desejo - de estar junto. Seja como parece de fato ingnu pensar que a autoridade empenha-se na salvao da instituio matrimonial tendo em vista o bem da infncia. De resto, essa mesma autoridade, religiosa ou civil, muitas vezes  em vrios documentos declarou que o matrimnio tem por fim a salvaguarda da moral pblica, a convivncia ordeira, a edificao de uma sociedade produtiva, o engrandecimento da nao, a salvao. da estirpe, etc. Coisas com as quais a felicidade e o verdadeiro bem-estar da criana no tem muito a ver.
     O que realmente se espera do matrimnio, e portanto da instituio familiar,  que ele siga produzindo cidados obedientes, acrticos e resignados. A famlia o sistema autoritrio confia a responsabilidade de educar os filhos em harmonia com as exigncias do prprio sistema, e por isso faz com que a famlia reproduza, em miniatura mas fielmente, a estrutura hierarquizada da sociedade repressiva. As novas geraes devem crescer em meio ao respeito pela ordem e pela disciplina, e cabe  famlia as providncias. Este aspecto j foi discutido no captulo reservado  famlia como falsa educadora e no  necessrio voltarmos a ele. Ao invs disso poder ser til recordarmos a hiptese de Erich Fromm que, no meu entender, explica de modo muito claro e convincente o mecanismo de ao da educao familiar. Segundo Fromm a suprema autoridade da famlia, o pai, se colocaria frente  criana como o ser forte e justo, dotado do poder de impor regras e preceitos, mas tambm como um ser bondoso, dominador ao mesmo tempo que protetor. A mesma imagem que j tivemos ocasio de traar. A criana interiorizaria a figura paterna, tornando-a prpria e assumindo-a como guia moral. Em termos psicanalticos, a figura paterna tornar-se-ia o Superego da criana. Em um segundo tempo o filho, tendo passado do ambiente familiar para  social, projetaria o seu Superego, ou seja a imagem paterna, sobre o governante. Este ento seria, aos olhos do filho-cidado, uma espcie de segundo pai, forte, justo, bom, protetor etc. Essencialmente superior a qualquer crtica. A esta altura a autoridade, transfigurada, seria novamente interiorizada pelo cidado acabando por radicar-se dentro dele e passando a fazer parte da sua personalidade como conscincia civil. Este , segundo Fromm, o caminho pelo qual a famlia produz cidados exemplares. Parece-me difcil contestar seriamente esta sua opinio. E parece-me bem escolhida a definio que alguns propuseram para a famlia: fbrica ideolgica da classe dominante.
     A funo do matrimnio no se acaba obviamente no condicionamento da criana, mas vai alm e investe no campo da sexualidade dos adultos. O matrimnio, dentro do que auguram os moralizadores, deveria esterilizar a sexualidade. Veremos adiante os mtodos com os quais a instituio matrimonial age nesse sentido; por ora gostaria de limitar-me a sublinhar que, no todo, a astcia parece responder egregiamente s esperanas dos seus detentores. Se o que se quer  o progressivo enfraquecimento do erotismo, este objetivo foi alcanado. A codificao de uma emoo to intensa como o amor  um objetivo ambicioso, mas o matrimnio revelou-se o caminho exato para atingi-lo. Por isso ele  imposto sem meios termos e, eu diria, sem piedade.

O NASCIMENTO DO MATRIMNIO
     Se s palavras "famlia" e "matrimnio" queremos dar o significado que hoje geralmente se lhes d - ou seja o de instituies fechadas, absolutas e permanentes - devemos reconhecer um fato bastante estranho e imprevisvel: a famlia, aquela que ns hoje chamamos "famlia nuclear", precedeu o matrimnio na histra moderna dos costumes sexuais. Esta, ao menos,  a opinio de estudiosos, uma opinio fundamentada e realmente vivel. As coisas teriam acontecido assim: entre o fim do sculo dezoito e o comeo do dezenove aconteceu o fenmeno socioeconmico conhecido como revoluo industrial. Foi um acontecimento de grande porte em diversos nveis, que levou no apenas a uma mudana radical o sistema produtivo, mas tambm a notveis transformaes de costumes, inclusive dos sexuais. A aglomerao dos complexos industriais em grandes centros levou a uma progressiva desintegrao famlia patriarcal, j que seus membros que haviam escolhido trabalho na fbrica necessariamente abandonavam o campo, sede operativa do cl, para transferir-se s zonas urbanas. Aqui, nas reas industrializadas, os jovens operrios e as jovens operrias uniram entre si e deram vida a um grande nmero de microfamlias constitudas pelos cnjuges e pelos filhos, enquanto o grosso da comunidade agrcola de origem, velhos, parentes variados, pessoal de serviso etc., permaneceu longe, nos campos. Como era de se esperar, novas pequenas famlias no estabeleceram entre si relaes parcularmente estreitas, permanecendo at mesmo um tanto isoladas. O grupo social tornou-se assim uma espcie de mosaico feito de tramas familiares distantes do prprio grupo e praticamente privadas de comunicao recproca. Os limites entre a famlia e o resto do mundo ficaram cada vez mais rgidos, precisos e intrasnponvel. Cada um fazia a si prprio.
     Este despedaamento das antigas comunidades patriarcais camponesas em uma mirade de minsculas famlias nucleares era muito bom para o capitalismo industrial nascente. Em primeiro lugar a pequena famlia fornecia o material humano necessrio ao funcionamento das fbricas, ou seja os filhos, que fatalmente seguiam o destino do pai e que desde a infncia vinham sendo empregados em uma grande quantidade de operaes produtivas legisladas pela impiedosa e cnica explorao. Alguns estudiosos disseram, e parece que com razo, que a famlia nuclear foi a mais importe fonte de energia de que a revoluo industrial pde dispor. segundo lugar a proliferao de microfamlias assegurou s empresas um constante e crescente consumo de bens que essas prprias empresas produziam, evidentemente com relevante vantagem econmica  para o patronato. Em essncia, a famlia nuclear gerada pelo processo de industrializao tornou-se o alimento e o sustento principal desse processo. Em terceiro lugar foi se concentrando um empenho cada vez maior dos indivduos para com a famlia, originado da necessidade de enfrentar e resolver sozinhos todos os problemas domsticos, da sobrevivncia - bastante difcil - aos cuidados com os filhos. Problemas, no nos esqueamos, que na comunidade camponesa eram bem menos opressivos e melhor distribudos sob a responsabilidade de numerosas pessoas. O incremento das preocupaes caseiras, freqentemente angustiante e traumatizante, trouxe consigo, paralelamente, um decrscimo das energias que as massas trabalhadoras poderiam ter investido em aes de protesto, ou de rebelio, contra a explorao capitalista. Quanto mais o operrio precisava resolver questes domticas, menos podia se dedicar  soluo das questes sociais e polticas. A famlia chegou a ser um tipo de segurana contra eventuais veleidades revolucionrias. O que foi bastante aproveitado pela classe empresarial, que comeava a sentir-se ameaada pelo primeiro espocar de ideologias socialistides. Entende-se por isso porque os dirigentes da poca fizeram de tudo para encorajar e reforar esta nova ordem organizativa da sexualidade, depauperante e anti-social de per si, mas til.
     A obra de incentivo da famlia nuclear seguiu diversos caminhos. Estabeleceu-se principalmente que o novo modelo de organizao domstica era o nico aceitvel e correspondente aos cnones da moral pblica. Na verdade, o nico consentido. Por outro lado se fez da famlia uma condio preferencial para qualquer tipo de carreira, de servente a de diretor ou oficial. Poder dizer "Tenho famlia!" tornou-se pouco a pouco a melhor arma para assegurar o futuro em todos os setores da atividade humana. Um autntico passaporte para o sucesso. Quem no era casado e com filhos no dava garantias suficientes de seriedade e era a priori suspeito. Depois lanou-se a retrica do "lar, doce lar", do ninho de amor, do calor domstico, etc., como premissa para o que em seguida seria o "sentimento de famlia". Mas sobretudo deu-se nova configurao ao matrimnio. E  aqui que o discurso se torna interessante no que toca  sexualidade.
     Para manter vivo um ncleo familiar isolado, grave, frustrante, ordenado, submisso, produtivo e consumidor, era preciso encontrar um terreno de apoio adequado, o mais slido possvel. Tal terreno foi a insttiuio matrimonial. As npcias camponesas, escandalosamente aberta a certas promiscuidades, as inclinaes  libertinagem peculiar das castas privilegiadas, a tendncia generalizada s evases no reino da prostituio, a homossexualidade, as relaes sexuais pr ou extraconjugais, tudo foi eliminado pelo moderno vnculo matrimonial. O novo matrimnio devia dar a impresso do absoluto. O amor, que foi hopocritamente declarado o fundamento do contrato nupcial, conquistou o A maisculo e sofreu uma idealizao sem precedentes, entrando no cu da transcenrnca. Tornou-se algo eterno, onpotente e sobre-humano. Como a vda  a Morte. Assim como o Amor que o alimentava, tambm o novo matrmno tornou-se imensamente superior ao homem que o protagonizava. Foi concebido como eterno, exclusivo, total, indissolvel e incorruptvel. O indivduo, devia exaurir-se no matrimnio. Em especial, sexualmente. A infidelidade conjugal chegou a ser o mais torpe dos crimes, a limitao dos nascimentos um delito contra a Vida e contra o Amor, o excesso ertico ou, pior, o exerccio no rigidamente genitalizado da sexualidade, um insulto  dignidade humana. A associao amor-matrimnio-sexualidade-reproduo saiu definitivamente da esfera discusses.
     A imagem manifestamente irreal que se deu ao matrimnio imps a procura de uma legitimao que tivesse ao menos uma aparnca real. A parte a mobilizao macia da literatura e das artes
geral, que levou  exploso do romantismo, lanou-se s populaes muitos princpios de derivao etolgica, sociolgica, tica, psicolgica e filosfica. Inumerveis ctedras proclamaram, com um respeito  muito escasso pelos estudos antropolgicos, que o matrimnio monogmico, indissolvel e procriativo, sempre existiu na histria e costumes dos homens, e que portanto devia ser considerado como elemento essencial a qualquer forma de civilizao. Afirmou-se que a monogamia representava a nica relao moralmente digna do homem, enquanto paralelamente exemplificava-se com os animais, "notoriamente monogmicos", para convencer o homem de que monogamia era natural e por isso, evidentemente, obrigatria. Como se v, no se cuidou muito da verdade nem da coerncia para defender certas posies.
     Mas o grosso da obra promocional do patronato caiu sobre emotividade das massas, sobre a inclinao bastante difundida deixar-se convencer por tudo aquilo que de alguma maneira " toca 
o corao". Assim o papel de marido e de pai foi mistificado e o homem passou a usar a aurola herica dos que suam e se fadigam para sustentar mulher e filhos, que se volta  prosperidade da pequena famlia, que forja a vinda da prole, que tijolo por tijolo edifca a sua casa e que , exatamente, apenas casa e trabalho. A mesma sorte tocou o papel de esposa-me. A mulher cobriu-se com as vestes do anjo do fogo, passou a atender pacientemente o marido trabalhador, a preparar-lhe comida e roupas, a arrumar a casa, a parir e cuidar dos filhos. Sobretudo isto. A maternidade foi idealizada em todos os seus aspectos e atravs de todos os expedientes. E a maternizao da mulher levou-a inevitavelmente  dessexualizao. Chegou-se mesmo a estabelecer que, no final das contas, a mulher tinha pouco de sexualidade, ou no tinha, e que a sua participao relao conjugal acontecia em uma perspectiva de oferenda ao marido e de consagrao  prole futura. E assim devia ser. Quem espera da mulher um orgasmo, ou at mesmo um comportamento de saber ertico, lhe faltava com o respeito. A mulher no tinha e no devia ter um sexo que funcionasse. Era, como se dizia, um anjo. E se no era um anjo era um demnio, o diabo branco.
     Esta foi, ao que parece, a gnese da atual instituio matrimonial. At agora pouca coisa mudou daquela forma originria de lao esterilizado e retrico. Ainda hoje o verdadeiro matrimnio, aquele "por amor", glorificado com entusiasmo pela religio e pelo cdigo civil, permanece um vnculo sacro, potico, espiritual, intransponvel. Incorpreo, mas ao mesmo tempo produtivo. O principal caminho da anti-sexualidade.

SEMIOLOGIA DO MATRIMONIO
     A caracterstica mais importante da instituio matrimonial  a sua capacidade de impor posturas e comportamentos determinados. Sustento que estas imposies matrimoniais podem ser enquadradas em um esquema de trs faces: a submisso' a um certo vnculo com a tradio, a elaborao de uma outra relao particular com a sociedade, e finalmente a aceitao de uma relao interpessoal prestabelecida e imutvel.
     A tradio, para o matrimnio,  dada pela famlia de origem dos cnjuges. Assim como era o pai deve ser o esposo, e a esposa como era a me. Ou, para ser mais preciso, os cnjuges devem ser como pai e me diziam ser, ou simulavam ser. O filho conjugalmente diferente dos avs  um degenerado. O modelo transmitido pela famlia de origem  o bom e deve ser respeitado, possivelmente sem variantes. Mas no  s: a relao que existia entre filhos e pai deve repetir-se fielmente entre filha e marido, e a relao entre filho e me deve recriar-se entre filho e mulher. A esposa deve portanto colocar-se a servio do marido, como fazia com o pai, e esperar em troca a proteo paterna. O esposo deve procurar na esposa uma outra proteo, materna. Pode-se imaginar sem grande dificuldade o efeito devastador dessa colocao psicoafetiva de tipo incestuoso. As mulheres-meninas, que talvez sejam mais velhas que os maridos, existem em legies. Da mesma forma homens-garotes, que no entanto so dirigentes empresariais ou delegados de polcia. Umas e outros trazem uma contribuio macroscpica ao naufrgio das unies conjugais e  deseducao dos filhos. A venerao pela famlia de origem, bastante tpica dos matrimnios de bem,  infantilizante e por isso antievolutiva. Mas  exatamente isto que se quer: o bloqueio de uma evoluo pessoal que, livre dos laos com o modelo conservador, quem sabe a que desastrosas inovaes poderia levar. Assim os clichs de marido paternal e de esposa maternal continuam a reproduzir-se, aparentemente sem encontrar oposies. Antes, ao que parece, em meio ao consenso universal. A idia de que uma mulher ou um homem possam sair de seus papis histricos, que possam inventar alguma coisa nova, de que procurem solues pessoais diversas para os problemas da convivncia, de que dem vida a modelos originais de unio,  aberrante e quase louca para a maioria dos bem-pensantes. Ainda uma vez, tudo deve ficar como sem, esteve, a despeito de visveis catstrofes que da derivam. E no que toca s relaes com a sociedade o matrimnio mostra claramente a expresso da repulsa. A cerimnia nupcial, no importa se religiosa ou civil, ergue em torno dos cnjuges uma muralha impenetrvel. Como j vimos em outras ocasies, o interesse pelo destino dos homens  considerado quase culpvel, em respeito  microptria conjugal. A  poltica, a ao social, o jogo comunitrio, at a paixo "exagerada" pelo prprio trabalho, devem ficar fora de casa. A  o castelo, fortificadssimo e impermevel, dentro do qual os espectos devem viver "um para o outro". E basta. No confronto com a comunidade humana o matrimnio deve ter o semblante circunspecto. O marido que  mdico e que deixa o calor do aconchego domstico para atender a uma chamada urgente, no  exatamente um marido. E nem o sindicalista, o cientista, o jornalista ou o policial. Isso para no falar daqueles que ficam no bar papeando com amigos. Bom marido  aquele que volta para casa no horrio preferivelmente no muito tarde, e que fica em casa. Discurso vale ainda mais para a mulher. Muitssimo mais. Uma mulher que saia de casa porque se ocupa, suponhamos, de poltica, no tem qualidades de uma boa mulher.  pssima. Quase uma prostituta. Talvez pudesse ser chamada para responder pelo crime de abandono do lar. De qualquer forma, ela est fora do modelo matrimonial aprovado e portanto  censurvel. Concluindo, o espao social prejudicialmente fechado a quem contrai matrimnio, ou pelo menos mais fechado do que para aqueles que esto fora da condio conjugal. Este  um dos pontos sobre o qual se funda o preceito celibato tradicional: o padre, por definio voltado ao socorro moral e material de todos, no deve encontrar impasses da ligao com uma s pessoa. Portanto este lao obrigatrio e sagrado para quem se esposa constitui impedimento ao compromisso extraconjugal, no s ao compromisso, mas tambm  relao, ao dilogo,  municao. Os cnjuges devem estar prontos a enfrentar sozinhos as prprias crises afetivas, os problemas da sua vida cotidiana, desconfortos, as desiluses, os conflitos. Nenhuma ajuda exterior seno naquela religiosa ou civil predisposta pelo sistema em um plano  puramente tcnico: a ajuda dos tristemente clebres consulentes  familiares. Mas das pessoas no se deve esperar nada. E, por o lado, s pessoas no se deve dar nada. Apenas o pouco de si no foi consumido no voraz cadinho do matrimnio. A conotao  mais severa do matrimnio  aquela que se refere s relaes entre os dois cnjuges. Aqui estamos frente  mais rgida intransigncia. A instituio matrimonial pretende antecipadamente, antes mesmo de uma proposio prtica, uma deciso irregovvel da parte dos noivos: a deciso de viver em uma "comunho de amor e vida" de que fala o Conclio Vaticano Segundo. Um passo que no admite reconsideraes, uma ida sem volta. E isto sem que se conceda nenhum aprofundamento, nenhuma prova, nenhuma crtica sria  disposio do outro e  prpria disposio para uma ligao que dever ser eterna. A verdade  que o indivduo, com o matrimnio, no se liga tanto a uma pessoa quanto ao prprio matrimnio, ou seja, a uma instituio. A unio com o cnjuge poder at dissolver-se, mas com a instituio no. O carter de "unido em matrimnio"  indelvel, mesmo para quem tenha sido abandonado ou para o uxoricida. Sobre o altar ou sobre a escrivaninha do oficial civil o indivduo deve proceder  imolao do resto da prpria vida, sem hesitaes. Caso contrrio no haver nenhum matrimnio e conseqentemente nenhum direito  sexualidade.  uma espcie de roleta russa que cada um deve arriscar se quiser conseguir a licena para amar. Em suma, a primeira condio para que se possa fundar uma relao afetiva  a submisso acrtica a uma instituio, independentemente da validade real dessa relao. O que significa que para chegar a uma relao afetiva deve-se acima de tudo neg-la em favor da instituio.
     Um segundo aspecto do matrimnio exprime-se na exigncia de uma verdadeira despersonalizao dos cnjuges. Quem se casa no deve ser especial, imprevisvel, genial, extravagante. A fora da personalidade, se existe, deve extinguir-se na "normalidade". No matrimnio no h lugar para uma individualidade brilhante demais. Ora, para a mentalidade autoritria a normalidade identifica-se com a acomodao  mdia dos comportamentos aprovados. Convm portanto perceber bem a qualidade deste comportamento. A pessoa mdia, no nosso ambiente cultural, apresenta acima de tudo uma enorme estabilidade. Nada consegue convenc-la a ser um pouco menos normal, a desligar-se daquele modo considerado insupervel, adotado pela maioria dos que esto  sua volta. Se a pessoa mdia encontra um indivduo verdadeiramente capaz de amar, verdadeiramente honesto e verdadeiramente livre, prontamente afirma que o indivduo  louco. E a pessoa mdia tem horror da loucura. Permanece assim tenazmente aprisionada pelo prprio fato de nada ser, pelo amor medocre, pela honestidade medocre, pela liberdade medocre, pela vida medocre.  o sustentculo de todos os compromissos e inimiga de qualquer luta. E  a maioria que indica-lhe o nvel mximo de perfeio a que pode aspirar: o rico homem de negcios, o profissional de sucesso, o astro, o super bem-aposentado, etc.
     Exatamente por causa dessa pobreza interior a pessoa mdia incapaz de estar sozinha. Mas  competentssima em isolar-se: rejeita os afetos que poderiam liga-l em excesso aos estranhos e fecha sua volta as pontes da soliedariedade humana. De fato aceita reservas aquele templo de isolamento que, como vimos,  o matrimnio..Isola-se, mas no fica sozinha. No isolamento procura solido afetiva enquanto evita com todo cuidado o que podem chamar de solido "operativa". Quero dizer que o indivduo forte generoso e humano, pode viver muito bem sozinho, porque o amr de que  capaz o mantm constantemente em um estado de unio  com os outros seres humanos. Ele, efetivamente, nunca est s, nem mesmo se vive no ponto mais longnquo da terra. Acontece ao contrrio com o indivduo mdio. Este est fechado no pequeno mundo de interesses pessoais,  afetivamente solitrio, mas no  capaz de estar sozinho consigo mesmo nem de renunciar  presena fsica de outras pessoas porque, dentro de si, no h nada.
     A pessoa mdia, pois, no s  inapta para amar verdadeiramente como nem ao menos procura aprender. Para ela o amor  uma coisa marginal. Talvez alguma coisa suspeita que poderia conduzir a aes incautas. A arte de amar suscita nessa pessoa um interesse bastante limitado. Provavelmente, na maior parte dos casos nenhum interesse. O que importa  a pseudo-satisfao derivante do desabafo imediato e grosseiro, barato ou gratuito, seja sobre o plano monetrio ou sobre o plano do empenho moral. Para ela o amor  alguma coisa que se deve pagar, com dinheiro, com o matrimnio, de qualquer outro modo. No  nada de que se possa esperar uma riqueza, aquela riqueza imensurvel de felicidade que brota de relao genuna e profunda. A sua convico  de que amor se pode comprar e que de fato no  necessrio cria-lo. A incapacidade de amar, em nossa sociedade,  realmente assombrosa. E as conseqncias esto por a. Basta dar uma olhada na crnica policial. Aprender a arte de amar leva tempo. E ns, envolvidos em uma histrica corrida ao sucesso, no temos tempo para isso.

     Eis uma outra peculiaridade do indivduo mdio dito normal: ele nunca tem tempo. Na verdade ele dispe de tempo,  em abundncia, mas apenas para aquelas operaes que lhe so impostas sugeridas pelo costume. Para o trabalho, para a televiso, para o jogo de futebol. Mas para fazer amor, nunca. O amor se faz com rapidez nos momentos em que nada mais h para fazer. O princo-guia para os servidores do sistema  o da rapidez e eficincia, e no campo da sexualidade eficincia significa orgasmo. O que se quer   um orgasmo conseguido  fora. Falta a pacincia, a capacidade de divertir-se, de prolongar o jogo, de saborear com calma o prazer. Assim como se anda depressa, se come depressa, se bebe depresa, faz-se depressa tambm o amor. A nica coisa que se faz com calma,  se no com preguia,  matar o tempo. O tempo que se diz no ter. A relao sexual tornou-se uma relao apressada, direcionada a uma soluo mecnica que resolve prontamente uma tenso, e nada mais. E isto foi encorajado ulteriormente por uma presso de tipo religioso, mesmo que nem sempre percebida a nvel da conscincia, dado que para o moralismo eclesistico o jogo ertico  sempre uma porcaria reprovvel. Portanto o bom cidado limita-se exclusivamente a uma relao fugaz e grosseira, seja para no desperdiar seu precioso tempo, seja para poder conservar de si mesmo a imagem de um homem que  superior s tentaes da libido. O sexo, deve-se reconhec-lo,  considerado pela maioria como alguma coisa inevitvel mas pouco nobre, alguma coisa que merece uma ateno bem limitada.
     A ateno: uma outra qualidade pouco apreciada pela pessoa mdia e normal. Se se quisesse submeter o nosso modo de vida a uma anlise sincera, descobrir-se-ia que ningum se preocupa em estar atento a coisa nenhuma. Fala-se, geralmente pelos cotovelos, mas no se escuta; olham-se muitas coisas, mas no se v nenhuma; age-se ininterrupta e freneticamente mas no se pensa sobre o que se faz: engole-se grande quantidade de informaes sem nunca elaborar uma; discute-se empregando argumentos banais e quase sempre falsos mas geralmente ningum se esfora para ter uma idia prpria. A ateno requer concentrao e a concentrao implica em cansao. Melhor ento andar com os olhos fechados e a mente em repouso, apreendendo o que  dado assim como . O mesmo comportamento se mantm inclusive no exerccio da sexualidade. Quem realmente se concentra no gesto sexual? Quem procura fazer do amor uma arte, no verdadeiro sentido da palavra? Quem  capaz de idear uma sexualidade original, dinmica, fecunda de imprevistos, "diferente"? Bem poucos, que eu saiba. A pessoa segue estrita e automaticamente os mesmos caminhos que todos os seus semelhantes seguem, sem nunca procurar alguma coisa nova. Mesmo porque neste campo as novidades so tidas como perverso. A fantasia, no amor, no  admitida.
     Neste aspecto o matrimnio  slido: NO  fantasia. Absolutamente NO, sem nenhum tipo de concesso. No s  proibido mudar as prprias posturas e as prprias aes, mas  proibido tambm mudar a si mesmo.  preciso permanecer sempre igual, exatamente idntico ao que se era no instante em que se decidiu esposar-se.  preciso ser constante. A esta forma de imobilismo deu-se o nome de fidelidade. A relao prevista pelo matrimnio  invarivel. No importa que seja intenso, generoso, inebriante, alegre, humano,. feliz. Basta que dure no tempo. Basta que se conserve eterno, mesmo se for anmico, egosta, montono, cansativo e infeliz. Alm disso deve ser nico e exclusivo. O matrimnio  um monoplio permanente. As unies temporneas, mesmo que importante e absorventes, so estranhas ao carter matrimonial. De forma simples, pode-se ter relaes sexuais com uma s pessoa toda a vida. Mesmo que o indivduo cresa e se transforme, mesmo que as circunstncias sejam outras, mesmo que tudo mude, o indivduo casado no pode mudar. Pode acontecer - e acontece muito freqentemente - que por um certo perodo ou para sempre duas pessoas, mesmo que felizmente unidas, sintam que entre elas nada mais h em comum. Pode acontecer que at o vnculo mais slido se dissolva, transitria ou definitivamente. Mas o matrimnio continua a pretender que os cnjuges comportem-se como se nada tivesse acontecido.  estupefante o fato de que a maioria das pessoas se submeta a esta lei paradoxal, e at mesmo faa dela sua lei, a ponto de defend-la com a mais ferrenha convico. A fidelidade conjugal, esse estranho costume que pretende imutabilizar comportamentos de per si mutabissimos, parece um princpio que ningum quer colocar em discusso. Nem mesmo frente  constatao de que as unies bem sucedidas e duradouras, uma evidente minoria, existem porque os cnjuges renunciaram previamente  chamada fidelidade.
     A imagem exterior do matrimnio que nos  incansavelmente apresentada atravs de todos os meios de comunicao, regada pela luz da fidelidade,  pouco crvel. Eu diria mesmo que  grotesca pattica. O que se quer fazer acreditar  que em um matrimnio saudvel e normal a infidelidade no tem razo de ser, dado que no deveria existir conflitos entre os cnjuges.  um discurso que j tornou fastidioso dada a perseverana com que  difundido pelos plpitos do moralismo e pela tela de TV. O matrimnio de bem,  aquele que obedece a norma, no pode abrigar em seu seio dissidncias nem contradies. Assim se diz. E por isso chega-se a outro engano: a fidelidade  faclima, basta agir de acordo com tudo. E parece que ningum percebe o fato de que esta contnua mentira, esta perene concordncia atrozmente falsa, acaba sem por gerar a monotonia das relaes que destri qualquer esperana de fidelidade. Estou convencido de que podem existir relaes to vlidas que durem a vida inteira, no porque estejam livres de conflitos e confortadas por uma fidelidade firme recproca, mas at  porque no levam estas coisas to a srio. No se trata, neste caso de unies fundadas sobre renncias dessexualizantes, mas de uma livre evoluo de relaes, sobre uma erotizao capaz de renovar fantasiosa, criativa, excitante. Perversa, diriam os nossos censores habituais. Certamente incompatvel com a fisionomia codificada do matrimnio.
     Sem a fidelidade a instituio matrimonial perderia muito do seu sentido. Talvez cessasse de existir. Ento ela  munida de uma srie de maquinismos aptos a proteger sua impenetrabilidade s tentaes extraconjugais. A couraa matrimonial  polivalente. Seu elemento principal  constitudo por uma chantagem: a infidelidade dos cnjuges recai sobre a cabea dos filhos. Se os genitores so fiis um ao outro os filhos crescem bem e so felizes, se os genitores corrompem-se ou, pior ainda, se se separam temporria ou definitivamente, os filhos so infelizes. A afirmao  mentirosa e a experincia de quem se ocupa dos problemas familiares demonstra exatamente que os filhos de pessoas sexualmente independentes ou at separadas so, o mais das vezes, notavelmente menos infelizes do que os filhos daqueles que, sem amor, continuam a conviver por simples obsquio ao costume ou pela obedincia a um preceito da Igreja. Afirmao mentirosa, dizia, mas geralmente aceita como verdadeira e indiscutvel. Entretanto, mesmo sendo a mais potente arma defensiva do matrimnio e mesmo exercitando sua ao opressiva sobre todos, ela no  suficiente.  preciso algo mais que envolva pessoalmente os cnjuges colocando em risco sua prpria dignidade. Ou o que se acredita ser dignidade. Este outro instrumento, na verdade eficientssimo,  o cime.
Ser ciumento, para quem aceita o matrimnio tradicional,  uma virtude. Para o homem, possuir com exclusividade uma mulher  honroso, e perder essa posse absoluta  desonroso. Para a mulher, dar-se a um s homem  uma espcie de resgate da degrao implcita no prprio ato de dar-se; e em troca desta ambgua doao ela tem o direito de exigir, com moderao, a fidelidade do homem. A mulher que experimenta uma sexualidade extramatrimonial rouba do homem a sua honra, o homem que trai a mulher rouba-lhe o devido respeito. Este  o esquema de fundo. O qual, evidentemente, no d conta de uma realidade dificilmente contestvel: que a possibilidade de reprimir a todo momento e por toda a vida os estmulos sexuais no-conjugais  ilusria. Para toda mulher existem homens desejveis, alm do marido; e para todo marido existem mulheres desejveis, alm da esposa. A recusa constante de uma relao diferente, nova e de substncia imprevisvel, pode a longo prazo tornar-se perigoso  medida que conduz a um progressivo distanciamento da realidade sexual. S  impossvel isolar-se dos estmulos sexuais extraconjugais negando-os. Mas negando a sexualidade no institucionalizada no prprio microcosmo nupcial corre-se o risco de negar toda a sexualidade, at mesmo a conjugal. E  exatamente isto que acontece, com uma freqncia considervel. O homem monogmico e a mulher monondrica perdem regularmente uma notvel parte de sua carga de libido. Todos aqueles que se ocupam da casustica matrimonial, se estiverem em boa f, podem agilmente constatar que a impotncia e a frigidez no so casos excepcionais, e que esto difundidos particularmente entre aqueles que respeitam as normas sexorrepressivas.  verdade que, superadas certas batalhas e vencida a tentao por um certo nmero de anos, fica mais fcil manter a fidelidade. Devo entretanto repetir o que
 disse mais acima: certas unies bastam a si mesmas e so indubitavelmente felizes. Mas no assim porque rejeitaram as sugestes romnticas de uma renncia apriorstica. Estas unies so edificadas sobre o prazer, e no sobre o dever.
     O matrimnio, convm repeti-lo ainda uma vez, no  tanto unio como uma instituio e, como todas as instituies, defende a si mesmo com tenaz intransigncia; ele no tolera portanto
aberturas  sexualidade extraconjugal, categoricamente colocadas na rea das contaminaes ilcitas e perigosas. Esta rigidez, entretanto, aparente. Como todas as instituies, tambm o matrimnio  hipcrita: recusa a princpio, mas cede s escondidas a um acordo. O acordo matrimonial  a prostituio. A eventualidade de uma relao puramente afetiva - amigvel, humana, no raramente rica em lances evolutivos e talvez at vantajosa para o alcance de um euilibrio psicossexual - mas exterior  instituio conjugal  descartada com horror, enquanto se indulta benevolamente a vaso vulgar, degradante e mercantil no reino da prostituio, de baixo ou de alto  nvel. Presume-se que a relao extramatrimonial baseada na amizade e em uma atrao psicofsica representa uma ameaa para a instituio e que, ao contrrio, a relao desumanizada baseada na compre e venda representa, para essa mesma instituio, um elemento estabilizador. O matrimnio, sentencia-se, precisa ser salvo a qualuer custo. Se a esposa, dessexualizada pela rotina domstica, ou descomposta pela gravidez, ou ancorada no reino moralista, no est dispoonvel para satisfazer as exigncias maritais, no h o que temer: uma escapadinha at o edifcio adequado resolve tudo. Em questo de meia hora e de algumas notas de mil o matrimnio est salvo. Com as exigncias da mulher, bem entendido, ningum se preocupa. O matrimnio, no final das contas, parece ser o mais importante sustentculo da prostituio. E a prostituio retribui o favor consolidandoo o matrimnio. Acredito mesmo que tenham razo aqueles que temem a sexualidade extraconjugal de tipo afetivo e que vem com simpatia a de tipo comercial. Acredito tambm que a primeira seja perigosa para a instituio e a segunda, ao invs, bastante til. Mas pergunto-me se  o caso de proteger uma instituio que poderia esfacelar-se de um momento para o outro se no fosse protegida pelos tribunais e pelos bordis.

BALANO DA EMPRESA MATRIMONIAL
     Em vista de uma avaliao da empresa matrimonial talvez seja oportuno retomar as hipteses discutidas at aqui. Todo o edifcio da sociedade autoritria tem como pedra fundamental uma perseveram e assdua sufocao da sexualidade. Esta operao, pelo que vimos,  conduzida por uma estratgia precisa, cujos elementos principais so a culpabilidade dessa mesma sexualidade, a desqualificao do corpo, a imposio de uma dimenso econmica  existncia, a hierarquizao das relaes humanas e a discriminao moralista dos indivduos. Para legitimar tudo isso valeu-se do culto  tradio, para imp-lo inventou a instituio, para concretiz-lo nos hbitos cotidianos deu vida ao mito da inevtabildade do trabalho alienado. A anti-sexualidade assim legitimada, organizada e concretizada, transformou-se enfim em condio habitual e universal, portanto "normal", atravs da instituio matrimonial. O matrimnio tornou-se por isso objeto primrio do que hoje se chama de educao sexual. A pergunta que a este ponto surge espontnea  a seguinte: o matrimnio, entendido como instituio, realmente assumiu as responsabilidades que lhes foram dadas pela autoridade sexorrepressiva? E alm disso: o matrimnio  ainda vlido para os fins da anti-sexualidade? Apresenta alguma fraqueza?  possvel idear sua substituio por solues alternativas no sexofbicas? Eis-nos no momento do balano da empresa matrimonial.
     Parece que este balano  positivo. O matrimnio fez o que devia fazer, e continua a faz-lo. Para melhor entendermos este indiscutvel sucesso partamos de alguns fatos j muitas vezes mencionados. O matrimnio  o nico espao onde o exerccio da sexualidade  consentido e considerado lcito, seja pelas autoridades religiosas ou pelas civis. Isto significa que a sexualidade pr-matrimonial ou extramatrimonial  proibida, e quem a pratica  censurvel. O matrimnio portanto contribui fortemente para manter vivo o sentimento de culpa em todas aquelas pessoas que, de um modo ou de outro, conseguem ou procuram conseguir uma satisfao sexual fora dos seus limites. E seu nmero  extraordinrio. O matrimnio realmente merece ser designado como o mais eficaz meio de culpablidade das massas.
     Culpabilidade que o matrimnio alimenta fora e em seu interior. Espera-se do matrimnio precisamente a fundao de uma famlia com uma relativa prole, e que a sexualidade conjugal seja genitalizada e procriativa. A prtica de um erotismo no gerativo, mesmo entre marido e mulher, vai contra os costumes e contra as orientaes eclesisticas, caindo no mbito da desaprovao social e religiosa. Mesmo as pessoas regularmente casadas podem portanto sentir-se culpadas se no agirem em conformidade com os modelos ortodoxos do estado matrimonial. O que acontece com freqncia.
     O emprego conjugal do corpo, e este  um segundo ponto que me parece importante, contribui pois para degrad-lo. J reconhecemos o novo posicionamento da Igreja, bastante menos avesso  corporeidade do que no passado. Mas continua sempre dominante o princpio que coloca o corpo em nvel inferior, e menos nobre relativamente ao esprito. No projeto matrimonial admitem-se muitas  coisas, como a assistncia mtua, a compreenso recproca, os laos morais, a alegria dos filhos, etc., mas pouqussimo peso  dado ao prazer como um fim em si mesmo. A felicidade conjugal mantm-se  na perspectiva da procriao. O corpo como fonte de satisfao  mais ou menos relegado  condio de uma evaso ilcita, se noo de prostituio. O matrimnio resgata o corpo da desordem e perversidade, mas o mantm no estado instrumental-generativo depois, no  o corpo que a instituio redime, mas um determinado corpo: o do cnjuge. O prazer corporal em si e por si continua a ser negado, e considera-se aceitvel apenas a satisfao conjugal. E mesmo essa, como se dizia, dentro de certos limites. O matrimnio fornece enfim a autorizao para usar a carne que, fora dele e de 
suas normas,  coisa imunda.
     Ao lado da desvalorizao do corpo o instituto matrimonial promove uma clamorosa valorizao do dinheiro. Na realida basta um olhar superficialssimo  nossa sociedade para constat-lo, 
o sangue que nutre o matrimnio no  de fato o prazer, nem menos o amor, mas o dinheiro. Quem pensa, ao menos uma vez no melhor modo de estar junto, na possibilidade de tornar mais agradvel a relao sexual, em como encher de alegria a vida em comum, nas providncias mais eficazes para dar e receber felicidade?  Quase ningum, eu diria. Mas quantas vezes, ao invs, ouve-se falar de renda familiar, da poupana, da herana, do patrimnio, do balano domstico! Se a disponibilidade econmica  notvel, as probabilidades de sucesso de um matrimnio so maiores. Se o problema financeiro no  preocupante as coisas seguem em frente. Mas como? Bastante  melancolicamente, ao que parece. O marido compra alguma consolao no mercado sempre florido da prostituio mais ou menos declarada; a mulher supera os prprios desenganos e a inevitvel solido com algum amigo ou, mais virtuosamente, saindo para fazer  compras. A instituio, dessa maneira,  salva.  salva sempre, mesmo que acontea a separao ou o divrcio, que no fundo so apenas um dos aspectos do matrimnio. O essencial  que a conta bancria esteja bem nutrida. Com ela d-se sempre um jeito no lar matrimonial. O que se espera de um indivduo que pretenda se casar  que ele se organize, que quebre a cabea para alcanar uma boa posio. Que tenha dinheiro, em suma. A estabilidade econmica  o preldio de qualquer matrimnio. O matrimnio , talvez, o estmulo mais forte ao lucro.
     Tambm no que toca  hierarquizao o matrimnio cumpriu e cumpre o seu dever. A despeito de todas as reformas do Cdigo, o contrato nupcial  baseado em uma relao hierrquica. A unio que se realiza fora de uma codificao civil ou religiosa pode encontrar o prprio fundamento em uma autntica paridade, e com efeito isto acontece em muitos casos. Mas no no matrimnio: a instituio exige sempre a ordem hierrquica. Naturalmente  possvel fugir desta norma, mas nesta hiptese o casal prescinde do vnculo matrimonial e o coloca  margem como formalidade irrelevante, e a pode-se duvidar que o matrimnio realmente exista. Esta  uma reserva de carter geral, e de relevo notvel: o matrimnio, pelo que se depreende de uma experincia bastante difundida, tem tanto maiores possibilidades de ser uma unio afetiva autntica e duradoura quanto menores so suas conotaes burocrticas de tipo institucional. Quero dizer que em um certo nmero de casos duas pessoas, mesmo regularmente unidas frente  lei, conseguem manter entre si uma relao especialmente humana e conjuntamente feliz; mas isto acontece apesar do matrimnio e no por sua virtude. Em outras palavras ainda,  pouco provvel que o amor cresa e prospere porque  gerido por uma regra exterior imposta. E o matrimnio  exatamente isto: um constrangimento externo que pretende dirigir e regulamentar a relao sexual entre duas pessoas. E pretende faz-lo, entre outras coisas, introduzindo  fora no seio dessa relao uma outra relao hierrquica especial.
     A hierarquizao do matrimnio, que lhe acentua a fisionomia compacta e impermevel, provavelmente contribui em medida relevante para a expanso daquele fenmeno desencorajador que  o despedaamento da comunidade humana. O cnjuge tende a fazer diferena entre quem pertence ao seu micromundo matrimonial - o que lhe consente o exerccio de um certo poder - e quem no pertence, que no raro exercita um poder sobre ele(a); o costume  codificao matrimonial de um determinado tipo constitui um impulso considervel no sentido da diferenciao daqueles que se unem segundo usos de outro gnero, e portanto  separao entre povos e grupos tnicos; o estado civil e religioso conferido pelo matrimnio - caracterizado por privilgios especficos e deveres particulares -  premissa para uma discriminao entre quem dele participa ou pode participar, e quem dele  excludo, como os jovens; e a prpria coletividade em seu conjunto  desintegrada em uma imensa quantidade de molculas, as famlias nucleares, a priori em conflito entre si. Pode-se afirmar, brevemente, que o matrimnio , de um ponto de vista social, instrumento de separao mais que de unio, e que a sua capacidade disjuntiva  tanto maior quanto mais se funda sobre um atributo no certamente menos importante da raa, ou da religio, ou da ideologia poltica: o direito  sexualidade.
     Em todos os setores do terreno repressivo o matrimnio, talvez mais que qualquer outra instituio, faz sentir o prprio peso. A ponto de justificar plenamente os temores daqueles que vem sua fragilizao um risco grave para nossa estrutura social. Sem matrimnio, sem este tipo de matrimnio, a sobrevivncia de um sistema capitalista autoritrio  praticamente impossvel. Sobre isto parece-me, esto de acordo todos os autores que dedicaram uma ateno suficiente ao problema. E com efeito, como j se sublinhou inmeras vezes,  ao matrimnio que conduz a nossa educao sexual contempornea. E, poder-se-ia dizer, com timos resultados.

7.
OS FRUTOS DA ANTI-SEXUALIDADE
     No sei com quanta sagacidade acreditou-se que era possvel negar impunemente uma qualidade to especificamente humana como a sexualidade. Graas a um complexo de operaes - entre as quais
a educao sexual seguramente no ocupa o ltimo lugar - a represso conheceu vitrias sobre vitrias, e atualmente triunfa. Mas as conseqncias deste triunfo parecem graves demais e ameaam ser catastrficas.

O MEDO DA SEXUALIDADE
     Sublinhamos j muitas vezes que o homem parece ter medo de sua prpria sexualidade. Que ela amedronta os detentores do poder institucionalizado  bvio, visto que o prazer ertico  inimigo inconcilivel de todo sistema autoritrio. Coisa j evidenciada por inmeros autores, a comear por Freud. Mas a generalizao desse terror, j radicado na mente de todos, requer algumas explicaes. Quem produziu o medo? E como? A primeira pergunta  fcil de responder e, alis, j foi respondida: o culpado  o patronato, de qualquer categoria social e de qualquer cor. Ou pelo menos pode-se suspeitar dele legtima e fundadamente. Menos fcil, no entanto,  resolver a segunda questo. Como os homens foram convencidos de que uma parte de sua personalidade  aterrorizadora, e que portanto esta parte deve ser severamente controlada e encarcerada em um espao o mais exguo possvel,  realmente pouco claro. A menos que no se considere axiomtica a tendncia do homem a lesar-se a si mesmo. Mas acreditar que se trata de uma tendncia inata e prpria da espcie, portanto inevitvel, no  exatamente correto: os exemplos de culturas antigas e contemporneas imunes  sexofobia, e pouco ou nada sexorrepressivas, existem e so bastante convincentes. Talvez seja mais lgico pensar que algum, de algum modo, tenha condicionado a nossa cultura. Trata-se, exatamente, de verificar em qual modo.
     Observemos, antes de mais nada, que para uma imensa maioria a sexualidade como um fim em si mesma - ou o erotismo no dizer de Bataille -  relegada ao pntano do suicdio, do desgosto, da degradao, do vergonhoso, do diablico, do tenebroso. A sexualidade pertence  noite,  sombra, ao esconderijo. A sua cor  o negro. Seu grande profeta  Satans. O seu espao  o mesmo dos rgos  excrementcios. Tudo isso foi simbolizado no ritual da Missa Negra, presidida como  pelo Prncipe das Trevas, celebrada na obscuridade noturna e polarizada na regio negra do corpo: a regio anal. 0 negro no  apenas smbolo da sujeira, das trevas e do Mal, mas tambm da Morte. Quem cede  sexualidade perde a prpria vida espiritual e afasta de si a vida do progresso e da sociedade. Morre para o Paraso e para a Civilizao.
     Naturalmente muitos dizem que esta mentalidade foi superada h muito tempo, e que nos dias de hoje ningum mais pensa em termos to medievais. Falso. Todos, ou quase todos, ainda pensam  assim. O exerccio da sexualidade descoberto de esquemas apropriados continua impensvel, a nudez  considerada quase sempre indecente, fica-se escandalizado frente  "expanso da pornografia",  deplora-se a licenciosidade dos costumes, conserva-se uma macia e detalhada legislao do bom costume, aceita-se com aquiescncia a condenao religiosa e civil da sexualidade.  sexualidade continua-se a reservar o ngulo oculto, o isolamento e a noite. A sexualidade continua a ser inconfessvel. Gostar-se-ia de fazer crer que tudo isto  "natural". Mas a verdade, parece-me,  que estamos frente a um doutrinamento, j milenar, que inculca a identificao da sexualidade com o Mal e com os seus sombrios horrores, e que tal doutrinamento   sempre vigoroso e operante. Entretanto, o medo da sexualidade no  mantido nos nveis desejados apenas atravs de uma propaganda um tanto primitiva. Isto me parece fora de discusso.
Existem outras coisas. Existe, por exemplo, a equivalncia habilmente sugerida entre herosmo-virilidade-castidade. O heri, potente por definio, por definio  tambm puro. Segue da que aquele que no  puro no  conseqentemente heri, e por isso perdeu uma parte mais ou menos relevante da sua potncia viril. Na linguagem comum costuma-se chamar afeminado ou afetado aquele que no reprime a prpria sexualidade, enquanto  macho e forte quem a reprime. Eis a propsito o brado que, se no fosse srio  seria cmico, dado pelo punho de um representante da igreja alem: "Humanidade Desvirilizada". (1) "Recentemente um conhecedor do povo proferiu este juzo sobre a nossa poca: a feminilidade moderna prevalece sempre mais sobre a virilidade, a satisfao sobre a moral, a fraqueza sobre o herosmo. Este homem no ter razo? Temos hoje uma humanidade desvirilizada, com todas as suas conseqncias. Onde batemos os olhos, vemos avanar atravs dos moos o esprito moderno: sensual, ftil, presunoso e oferecido(... ). Estes rapazes lascivos, que rebolam e danam pelas ruas, influenciam evidentemente a fraqueza dos jovens". O texto data da poca do boom nazista, e  assombroso o fato de que, desde aquele tempo, a mentalidade autoritria tenha mudado to pouco: o paralelo entre liberdade sexual e castrao permanece validssimo no discurso moralista, assim como permanece inalterado o desprezo pela mulher. Seria o caso de acreditar que, para nossa mentalidade, o exerccio normal da sexualidade equivale a uma desvirilizao, isto ,  transformao de macho-superior em mulher-inferior, e que a castidade imposta - que por isso  uma castrao funcional - equivale ao mximo da virilidade.
     A civilizao industrial no deixa de contribuir, densamente, com o terrorismo anti-sexual: a tica do capital impe a venerao pelas operaes economicamente produtivas e lucrativas. Sendo assim, o impulso para conseguir a satisfao e o prazer  vivido pela maioria como culpvel, dado que o prazer, de per si, no produz nenhum lucro monetrio nem para si mesmo nem para a coletividade. A angstia mobilizada pela culpa de desejar o prazer levaria  procura de proteo contra esse mesmo desejo, isto , contra a sexualidade. Ora, dado que o prazer sexual  fortemente simbolizado pela mulher, estar-se-ia procurando proteo contra um monstro trplice, inimigo da sociedade: o Sexo-Mulher-Mal. Vai da que apenas o Pai, nas vestes de governante-legislador, pode assegurar uma defesa vlida. E realmente recorre-se a ele, evocando-o vez por outra como pastor de almas, censor, ministro, educador e policial.
     Tudo o que  fortemente suspeito de suscitar o medo da sexualidade, e que foi brevemente resumido nos pargrafos anteriores, parece relativamente incuo se comparado com o potente mecanismo
que est no profundo de cada um de ns. Devemos confessar, se no quisermos nos enganar a ns mesmos, que o hbito ao trabalho competitivo nos arrasta a posies de desconfiana e de pessimismo no confronto com nossos semelhantes. Esperamos de quem vive e age ao nosso lado rivalidade, concorrncia, chantagem, tentativas de opresso, golpes, etc. E acreditamos que isto  normal. Faz parte do jogo. Mas, como diz Fromm, "amar significa confiar completamente, incondicionalmente, na esperana de que o nosso amor suscitar amor na pessoa amada. Amar  um ato de f, e aquele que tiver pouca f ter tambm pouco amor". Pois bem, ns temos pouca f. A idia de abandonarmo-nos  benevolncia dos outros nos parece ingnua, e nos d medo. O amor propriamente verdadeiro, e por isso tambm a sexualidade, nos coloca em alarme. Podemos ser golpeados pelas costas, trados, escarnecidos, ridicularizados e feridos. No queremos correr riscos. A livre sexualidade no faz parte da nossa filosofia porque requer estima e confiana, dedicao autntica e entusiasmo. Coisas muito distantes da mentalidade mercantil que nos  prpria. Talvez esteja exatamente aqui a origem daquela recusa da felicidade da qual falvamos mais acima: a felicidade, que  o estado de nimo bsico para a comunicao sexual, nos  estranha. E disso nos assusta.
      possvel pensar que o medo, introduzido por diversos mtodos no indivduo, seja um dos instrumentos de represso de sexualidade isto parece verdade. Mas provavelmente tambm  verdade uma constante e meticulosa represso produz o medo que, por isso, seria tambm uma das conseqncias da anti-sexualidade, e no das menores. A proibio no s da relao, mas tambm do desejo, chegaria em certo momento a constituir-se como inabolvel norma de vida, e a sua transgresso tornar-se-ia ento um temvel perigo de auto-erradicao do tecido social. Assim nasceria o medo, cujo crescimento seria favorecido por outros tipos de presses exercitados pelo sistema, presses que j tivemos oportunidade de ver: a identificao da sexualidade com o suicdio e com o abjeto, o paralelo entre  liberdade sexual e desvirilizao, a desqualificao humana e social da mulher, e sobretudo o estmulo econmico de tipo competitivo que torna suspeita a ligao sexo-afetiva, ingnua e desarmada. Se esta hiptese corresponde  realidade, como sustentam vrios autores, e se tambm  verdade que o medo da sexualidade  pai ao mesmo  tempo que  filho da represso, ento pode-se explicar o fenmeno  aparentemente inexplicvel de que falvamos antes: o medo no pertence s aos repressores mas tambm s suas vtimas, no aos adultos moralizadores mas tambm aos jovens.
     Intil neg-lo: os jovens temem a sexualidade assim como temem os seus educadores. A criana no. A criana, podendo, dedica-se com manifesto entusiasmo s suas atividades sexuais, como a masturbao, as "brincadeiras proibidas", etc. Mas depois,em 
funo da influncia ambiental, transforma-se: torna-se reserva com freqncia pudica, algumas vezes at puritana. At que, quando a crise da puberdade lhe revela os aspectos sociais da sexualida ela se transforma em um moralista singularmente intransigente. Parece que o sexo a desgosta. O que aconteceu? Simplesmente isto
a proibio constante foi pouco a pouco interiorizada, tornou-se parte integrante da personalidade, e a desobedincia a esta proibio tornou-se to impossvel quanto um conflito com um inimigo onipotente. S a possibilidade de desobedincia j  fonte de angstia. Ento muitos adolescentes, por assim dizer, passam para o lado do inimigo, alinhando-se junto das posies sexofbicas de seus educadores para evitar uma batalha que lhes parece insustentvel. Assumem uma postura respeitosa e remissiva  autoridade, e adotam o extremismo repressivo. Pobres meninos e meninas. Perdem, voluntariamente, aquela que com todas as probabilidades  a riqueza mais fascinante de sua idade, em funo do terror que lhes foi introduzida na mente. E esta  uma primeira conseqncia da "educao sexual"

A DESSEXUALIZAAO GENITALIZANTE
     Diz-se freqentemente que a Itlia  o pas do mammismo,(2) mas isto  dito como brincadeira, com bondade e sorridente indulgncia. Duvido que se saiba o quanto  grave esta afirmao e, ao meu ver, quase no se nota que o mammismo transpe os limites do nosso pas e se expande rigorosamente sobre todo o terreno da civilizao ocidental. Alm disso parece-me que em geral no se tem conscincia de que o mammismo, bem longe de ser uma manifestao mais ou menos divertida do folclore latino, introduz-se violentamente na personalidade de todos, assumindo a virulncia de um verdadeiro agente patognico. Quero dizer que o mammismo de que se fala comumente no  outra coisa seno uma expresso descolorida e anmica, mesmo que pitoresca, de um mammismo cultural extremamente tenaz e radicado no inconsciente coletivo, revelado em toda a sua potncia apenas pela anlise do profundo. O corte do cordo umbilical e a separao do seio materno so realmente as fases mais crticas e agitadas que o homem tem para superar. Estaria tudo em ordem se o indivduo conseguisse super-la mas, ao que parece, no consegue. Ou ao menos no consegue em nosso clima cultural. Cada um de ns, sobre a imagem da me, constri um seu objeto de amor, uma espcie de substituto de sabor materno, como a riqueza fecunda, a Lei previdente, os costumes, a tradio, a nao, a civilizao, etc. Alguma coisa que nos nutra e nos faa viver, de maneira a no cortarmos o cordo que nos d sangue e de no perdermos o seio que nos d o leite. Cabe ao pai, como j vimos, assegurar-nos tranqilidade, ordem e proteo, mas  a me que nos d a vida. Ns no podemos aceitar a separao da me. Para ns a separao da me equivale  morte.
     A incapacidade de libertar-se da me  coerente com o nosso costume educativo, o qual se funda largamente sobre a magnificncia da figura materna como doadora de vida, e nos apresenta a mulher no tanto como sujeito que doa e recebe prazer quanto como objeto reprodutor. A mulher, como j revelamos, no  para os nossos costumes sujeito ertico - ou no deveria s-lo - mas antes  um objeto que tem por fim o matrimnio e a procriao. No conseguimos nos separar desta imagem materna. Aceitar a separao da me  aceitar a separao da vida, e isto  a aceitao da morte. Coisa totalmente estranha aos nossos procedimentos. Ningum aceita a morte, o que significa que ningum aceita a realidade. A postura habitual  a da recusa da morte ou, para ser mais preciso, da negao da morte e portanto da realidade.
     Mas a negao, como observava Freud,  um fenmeno que contm a afirmao daquilo que formalmente se nega: "Deriva da uma espcie de aceitao intelectual do que  reprimido, se bem que a represso continue em todos os seus elementos essenciais". Em outras palavras, ns admitimos a nvel intelectual a existncia de uma realidade que compreenda entre outras coisas tambm a morte, mas concretamente procuramos de todas as maneiras conter esta realidade e afast-la de ns.
     Ora,  claro que o vnculo obstinado com a me, ou com aquilo que a representa, subentende uma no atitude para enfrentar uma existncia sexual erradicada do condicionamento materno: assim como se recusa o abandono da me e portanto da realidade que contm tambm a morte, da mesma forma recusa-se a vida que contm a realidade do sexo. Aceita-se intelectualmente a sexualidade, mas na prtica ela  reprimida. Em substncia nega-se, ou tende-se a negar, a condico vida-morte-sexo e procura-se construir uma, condio oposta. "O resultado final - observa Norma Brown -  a substituio da realidade de vida e morte por uma vida dessexualizada e anestesiada".
     Aqui chegamos ao ponto crucial do argumento que estamos tratando. A negao da sexualidade, ligada como se viu  negao da morte, conduz em direo a uma disciplina particular que, afirmando a sexualidade no plano intelectual, nega-a na realidade operativa. Esta disciplina  a organizao sexual, o que significa o enquadramento da sexualidade na esfera genital. A sexualizao traduz-se em genitalizao. Retorna-se dessa maneira ao conceito de mulher-matriz: a sexualidade como caminho do prazer  ilcita, enquanto  legtima a sexualidade procriativa, ou seja, orientada para um efeito produtivo. Com isto promove-se a funo generativa do corpo e, contemporaneamente, nega-se o corpo como tal. Afirma-se portanto paradoxalmente a morte do corpo.
     Para tornar credvel uma colocao desse tipo proclamou-se o dogma da separao absoluta entre duas categorias de sexualidade: a infantil e a adulta. A sexualidade infantil, que usa todo o corpo,
 definida como perversa e imatura; a adulta, concentrada nos rgos gentas, seria ao contrrio madura e fisiolgica. Da surge um dos aspectos fundamentais da nossa tica sexual: o prazer preliminar, que  um jogo do qual participa todo o organismo, constitui um prolongamento anmalo da sexualidade infantil e  considerado por isso uma regresso deplorvel, para no dizer indecente, enquanto o prazer final, consistente em um puro orgasmo, rpido, eficiente e genital,  expresso tpica da sexualidade adulta, normal e consentida. A maioria das pessoas respeitveis adapta-se a esta lei, ou pelo menos declara adequar-se. Se a relao sexual, habitualmente apressada, ocorre entre as paredes domsticas ou entre as paredes de um prostbulo, a "tcnica" contnua a mesma. Em poucos minutos o encontro se conclui e o macho "descarrega". Algumas vezes tambm a mulher.
     Mas a mecanizao do sexo custa caro: a "eterna criana" que sobrevive dentro de ns, esta criana que gostaria de perpetuar o jogo para sempre, sente-se enganada e trada, sente-se roubada naquilo que lhe toca,  grosseiramente "frustrada pela tirania da organizao genital". E assim, depois do coito, o ser humano est vazio e desapontado. Post coitum omne animal triste l-se nas Escrituras. No sei se depois do coito ces e cavalos ficam tristes, mas o homem sim.  o preo que ele paga por ter empobrecido a sua sexualidade confinando-a ao reino da genitalidade.
     Uma educao sexual como a que  ministrada hoje, claramente orientada para a represso,  na verdade dessexualizante e genitalizante. E se ela alcana os objetivos a que se prope, como de fato parece acontecer, constitui-se ento e indubitavelmente em um timo instrumento de persuaso para induzir as pessoas a submeterem-se ao matrimnio institucionalizado, fundado exatamente sobre o depauperamento da sexualidade e sobre a exaltao da genitalidade. Portanto poder-se-ia dizer, atendo-nos s consideraes precedentes, que a educao sexual representa a introduo ao matrimnio, o qual constitui-se em canal de atuao da anti-sexualidade e, conseqentemente, em mecanismo eficaz de negao da realidade. Fecha-se ento o cerco: a negao, alimentadora da educao,  reproduzida pelo mecanismo de que se vale a educao para participar dos comportamentos coletivos concretos; a instituio matrimonial. O matrimnio seria assim a institucionalizao da negao da realidade. De uma dupla realidade: a de Si e a do Outro, isto , do ambiente. Ora, a negao de Si parece levar  represso, a negao do ambiente  agresso.
     A esta altura deve-se recordar um outro efeito, a meu ver bastante dramtico, da educao dessexualizante que est plasmando a nossa sociedade. A represso da sexualidade provocaria, segundo muitos autores, uma transferncia da libido do objeto de amor para sobre si mesmo: em outras palavras, o indivduo renunciaria a dirigir o amor para objetos que lhe foram proibidos para investi-lo sobre si mesmo. Acontece ento que no Ego vai-se acumulando uma grande quantidade de energia, que apresenta duas caractersticas:  energia dessexualizada, e  energia disponvel para outros empregos, diferentes da sexualidade. Esta energia saltaria do Ego, obviamente, em direo ao exterior. Mas a dessexualizao que envolve o Ego - vale dizer a extino do componente ertico da personalidade - produziria uma liberao de todos aqueles elementos agressivos que a princpio ligavam-se  sexualidade e dependiam do seu controle. Assim, a energia projetada pelo Ego sobre o ambiente externo estaria carregada de tais elementos e tornar-se-ia energia destrutiva. O homem, privado de sua sexualidade original, tornar-se-ia um destruidor. E de fato parece que isso acontece. No mundo atual
o homem emprega as prprias energias criando uma quantidade enorme de instrumentos inanimados, destinados principalmente a fins destrutivos, e os usa contra seus semelhantes. E isto, segundo as evidncias, resulta da corrida em direo ao que se definiu como "primado do intelecto e atrofia da sexualidade". Este  o resultado daqueles princpios pseudomorais que, como dizia Keynes, nos induziram a exaltar "algumas das qualidades humanas mais desagradveis em lugar das mais altas virtudes".

O SEXO COMO MERCADORIA
      Como vimos, a autoridade repressiva vale-se da instituio matrimonial tanto para esterilizar a sexualidade como para absorver suas energias no trabalho. O matrimnio, socialmente aprovado, impe um emprego puramente genital do sexo, ao mesmo tempo em que cria o problema econmico da prpria sobrevivncia, e portanto impe o trabalho. Entretanto  preciso levar em conta a possibilidade de que algum rejeite a via normal da relao conjugal codificada, e exercite por conta prpria uma sexualidade diferente daquela programada e prevista pelo sistema, o que efetivamente verifica-se com uma certa freqncia. E pode acontecer tambm que os nveis de produo industrial superem os limites desejados pelos dominantes, e portanto que a quantidade de trabalho conferida a cada indivduo diminua bastante. Destas duas possibilidades bastante provveis, derivam dois fenmenos manifestamente ameaadores para o sistema. O primeiro fenmeno  o de uma sexualidade desenfreada, declarada e provocatria, cujo significado geralmente  o de uma decidida contestao. O exemplo mais evidente foi dado pelos j clebres festivais jovens, mas pode-se dizer que um certa propenso a comportamentos sexuais anmalos, relativamente ao costume vigente, seja aprecivel tambm entre intelectuais e at na burguesia. O segundo fenmeno  o surgimento de posturais crticas com relao ao poder repressivo nos diversos setores sociais, da escola s organizaes polticas e s empresas de comunicao, posies crticas que brotam da possibilidade de reflexo consentida pelo tempo livre. Cabe por isso ao aparato autoritrio resolver dois problemas: absorver a contestao sexual e utiliz-la para fins prprios, e cobrir o espao livre do trabalho mediante providncias que permitam um incessante controle sobre o indivduo. Como veremos adiante a soluo dos dois problemas  nica: fazer do sexo uma mercadoria.
     Desde h alguns anos no se faz outra coisa seno falar da nova liberdade sexual, de superao dos tabus, de costumes permissivos, etc. Os moralistas menos cautelosos referem-se a ela com 
indignao e quase com horror, lamentando a "inverso de valores", a decadncia, a corrupo e assim por diante. Os verdadeiros detentores do poder, que nada tm de ingnuos, usam ao contrrio a linguagem da tolerncia, da compreenso, da indulgncia e mesmo da cumplicidade. Nas ctedras dos pseudoprogressistas a servio do sistema disserta-se placidamente sobre a emancipao dos jovens e da mulher e sobre seus novos direitos, inclusive sexuais. Tambm a nvel do cidado comum se oferece, atravs dos meios de comunicao de massa, uma imagem sempre mais desenvolta da sexualidade. As vezes at inescrupulosa. A fraude, porm,  clara: o que se apresenta, paternal e benevolamente, como sexualidade liberalizada no  de fato sexualidade, mas antes mercado de sexo. E o sistema o encoraja porque ganha com isso, e lautamente.
     Para perceber esta realidade basta um simples exame das principais caractersticas do mercado em questo. Todos sabemos que o sexo  vendido e comprado de mil formas e por todas as camadas da populao. A prostituio de rua e de luxo, os filmes picantes, os cartazes por toda parte, os quadrinhos pornogrficos, as fotonovelas, as revistas "especializadas" esto em todo lugar e constituem em seu conjunto um material disponvel a toda exigncia e a qualquer bolso. O executivo rico pode dispor das refinadas prostitutas de luxo, o operrio pode dirigir-se s mulheres da "zona", todos podem adquirir as chamadas publicaes pornogrficas no jornaleiro da esquina. Mesmo os analfabetos. Mesmos os meninotes. O comrcio e organizado com perfeio e est ao alcance de todos. Esta colossal indstria do divertimento nunca abandona o cidado. Praticamente no h possibilidade de se permanecer sozinho consigo mesmo, e por isso no se pode refletir nem tomar conscincia da represso a que se  submetido. Por mais abundante que seja o tempo livre que o trabalho conceda, sempre o sexo coisificado est apto a preench-lo com suas inumerveis sedues. Assim o espao de que o indivduo poderia dispor para uma meditada rebelio  mantido entre limites extremamente exguos e nunca realmente perigosos para o sistema. Esta  portanto a primeira caracterstica do mercado do sexo: a sua enorme e tentacular difuso, diria mesmo a sua inevitabilidade.
     A segunda caracterstica  a de ser satisfatrio para os consumidores.  o caso de desconfiar, mas parece realmente verdadeiro que a maioria das pessoas contenta-se com um filme sexy, ou com um espetculo de strip-tease, ou com o contato rstico com a prostituta, ou com o "sexo postal" de uma revista, como substitutos de um autntico exerccio da sexualidade e como compensao a um trabalho alienado que a oprime. O sexo coisificado e uma miragem que promete uma liberao provisria, e naturalmente ilusria, do jogo cotidiano da atividade desejada pelo poder. Seria bom sublinhar, neste tocante, que tambm a instituio matrimonial, quando funda mais sobre a norma jurdica que sobre a energia afetiva, pode se considerada como uma transao mercantil e portanto como uma das faces do polidrico mercado sexual. O marido adquire direitos sobre a mulher pagando-lhe com a manuteno e a respeitabilidade e a mulher adquire direitos sobre o marido pagando-o com trabalho domstico e com a procriao. Ambos os contraentes precisam saldar o "dbito conjugal". Dependendo da escolha, o. tempo livre do homem pode ser ocupado pela relao conjugal que lhe  devida por contrato ou com o sexo extraconjugal que pode comprar, e o da mulher pelo mesmo contrato conjugal ou por uma "infidelidade" que pode trocar vantajosamente por bens de vrios gneros. Em qualquer um dos casos o esquema  sempre, o mesmo: aceita-se resignadamente a tirania diurna de um trabalho geralmente insatisfatrio em vista da gratificao genital que, de um modo ou de outro, pode-se adquirir  noite. O terrvel Eros que livre das implicaes mercantis destruiria desde as bases o aparato autoritrio - transformou-se em uma banal e eventul remunerao, integrada artisticamente nos mecanismos do sistema. E, pelo que parece, para grande satisfao de todos.
     Resta enfim o aspecto mais bvio do mercado sexual, o lucro. No foi por acaso que nos referimos acima  indstria do divertimento: o sexo industrializado  uma tima fonte de lucro. No se qual  o rendimento das casas noturnas, da explorao da prosttuio, das editoras chamadas pornogrficas, dos sex-shops, etc certamente seu valor deve ser considervel. E certamente a sexualidade - que em um clima cultural diferente do nosso seria fonte inesgotvel de alegria, amor e prazer - na realidade atual  fonte inesgotvel de vantagens monetrias. O que  timo para o sistema dominante. A sexualidade humana  perigosa desde que permanea humana, mas torna-se incua e utilssima quando se coisifica e se comercializa. Neste caso, como se disse, perde toda a vitalidade transformadora e converte-se em um tipo qualquer de engrenagem econmica, mas continua dando ao indivduo a iluso da satisfao.
     Pode parecer que a coisificao do sexo constitua um fenmeno contrastante com a educao sexual, e tambm com a falsa educao de que estamos nos ocupando; mas, ao contrrio, no s este contraste no existe como o mercado sexual  um dos costumes mais diretamente ligados aos procedimentos educativos vigentes. O educador tende, como  notrio, a reprimir a sexualidade e contribuir assim para a criao dos substitutivos da sexualidade reprimida: pornografia, prostituio, etc. Ele no ignora o fato, e conseqentemente assume uma dupla postura: por um lado no deixa de exprimir verdadeiro repdio e a mais severa condenao pelo mercado do sexo, mas por outro lado reconhece-lhe a irreparabilidade e confessa a prpria e resignada impotncia. A resignao frente ao comrcio do "amor" est entre os elementos educativos primrios oferecidos ao ser humano. O que  lgico, dado que o nico modo de eliminar tal comrcio  a renncia  represso. O que, para o repressor,  evidentemente impensvel. Assim, e preciso resignar-se.
     Entretanto no est tudo aqui: a educao tradicional ainda vai alm. Pode parecer estranho que os moralizadores manifestem a mais obstinada intransigncia com relao a um setor do mercado sexual, o da pornografia, enquanto calam-se frente a outro setor, o da prostituio. Mas no  estranho. A pornografia, de fato,  fonte de excitao sexual; a prostituio, pelo contrrio,  um instrumento de distenso sexual. A primeira deve ser portanto combatida,` a segunda favorecida. A resignao de que se falava  ostentada dentro dos limites de ambos os fenmenos, mas na prtica trata-se de uma resignao furiosamente escandalizada frente  pornografia e de uma resignao passivamente opaca frente  prostituio. O objetivo do moralismo sexofbico  o da deserotizao do indivduo, o que certamente no se pode conseguir atravs de solicitaes pornogrficas, mas que se pode facilmente alcanar com o trabalho das meretrizes. Conseqentemente, depois dos conselhos pragmticos, declara-se rapidamente que nada se pode fazer contra a prostituio, que ela  a profisso mais velha do mundo, etc. E ainda se vai mais longe: sustenta-se que a prostituio  a salvao do matrimnio, ou pelo menos um dos seus sustentculos. E se isso no  dito explicitamente, deixa-se subentendido.
     Parece-me que a educao sexual contribui de trs modos para a coisificao do sexo: primeiro, como vimos, com uma resignao suspeita; segundo, justificando-lhe a existncia, especialmente a nvel da prostituio; terceiro, mascarando-lhe a verdadeira face at sua institucionalizao. Isto , fazendo passar por coisa normal, incensurvel e at louvvel o que na verdade  desumanizante e humilhante, cobrindo com o manto da legalidade um mercado em si degradante, colocando a etiqueta do matrimnio sobre uma contratao muito distante da esfera afetiva e muito prxima da econmica. No pretendo com isso dizer, bem entendido, que o matrimnio seja sempre uma forma de prostituio. Pretendo dizer que pode s-lo, e que geralmente . E mesmo que o seja do modo mais descarado, ainda assim  corajosamente defendido pelos educadores sexuais.
     No se pode educar para a represso sexual sem se dar vida a um mercado, mais ou menos clandestino, que compense a sexualidade. E no se pode fazer vista grossa  coisificao do sexo sem encoraj-la. Isto me parece fora de discusso. Mas infelizmente no se pode dizer que os nossos educadores pretendam modfcar sua estratgia, nem to pouco renunciar  sua obra de persuao em larga escala.

NOTAS
1. In Sexpol, cit.
2. A palavra vem de "mamma" (me, mame, mama), e refere-se  tendncia de certos homens em exagerar, mesmo na idade adulta, a necessidade de proteo materna.

8.
REPRESSO SEXUAL E
PATOLOGIA SEXUAL

     Que entre a sexualidade e a chamada civilizao existem laos muito profundos e muito condicionados  urna realidade dificilmente contestvel. Diria at que h um acordo unnime sobre este ponto. Entre outras coisas  importante lembrar que exatamente sobre tais laos foram dedicados dois dos mais importantes ensaios publicados nos ltimos anos: Eros e Civilizao de Herbert Marcuse (1) e Genitalidade e Cultura de Franco Fornari (2). A minha hiptese, que combina com as teses sustentadas tanto pela escola de Frankfurt quanto pela etolgica,  que a represso da sexualidade constitui um fator patognico para a comunidade humana.  "sndrome anti-sexual" corresponde, a meu ver, uma autntica doena coletiva, a qual  sempre maior e mais ntida quanto maior  a intensidade da presso anti-sexual.
     Antes de explorar este argumento, parece-me necessrio delimitar com a mxima preciso possvel os significados pretendidos para as palavras "sexualidade" e "civilizao". Percorrendo a literatura no se pode deixar de ficar perplexo frente  confuso terminolgica existente. Com certeza as definies so freqentemente arbitrrias e sempre embaraantes. Todavia a simbolizao verbal, especialmente em um campo to delicado, requer um mnimo de exatido e uma concordncia preliminar no uso de determinadas expresses. Como observa justamente Fornari, mesmo que no mbito de um discurso com o qual no concordo, "( ... ) sem o pressuposto da mxima arbitrariedade, para a qual uma palavra pode significar qualquer coisa, nenhuma linguagem poderia jamais nascer. Mas isto equivale tambm a dizer que com uma nica operao - de identificao de uma palavra com qualquer coisa - nenhuma linguagem poderia jamais existir, depois de nascer". Nos trabalhos que tratam do argumento que nos interessa, ao contrrio, encontra-se com muita freqncia uma notvel confuso entre sexualidade e genitalidade de um lado, e entre civilizao, cultura, sociedade e
sistema do outro. Proponho portanto o detalhamento que segue, mesmo reconhecendo-lhe os limites e o carter aproximativo, com o objetivo de tentar uma exposio menos equivocada das hipteses de que falei.
     Com a palavra "sexualidade" tenciono aludir  procura do prazer em uma relao de amor. Sobre uma base desse tipo, por exemplo, acredito que se possa falar mais agilmente da sexualida infantil. O recm-nascido, que procura o prazer da suco em uma relao de amor com o seio materno, estaria exercitando uma forma peculiar de sexualidade, que foi chamada "oral"  medida que polarizada na boca. O menino que se masturba cumpriria tambm ele uma operao sexual,  medida que a sua atividade est sem dirigida  procura do prazer em uma relao de amor com um objeto presentificado alucinatoriamente. E tambm o adulto que olha uma pessoa atraente desenvolveria uma atividade sexual porque obtm um prazer, o do olhar, em uma relao de amor - mesmo que fugaz e evanescente - com essa pessoa. Entendida neste sentido a sexualidade seria portanto uma qualidade tpica e exclusiva do ser humano, porque s o homem  capaz de amor. A sexualidade no estaria necessariamente vinculada ao emprego de um rgo ou aparelho particular: o beijo, a carcia, o olhar, alguma percepo visual, ou olfativa, ou ttil, ou acstica, e at o puro pensamento o sonho e o desejo, estariam todos na rea da sexualidade enquanto  veculos de prazer inserveis na vivncia de uma relao amoro E naturalmente a sexualidade seria totalmente independente da procriao, podendo exprimir-se de modos absolutamente estranhos  esfera genital. Em resumo, seria uma qualidade "global" do homem.
     Por "genitalidade" entendo, ao invs, uma atividade precisamente genital. Portanto uma operao fsica estreitamente ligada ao uso dos rgos reprodutivos, em si finalizada na procriao no necessariamente inserida em uma relao afetiva. Quero dize que a unio de dois animais, ou a de um ser humano com outro ser humano pelo qual nutre desprezo, ou indiferena, ou talvez dio,  sem dvida um ato que pertence  genitalidade, mas representa apenas um aspecto limitado e mutilado da sexualidade. Em suma, usarei a palavra sexualidade para indicar uma propenso humana que envolve a pessoa inteira, enquanto que com a palavra genitalidade farei referncia quela expresso concreta e fsica da sexualidade que se funda no emprego dos rgos genitais.  claro que de regra, no que toca ao homem, a genitalidade no  substancialmente separvel da sexualidade, mas parece-me bastante claro que a sexualidade no se exaure na genitalidade. Devo repetir que no pretendo oferecer definies indiscutveis, mas tenciono apenas precisar em que sentido usei e usarei as duas palavras em questo, com o objetivo de evitar, na medida do possvel, uma interpretao confusa do discurso que seguir.
     Outro termo que me parece ambguo , como dizamos antes, o termo "civilizao", ou "cultura", ou "sociedade", ou semelhante. A palavra cultura, por exemplo, assume significados bem diferentes segundo o uso antropolgico, ou literrio, ou histrico, ou religioso, ou psicolgico, etc. O mesmo vale para as palavras civilizao e sociedade. Por isso considero indispensvel esclarecer que falando de sociedade, ou civilizao, farei referncia  organizao social, econmica e poltica na qual a comunidade a que pertencemos cresceu e atualmente vive. Em suma, quela organizao que, na linguagem poltica corrente, se d o nome de "sistema". Procurarei ento esclarecer, vez por outra, o sentido do vocbulo que ser empregado, se e quando surgir a possibilidade de um equvoco.
     Dito isto, retornemos  hiptese projetada mais acima: que a represso da sexualidade se traduza em uma doena da coletividade humana. Tentarei examinar esta doena seguindo o esquema que me parece mais lgico e funcional, isto , o clnico-mdico. Por isso levaremos em considerao a etiologia da doena, ou seja, as suas causas; em seguida a patognese, o modo pelo qual a doena se desenvolve; depois os seus sintomas, o seu diagnstico, o prognstico e a terapia.

9.
ETIOLOGIA: A ADAPTAAO
     Examinamos j a hiptese de que o homem tem medo da prpria felicidade. Tanto medo que no consegue nem ao menos examin-la. Com efeito a atual condio humana  uma condio de conflito permanente entre prazer e desprazer, e parece que ningum ousa pensar em super-la, mesmo que nos limites concedidos pela nossa realidade existencial objetiva. A filosofia dominante parece ser a da adaptao. Ora, a meu ver, esta adaptao  a causa primria da doena que aflige a nossa civilizao.
     0A nossa vida atual  construda sobre um dualismo insanvel: de um lado o trabalho, a economia, o controle social, etc.; de outro lado o amor, o jogo, o repouso e assim por diante. Talvez o mais recente intrprete desta realidade bifrontal seja Franco Fornari, que dela tratou largamente em seu livro Genitalidade e Cultura, j citado. O autor, que j foi definido como o maior terico moderno da psicanlise, afirma desde as primeiras pginas que o verdadeiro conflito no est entre sexualidade e civilizao, entre amor-jogo e trabalho-economia, mas entre genitalidade e pr-genitalidade. Segundo Fornari, a genitalidade seria a expresso da sexualidade madura - isto , adulta - associvel portanto ao estado de ateno e conscincia, enquanto a pr-genitalidade - imatura e tipicamente infantil - equivaleria a uma situao onrica, alucinatria e enganosa. Como o sonho. A pr-genitalidade estaria ligada ao princpio do prazer, assim como a genitalidade estaria ligada ao princpio da realidade, e portanto o princpio do prazer levaria o indivduo a um estado de alucinao, de irrealidade, de fantasia, de iluso. Ainda como no sonho. A esta altura o discurso se torna dramtico. Se a pr-genitalidade - quer dizer, a sexualidade global que usa o corpo inteiro, no concentrada nos rgos genitais e no procriativa, o erotismo, em suma - se este tipo de sexualidade est vinculado ao princpio do prazer, e se o princpio do prazer conduz ao no-real e ao alucinatrio e por isso a uma interpretao sacra e mgica da realidade, ento quem exercita uma sexualidade pr-genital e assim funda a prpria vida sobre o princpio do praser viveria em uma dimenso sacra e mgica do universo circundante incluindo a fora praticamente onipresente do poder patrnal. E um poder que seja sacro e mgico est fora do espao onde o homem, pode criticar e contestar. Esse poder  portanto imbatvel. A lgica da dominao seria regida ento pelo domnio do prazer. Em sntse tem-se a impresso que o autor estabelece as seguintes equivalncias:  sexualidade global no procriativa = pr-genitalizade = prevalecimento do princpio do prazer = condio de alucinao = interpretao mgica da realidade = submisso ao poder enquanto mgico = escravido.
     A elegante argumentao de Fornari na verdade  um pouca dbia. Certamente a inteno do autor no  incrementar os conflitos que atormentam o homem, nem sugerir uma aceitao servil da sexualidade produtiva, genitalizada e mutilada que o moralismo corrente gostaria de nos impor, nem criar confuso na mente  daqueles que aspiram a uma autntica liberao da sexualida Todavia, mesmo que no mbito da linguagem tcnica-psicanaltica seu raciocnio parea notavelmente rigoroso, no consegue eliminar a sensao de que o ponto de chegada desse ensaio  exatamente a proposta de uma adaptao  situao atual, onde o homem por um lado  dilacerado pela insuprimvel tendncia  liberdade do prazer e do amor, e por outro lado pela subordinao ao trababo  alienado. Depreende-se ento que o homem pode fazer uma nica coisa para tentar por fim  sua condio de no-felicidade: concordar com a realdiade assim como ela . Mas este consenso, que afinal j existe, parece que pouco serve. O homem parece trabalhar incansavelmente para um "progresso" que no lhe d nenhuma alegria e que no resolve nada. Para poder discutir a questo acredito ser necessrio tentar compreender melhor qual  a interpretao, dada s duas instncias conflitantes entre si: prazer e realidade.

A LIBERDADE SEXUAL
     
     O primeiro termo do dualismo de que estamos tratando poderia ser definido como "liberdade sexual". Aqui se coloca naturalmente a questo dos limites nos quais se enquadra o conceito de liberdade. A resposta mais simples, e a predileta dos integralistas e conservadores em geral,  que tais limites so tantos e de naturezas to diferentes que acaba-se concluindo que a liberdade no existe. Mas o discurso poderia ser um pouco mais complexo. Por exemplo, se a proposta partisse do princpio de que a liberdade consiste na faculdade de satisfazer os prprios desejos - obviamente no respeito  faculdade anloga do Outro - estaria abrindo um campo de comparaes realmente bastante fecundo. Admitindo que o desejo seja uma elaborao mental de uma energia coligada por sua vez a uma necessidade, poderia se deduzir da que o prprio desejo  peculiar e exclusivo do homem, e que todo homem organiza sua hierarquia de desejos, que por sua vez condiciona a exigncia de um certo tipo de liberdade. O homem ento seria livre proporcionalmente  sua faculdade de satisfazer seus desejos mais importantes: quem pode satisfazer os seus desejos fundamentais  mais livre do que quem pode satisfazer apenas os seus desejos secundrios e marginais. Neste sentido, e exprimindo-se em aes diferentes segundo cada indivduo, a liberdade seria alguma coisa bem concreta e at mensurvel. Ora, se  verdade que o desejo sexual  o mais potente, ou mesmo que ele  o desejo por antonomsia, pode-se concluir da que a liberdade sexual  de fundamental importncia para qualquer homem, e que o direito a tal liberdade no pode ser legitimamente contestado.
     No entanto,  preciso esclarecer o sentido da palavra "desejo", uma palavra que tem tolerado da parte de alguns uma espcie de desqualificao. Foi dito por exemplo que o desejo, diferentemente da necessidade, no se refere tanto ao objeto real de amor quanto  sua lembrana: a pessoa que deseja tende a apropriar-se, atravs da imaginao, de alguma coisa que realmente no existe, colocando-se assim em uma posio de onipotncia totalmente ilusria. O desejo, ligado  lembrana, cria a coisa desejada e se realiza fora da realidade, portanto de forma alucinatria. Por isso o desejo pode ser satisfeito mesmo que o objeto de amor no esteja realmente presente, numa espcie de apropriao que pode se dar em qualquer caso. Como este tipo de apropriao "absoluta" est ligado a uma postura sdico-destrutiva, o desejo no pode pertencer seno  rea da destruio e da morte.
     Se as coisas esto colocadas nestes termos  ntido que a liberdade, entendida como a faculdade de satisfazer os prprios desejos,  apenas liberdade para a morte. O que faz quem procura satisfazer um desejo? Evidentemente evoca uma sombra, apossa-se dela e com ela se sacia. Procura o caminho mais curto para alcanar o prazer: o caminho da alucinao. Isto corresponderia exatamente, segundo Fornari,  condio exigida pelo princpio do prazer, que  condio predatria e destrutiva, alm de ilusria. E as razes de tudo isto estariam naturalmente no terreno da pr-genitalidade que seria, como se disse, a matriz do irreal, do fantstico, do imaginrio.
     No nego que sobre o plano da especulao terica o discurso apresente certa estabilidade, mas a sua transcrio pura e simples na realidade operativa, deixa-me bastante perplexo.  verdade que
o desejo funda-se sobre a lembrana,  medida em que no se pode desejar alguma coisa de que no se conhece a existncia;  verdade tambm que no desejo tende-se a antecipar imaginariamente a satisfao e portanto o prazer. Mas isto no exclui, acredito, que  ao desejo possa seguir a satisfao real, derivada da real presena do objeto de amor. Antes parece-me que as duas coisas so inseparveis. Imagina-se para depois realizar, e pode-se realizar apenas  aquilo que, primeiro, se imaginou. S a necessidade elementar, de  tipo animalesco, pode ser satisfeita sem o trmite do desejo, isto , sem lembrana, sem imaginao, sem antecipao, sem fantasias.  O homem, penso, no pode concretamente excluir a prpria mente da procura da satisfao.
      Retornarei conclusivamente  proposta anterior: livre  aquele que pode satisfazer os prprios desejos, a comear pelos sexuais.   claro que cada um pode, se quiser, renunciar  satisfao de um certo desejo porque privilegiou um outro desejo. O problema  seu, e s seu. Mas ao mesmo tempo est claro que ningum pode impedir quem quer que seja da tendncia  realizao dos prprios  desejos. Nem ao menos com a arma da persuaso. Aquela imensa persuaso que acertadamente foi chamada oculta.

A REPRESSO "NECESSRIA"
     Se o ser humano tem o direito de gozar da liberdade - e portanto tambm da liberdade sexual - ele tem o direito de defend-la. Mas no pode defend-la se no se vale daquela arma especialmente humana que  a crtica.  de tudo lgico portanto que exatamente contra a capacidade crtica do indivduo a sociedade sirva-se do instrumento mais poderoso de que dispe: o condicionamento. O condicionamento social  fortssimo, inexaurvel, constante, onipresente. Mas a liberdade, como diz Valsecchi, transcende qualquer condicionamento: "Posto que  um ato prprio da pessoa, pode acontecer em qualquer situao". Deveria, de fato. Mas  preciso verificar se  possvel. A realidade que no nosso sistema social contesta a liberdade  uma realidade implacvel e, repito, potentssima; e  tambm uma realidade repressiva. No  muito simples opor-se a ela, tanto mais que ela procura apresentar-se como inevitvel e at benfica.
     Como vimos, e como ainda veremos, existe na mentalidade mais comum um relevante movimento de consenso em direo  hiptese da inelutabilidade e utilidade da represso, o que necessariamente levanta a suspeita de que o condicionamento j tenha sido atuado com sucesso, e de que o homem tenha abandonado em muitos casos o seu principal meio de defesa: a postura crtica. A realidade, qualquer que seja, no  colocada em discusso.  considerada fatal. Qualquer projeto de mudana  tido como pueril, utpico e insensato. O confronto crtico com a realidade, como premissa para uma operao de mudana,  julgada tola pelos benvolos, criminosa pelos extremistas.  aqui que certas posies tomadas pela cincia oficial assumem um sabor ambguo e levam a situaes confusas, das quais  muito fcil escorregar em direo  resignao.
     Fornari, que curiosamente identifica a cultura com o sistema repressivo, atribui a essa mesma cultura a funo de liberar a criana da pr-genitalidade, aderente ao princpio do prazer, para conduzi-Ia  genitalidade, ligada ao princpio da realidade. A adolescncia  vista pelo autor como uma luta de liberao do princpio do prazer. A colocao do problema  interessante, mas corre o risco de ofuscar o clima da contestao e de desfigurar as linhas programticas. Especialmente porque o autor manifesta a opinio de que a represso deriva da fantasia persecutria infantil, portanto endgena (proveniente do prprio indivduo) e no exgena (proveniente da organizao social) e sendo assim  substancialmente inevitvel. A sociedade, tambm chamada cultura por Fornari, no faria outra coisa seno institucionalizar o mecanismo psicolgico infantil que,  exatamente a elaborao da represso. Esta, em outras palavras, estaria dentro de ns, e o poder hegemnico se limitaria a estrutura-la a nvel executivo. Em sntese, a represso faria parte da natureza humana e constituiria um impulso indispensvel para a evoluo do indivduo, liberando-o da mortfera pr-genitalidade.  evidente que por este caminho se pode chegar a um esvaziamento da luta pela liberdade sexual e a uma aceitao, concretamente acrtica, da sexualidade genitalizada, procriativa e produtiva que o aparato econmico exige. Parece que j se chegou a um discurso desse tipo: tem-se como certo que a sxeualidade normal  a reprimida, enquanto que a sexualidade livre seria perversa e condenvel.
     O desastre  que estas concluses, conduzidas por um raciocnio clnico-cientfico, servem esplendidamente para consolidar as concluses s quais os repressores por profisso - dos coronis aos defensores dos bons costumes - chegam por conta prpria. s quais, alis, sempre chegaram. Os fascistas e os generais que estavam desiludidos com o andamento da guerra nos anos quarenta falavam de desordem, de anarquia, de decadncia dos costumes, de lassido moral de tica hedonstica, de egosmo e, naturalmente, da necessidade de uma salutar represso. Exatamente os mesmos pontos tocados pela "Declarao" vaticana, publicada pela Sacra Congregao para a Doutrina da F em dezembro de 1975, e pelos censores trentinos das publicaes de educao sexual, em outubro de 1976. Os profissionais da sexofobia chegaram ao corao do problema muito antes dos psicanalistas, e mantm solidamente suas posies. Ainda mais solidamente hoje, tendo encontrado uma inesperada aliana  na cincia oficial. Assim seu discurso est mais decidido do que nunca: a represso  desejada, a represso faz parte da civilizao humana, sem represso .vai-se de encontro  runa das naes e a catstrofe da cultura. A sexualidade no reprimida  inadmissvel em todos os nveis,  monstruosa,  desumana, est fora da ordem das coisas. Opor-se  represso significa no apenas negar a realidade e perseguir uma meta ilusria, mas tambm ofender e ferir uma realidade ordenada e empurrar a sociedade para o caos.
     Seria o caso de perguntar se esta "ordem" imposta com vrias justificativas  sexualidade corresponde realmente a uma exigncia precisa do ser humano. Segundo van Ussel haveria uma reduo
da liberdade sexual - ou seja, uma represso - quando se impe a um indivduo ou a uma coletividade a limitao das escolhas possveis entre vrias atividades realizveis, e quando sob a presso da moral ou da sociedade as posturas e as modalidades comportamentais so direcionadas a um nmero reduzido de atividades estereotipadas. Isto, de fato,  o que acontece no mundo atual, queiramos ou no chamar represso: os comportamento sexuais tolerados so poucos e estereotipados, conseqentemente as escolhas permitidas ao indivduo neste campo tornam-se limitadas. No sei em que medida pode ser considerada "natural" a obrigao de agir de maneira montona e repetitiva, e no sei em que medida  possvel acreditar que a natureza humana impea a si mesma de exprimir-se de modo mais amplo. Diria at que a verdade  o contrrio, ou seja, que o homem tende a utilizar globalmente a prpria pessoa alm dos esquemas sugeridos, ou desejados, por um certo tipo de organizao social. Chegar-se-ia assim  concluso que chegou Norman Brown: "A essncia da represso consiste na recusa por parte do ser humano em reconhecer a realidade da prpria natureza humana".

POSTURA E NEUROSE
     Neste ponto o discurso pode parecer confuso dado o equvoco habitual:  realidade corresponde o princpio da realidade, enquanto o princpio do prazer corresponde ao apagar dos desejos. Mas se  prprio da natureza humana satisfazer os desejos expressivos, e sexuais em particular, o mais livremente possvel, ento o princpio do prazer corresponde  realidade do homem, enquanto o princpio da realidade estaria ligado a uma "falsa realidade", isto ,  realidade organizada por um sistema socioeconmico autoritrio.
     Poderamos tambm passar por cima desse jogo de palavras se no existisse quem dele se vale para sustentar a necessidade da adaptao ao sistema, que realmente parece patognico para a comunidade humana. A sexualidade, diz-se, no tem nenhuma necessidade de ser liberada da represso exercida pela sociedade, socidade que ainda uma vez  chamada de cultura pelos seus sustentadores. A cultura de fato promove a autntica maturao da sexualidade, - o que vale dizer a sua genitalizao, em um clima de suave submisso ao princpio da realidade. A sexualidade, diz-se tambm, precisa  ser liberada da sua matriz original, a pr-genitalidade, que est extremamente vinculada ao princpio do prazer e portanto a uma onipotncia ilusria,  recusa de uma relao de troca, a uma crise na organizao da pessoa, a um perigo para a sobrevivncia,  morte. O apagar do desejo, que ocorre na rea do princpio da realidade,  indispensvel para a sobrevivncia da cultura humana. Talvez at mesmo para a sobrevivncia do homem.
     Temo que certos virtuosismos por demais desenvolvidos no emprego das simbolizaes verbais possam levar a uma concluso qualquer, positiva ou negativa, indiferentemente. E temo que para cada concluso, bem como para o seu oposto, se possa encontrar sempre um engenho terminolgico justificativo.  fato que no homem existe uma inegvel propenso a satisfazer os prprios desejos. Ora, se se constrange o indivduo a reprimir continuamente esta sua energia para o prazer em reverncia ao chamado princpio da realidade, arrisca-se alimentar em sua mente um conflito que poderia, tambm tornar-se desde o principio insanvel, e por isso perturbador e mrbido. Um problema psquico que no encontre solues fisiolgicas acabar evidentemente por encontrar uma soluo patolgica. A neurose coletiva, em nosso caso. A constante frustrao a que estamos submetidos, esta constante presso para renunciar ao prazer, no pode nos levar seno  perda da capacidade de amar, Ja que parece improvvel um amor nutrido de desprazer. E a incapacidade de amar  nitidamente a mais perniciosa toxina para as relaes humanas. "Se no queremos adoecer", dizia Freud, "devemos comear a amar; e deveremos adoecer se no pudermos amar por causa da frustrao". Mas aquilo que se pede  exatamente a frustrao,  o apego a uma realidade feita de consternao, de alienao, de renncia, de desespero. Uma adaptao que  apresentada como necessria e inevitvel desde a infncia mediante o emprego da educao sexual.

10.
PATOGNESE: A FUGA DE SI
     A adaptao a uma condio contraditria e frustrante mobiliza no indivduo a angstia. O homem aceita as presses do ambiente que o circunda, mas no consegue contrabalan-lo com os prprios recursos pessoais  medida que - dada a adaptao ao ambiente - renunciou mais ou menos totalmente s suas foras interiores, confiando naquelas que governam o mundo exterior. Os seus desejos esto em conflito aberto com as pretenses do sistema e so desaprovados por este, e ele, tendo perdido a autonomia e a energia necessrias, para aprovar a si mesmo independente do juzo social, deve reconquistar a aprovao do sistema para remover a prpria angstia. Esta  a nica soluo de que dispe. Para ser aprovado pelo sistema o indivduo deve, entretanto, renunciar sempre mais a si mesmo e s prprias exigncias, submetendo-se em medida crescente s exigncias sociais. Deve portanto empobrecer-se e debilitar-se. O sistema, por outro lado, lhe impe um rigoroso antagonismo entre prazer e dever, ou entre sensualidade e razo no dizer de Schiller. No indivduo, como observa Mrcuse, os dois impulsos podem conciliar-se, de forma que a sensualidade seja racional e a razo sensual. Mas na sociedade no: no reino da razo no h espao para a sensualidade. E dessa forma o crculo se fecha: adaptando-se ao sistema o homem permite uma contradio que dentro dele provoca angstia. Para remover a angstia ele deve conseguir a aprovao do sistema, o que acaba conseguindo apenas atravs da consolidao da contradio. 0 homem est numa armadilha. Poderia fugir se conseguisse readquirir a prpria independncia, mas  bem difcil que consiga. A esta altura ele j colocou todos os pontos de referncia, todas as ncoras, todas as defesas, todas as solues, fora de si, no seio da organizao social. Toda a sua vida est polarizada em direo ao exterior e ao estranho. A adaptao ao sistema repressivo lhe impe uma constante fuga de si mesmo, no tempo e no espao. Esta parece ser a nossa situao.

A FUGA NO TEMPO
     Em primeiro lugar o homem no  capaz de viver o presente.  Ele se abandona nas recordaes do passado, ou projeta satisfaes futuras. O seu Eu presente, amargurado e oprimido, provisrio
instvel, lhe incute um verdadeiro horror. Pensa com nostalgia no que foi e divaga sobre o que ser. Cria o culto do tempo Subdivide esta dimenso em minutos, horas, dias, semanas, meses anos, sculos, milnios. E estabelece categorias: o ontem e o amanh o passado prximo e o remoto, o futuro imediato e o futuro longnquo, a histria, a pr-histria, a era e o perodo. Vive em funo doo relgio, do calendrio e da agenda. Abandona atrs de si a juventude e coloca frente a si o espectro da temida velhice. Pensa sobre prazeres que teve, ou que no teve, ou que ainda ter. Nunca sobre os que pode gozar agora. No sabe suportar uma dor seno imaginando um futuro onde essa dor ser vista na perspectiva nebulosa do passado. Mas aceita o desprazer de hoje em troca promessa de um prazer no amanh, sem perceber que esse amanh nunca ser para ele uma realidade, que ser sempre um amanh at o instante em que se tornar ontem.
     O homem est sempre atrs de si ou na frente de si, e no consegue penetrar a espessura do presente que  a sua verdadeira existncia. Com isto ele recusa a sua prpria vida, que no  aquela que viveu, nem a que viver, mas apenas a que est vivendo, que contm em si, como j foi dito sugestivamente, "a soma total da existncia,0 atrs e  frente de ns; toda aquela extenso de tempo que  a eternidade". A vida no  o tempo;  a concentrao daquilo que chamamos tempo nisto que chamamos presente. Mas  a organizao social exige que assumamos o seu ritmo, que  o um tempo sem presente. E ns nos apegamos a esta exigncia saindo de ns mesmos para a exaltao do passado e do porvir, e portanto para a fatal renncia do hoje, que  a rvore que contm o prazer.
     Naturalmente a recordao e o projeto, a memria e a imaginao, so elementos essenciais e inabalveis da mente humana, na sua ausncia no se poderia ter uma satisfao autntica do desejo e nem o prprio desejo, como foi dito no captulo precedente. Mas se o desejo  uma presentificao daquilo que foi ou ser, a sua satisfao requer aquilo que , alm dos traos do passado e da hiptese do futuro. E ns, acostumados  Histria e ao adiamento do prazer, no fazemos a convergncia da recordao e da esperana no presente, mas transferimos a recordao para a esperana, para, o futuro, saltando a fase do presente e transformando a nossa vida em uma marcha de aproximao  morte.
     Mas a morte, que no se contrape ao gozo do prazer presente contrape-se ao invs  hiptese de um gozo futuro garantido pelo smbolo do poder aquisitivo que  o dinheiro, o qual, como vimos anteriormente, nos foi imposto pelo sistema em substituio ao nosso Eu real. Por isso a morte nos d medo. Ela nos tira a esperana de comprar o prazer. A fuga no tempo, portanto,  uma recusa da vida e contemporaneamente da morte. E a recusa da morte nos leva ao culto do tempo, ou seja, de um passado que  uma espcie de vida cristalizada e de um futuro que interpretamos como imortalidade. A imortalidade  o objetivo do homem que viveu combatendo a morte e que portanto no soube viver. A imortalidade, como geralmente  entendida,  a aspirao desesperada de um estado de estabilidade definitiva, inerte e sem tenses, semelhante ao de uma matria inorgnica ainda no modelada pela dinmica da vida. Ela representa ento apenas um aspecto da mumificao da vida que  o passado:  o fantasma de uma vida que no vive. E coincide perfeitamente com aquilo que Freud chamava de "instinto de morte".

A FUGA NO ESPAO
     Assim como o homem foge de si mesmo no tempo, procurando os fundamentos da prpria vida no passado ou no porvir, e recusando o presente, ele foge tambm no espao, ancorando a prpria vida na coletividade de que faz parte e recusando a prpria pessoa. Segundo todas as evidncias o homem no sabe viver no presente e no sabe viver sozinho. O pensamento de estar separado do "bando", para usar um termo freudiano, o aterroriza. Para o homem a solido equivale a no ter mais proteo, a ter que enfrentar com as prprias foras o escuro do desconhecido, a ter que gerir a si mesmo, a ter que ser independente. E a adaptao  sociedade implica obviamente em uma dependncia substancialmente absoluta da sociedade. Estamos prontos a enfrentar um nmero desmesurado de privaes e de renncias, a comear pela renncia ao prazer, mas no suportamos a idia de sermos privados da sociedade, da sua custdia e da sua aprovao.
      preciso esclarecer que a tendncia  unio com o grupo  bem diferente da tendncia  unio com pessoas. A unio com outro indivduo, ou com outros indivduos, envolve inteiramente o ser humano, corpo e mente, e est sempre aberta a uma possvel separao. A unio com o grupo requer apenas uma adeso parcial da pessoa, mas  tenaz e vivida como indissolvel  medida que a precariedade lhe privaria do poder tranqilizador. Para unir-se a uma outra pessoa  preciso saber amar, para unir-se com o grupo no.  suficiente o impulso da insegurana, da desconfiana em si mesmo, do temor. Est implcito pois que para unir-se a uma outra pessoa, e portanto para amar,  necessrio aceitar o corpo, nosso e dos outros, que  a dimenso em que vivemos; mas ns, como vimos, negamos o corpo, de forma que acabamos nos alienando ns mesmos em uma outra dimenso, a do corpo social.  Tanto mais sentimos nossa pertinncia ao corpo social qua menores so nossas caractersticas individuais que poderiam nos diferenciar dos outros. Para fundir-se no agregamento social no se pode ser diferente,  preciso ser estandardizado, fiel a um modelo dado, "normal". Quer dizer, no somos mais aquilo que somos mas aquilo que devemos ser baseado nas exigncias do sistema.

A SOCIEDADE
     A exaltao do passado e de um futuro fiel ao passado, bem como a interpretao da vida como alguma coisa determinada poor foras exteriores ao indivduo - ou seja as duas fugas, no tempo e no espao - so peculiares ao carter masoquista. Esta ao menos  a opinio, que me parece provvel, daqueles que observaram mais  atentamente a condio humana. E como a fuga de Si  um produto da adaptao ao sistema, pode-se racionalmente supor que adaptao tende a introduzir traos masoquistas na personalidade do indivduo.
     O carter masoquista, que depois torna-se sadomasoquista, deseja a obedincia, a submisso, cumprimento das ordens, a dependncia a uma autoridade. Deseja portanto uma lei para observar e para fazer observar. A lei autoritria por sua vez cria um sistema de dependncia para cima e para baixo, e portanto d a todos o modo de comandar e de obedecer, de sofrer por uma opresso e oprimir algum. Favorece ento o sadomasoquismo. E de fato esta 
postura  estranhamente difundida em nosso mundo.  provvel que seja universal. Qualquer pessoa pode valer-se do poder nstitucionalizado para dominar sobre outras pessoas: o adulto sobre as crianas, o macho sobre a fmea, o branco sobre o homem de cor, o dirigente sobre os dependentes, o funcionrio pblico sobre os cidados, o mdico sobre os doentes, etc. E ao mesmo tempo qualquer pessoa pode encontrar um poder ao qual se submeter, inclusive os chefes supremos da nao, escravos do resultado eleitoral na chamada democracia, de Deus nas estruturas teocrticas, do Destino nos pases totalitrios. Um Chefe no pode fazer o que lhe der na cabea, no pode comprometer a prpria imagem, no pode deixar passar. Ele deve ser o Super-homem, o Invencvel. Precisamente, o homem do Destino.
     O carter sadomasoquista quer a lei, e esta incrementa o sadomasoquismo dos indivduos. Ganha vida assim um mecanismo que liga inevitavelmente o indivduo  lei. Mas esta, enquanto por 
um lado satisfaz a energia sadomasoquista de todos, por outro lado  suscita em todos a angstia da punio: quem no respeita a lei  perseguido. Uma vez que a engrenagem se colocou em movimento no  mais possvel fugir dela. Ou se aceita o perene terror do castigo, ou se submete ao castigo sem reservas. Concretamente entretanto a alternativa no existe, e a nica soluo  a submisso. A lei se apresenta como nico instrumento capaz de salvar a humanidade do caos e da runa, e portanto o rebelde ser perseguido no apenas pela prpria lei, mas tambm por todos aqueles que temem a desordem e a anarquia. Ou seja, pela maioria. Uma perseguio claramente intolervel para qualquer um. Todos devem ento curvar-se ao imprio da lei, que  o meio  transformador da comunidade anrquica e turbulenta em sociedade civil.
     Em sntese, podemos fundamentadamente suspeitar que o caminho da nossa doena coletiva seja o seguinte: a adaptao a uma condio conflitual, na qual o homem  reprimido na satisfao dos seus desejos e ao mesmo tempo constrangido a uma atividade alienante, induz o indivduo a uma fuga de si mesmo e a uma transferncia das suas instncias sobre o terreno da tradio, d recompensa futura e do grupo de proteo; esta retirada do presente e do individual traduz-se em um culto do passado e do poder, culto tpico da pessoa sadomasoquista; o sadomasoquismo leva o homem a solicitar uma lei autoritria capaz de transformar o grupo em uma sociedade organizada verticalmente; este gnero de sociedade, ao qual pertencemos, pode reger-se apenas se consegue impor aos seus membros a represso da sexualidade e ao mesmo tempo um trabalho direcionado  conservao do poder, e portanto alienado; a adaptao a uma condio deste tipo  neurotizante e leva o indivduo a uma fuga de si mesmo, reabrindo assim o ciclo. Segundo	'
esta hiptese estaramos frente a uma doena que se auto-reproduz.  E, de acordo com as formulaes da psicanlise, poderemos dar a esta doena o nome de sociedade.

SINTOMATOLOGIA E DIAGNSTICO: 
A ECONOMIA MONUMENTAL

O MONUMENTO
     As manifestaes mais evidentes do nosso mal-estar coletivo so os monumentos. A sociedade humana, entendida como condio patolgica,  em certos aspectos semelhante a uma doena cutnea: ela disseminou na superfcie do planeta-adoecido - sua epiderme visvel - os sinais da prpria virulncia. Ou seja, os monumentos. A mais importante destas leses monumentais  a cidade. Os aglomerados urbanos se multiplicam e se hipertrofiam sem parar, conjugam-se entre si, proliferam em todos os sentidos, espalham incessantemente  sua volta seus tentculos que tudo destroem. J foi observado que a planta de uma cidade assemelha-se de modo impressionante  dissecao de um tumor maligno.  verdade. E tambm  verdade que a cidade se comporta como um tumor, desenvolvendo-se tumultuadamente e sem controle, alterando o ambiente que a circunda e poluindo-o com as prprias toxinas.
     Mas a cidade no  o nico monumento do que se costuma chamar operosidade humana, e que na realidade no passa de disseminada avidez. Existem, por exemplo, as redes de auto-estradas que sulcam sempre mais densamente, em todos os sentidos, o ambiente extra-urbano; existem os centros industriais; existem as zonas desertificadas pela predao sistemtica das reservas do solo.
     H monumentos de um segundo tipo, que crescem no interior das cidades: os bancos, os centros comerciais, as federaes, os institutos de segurana e previdncia, as empresas fiscais, as sedes governativas e religiosas, os quartis, os crceres, as escolas os tributais, os supermercados, os magazines e assim por diante. Geralmente so edifcios enormes, arranha-cus, palcios imensos, ou mesmo aglomerados de palcios, que tm uma caracterstica comum: organizar e defender a produo e o acmulo de riquezas. O homem, que se consagrou ao culto do trabalho produtivo e negador do prazer, espalha por toda a parte as catedrais da sua tetrarreliges.  A erupo monumental  o sinal inequvoco da sua subservincia a um sistema que impe o cansao e probe o jogo, que afirma o dinheiro e nega a sexualidade, que privilegia o dever e desqualifca o prazer.

A ECONOMIA
     Das manifestaes exteriores da atividade humana vamos  individuao de um elemento que pode ser considerado o diagnstico principal da doena sexorrepressiva e alienante: a economia. 0 que em terminologia corrente se costuma chamar economia  certamente a trama onde se enroscam as fileiras da nossa existncia. 0 engenho econmico constitui de fato a motivao primria tanto para o trabalho coagido como para a represso sexual. Para identificar nos seus vrios aspectos a forma doentia em questo,  preciso analizar o fator econmico e trazer  luz seus mecanismos de ao, sem o que parece-me impossvel reconhecer com clareza e preciso suficiente a imagem da doena - o que equivaleria a no poder formular-lhe um diagnstico.
     Muitos j afirmaram que a economia existe desde quando existe o homem, e que  uma componente inevitvel da vida associativa.  Se isto fosse verdadeiro dever-se-ia tambm reconhecer a inevitabilidade das pretenses econmicas. Por exemplo: do lucro, do trabalho  remunerado, do dinheiro e da sua acumulao, da limitao e do controle das atividades no econmicas e antieconmicas como sexualidade. Mas no foi dito que isso  verdade. Existem elementos que induzem a considerar a economia como uma superestrutura  secundria, mais ou menos lgica.  preciso refletir em primero lugar sobre o fato- de que a economia, atravs do patrimnio hereditrio e do investimento em bens estveis e duradouros, presta-se a satisfazer indiretamente a aspirao do homem  imortalidade. O homem, sempre perseguido pelo medo da morte - a aniquilao definitiva - foi levado a procurar uma sobrevivncia ilusria nas coisas que deixa atrs de si. Como se a recordao lhe assegurar um prolongamento, mesmo que parcial, da sua existncia terrena.  Ele procura portanto substituir a energia vital, que um dia acaba pela energia fornecida pelo saldo bancrio, que permanece, e procura trocar o prprio corpo, mortal, por um monumento imortal. Poder- se-ia ento pensar que se o homem no tivesse medo da morte se dedicaria  poupana, que  uma das caracterstica fundamentas do comportamento econmico.
     Uma segunda considerao que me parece relevante  est: no se pode considerar demonstrada uma concordncia substancial entre os postulados das teorias econmicas . clssicas e os dados antropolgicos. Quero dizer que no h nenhuma segurana de que as comunidades humanas tenham sido sempre organizadas sobre uma base econmica como a nossa. Segundo alguns autores a coisa seria at exclusiva. Com efeito, e j tratamos disso anteriormente, a peculiaridade essencial do dinheiro  que ele no tem nenhum valor intrnseco. Ele  simplesmente um smbolo. Em outros termos, existe o valor que ns lhe damos, e talvez seja imprudente deduzir da que os homens de todas as pocas atriburam-lhe o mesmo valor e a mesma funo que ns atualmente lhe atribumos. Hoje o dinheiro  um formidvel instrumento de poder capaz de alterar o equilbrio internacional, de promover guerras e guerrilhas, de arruinar regies inteiras do mundo. Pode ser que em outros tempos tenha tido caractersticas bem diferentes, do tipo mgico-sagrado por exemplo. A hiptese no  de se rejeitar. Ao contrrio, ela foi sustentada, e ainda o , por diversos estudiosos baseados em consideraes de notvel interesse: a constante relao de valor entre ouro e prata, a simbologia solar ligada ao ouro e a lunar ligada  prata, o emprego dos dois metais em rituais religiosos de muitos povos, so todos indcios de uma certa sacralidade do dinheiro. Uma qualidade em tudo diferente daquela das atuais reservas de ouro dos bancos nacionais, ou dos balanos das multinacionais ou at do simples talo de cheques.
     Mas o mais importante  que o homem no precisa do dinheiro, e portanto da economia, para viver como homem. Para ser mais exato pode se dizer que o homem no teria necessidade do dinheiro se no fosse reprimido em sua sexualidade, se soubesse viver no presente e na sua interioridade, se no tivesse medo da morte, se no fosse perseguido pelo sentimento de culpa e pela angstia. Evidentemente ningum est apto a afirmar que um tal homem possa ou no existir. Acredito porm que a aspirao a este "estado de graa" esteja em cada um de ns.  a criana imortal que permanece em nossa mente e que est tenazmente protegida contra a satisfao do desejo, contra o prazer, contra o presente. Uma criana no sabe o que fazer com uma moeda enquanto meio de aquisio ou instrumento de poder. Ela a usa para jogar. A sua felicidade, que  o jogo nada tem a ver com a dimenso econmica da moeda. A felicidade derivaria, segundo Freud, da satisfao de um desejo ancestral, pr-histrico, que ainda sobrevive na mente infantil. "Eis porque - ele observa - a riqueza d to pouca felicidade: o dinheiro no  um desejo infantil".
     Efetivamente, dentro da perspectiva da conquista da felicidade, o dinheiro no parece muito til. Os bens adquirveis com dinheiro podem dar alguma satisfao, ou ao menos em certa medida. O dinheiro no. Seja segundo Freud ou segundo Marx, o impulso   posse de tipo puramente econmico  um impulso parcial que ns tornamos total,  uma abstrao que transformamos em realidade.  Substitumos todos os outros desejos humanos pelo desejo do dinheiro. Suprimimos a sexualidade e a substitumos pela riqueza. Inventamos a religio da economia e aceitamos o seu domnio sobre ns.
     Foi dito que para o homem, no quadro de uma cincia dos valores de uso, o problema principal  a satisfao atravs de um bem, e no a produo de bens. A satisfao  o jogo, o prazer, 
o amor, a realizao presente, a vida. A produo  o trabalho a capitalizao, a alienao, o adiamento da satisfao, a mortificao. Falamos, bem entendido, da produo de tipo econmico assim como  entendida hoje. Mas a nossa sociedade colocou em primeiro plano a produtividade e transferiu a satisfao para uma distncia remota, protegendo-se pelas "leis da economia". E esta de fato,  economia.
     Essa inverso de valores alcanou tambm a sexualidade, como bem se podia prever. A sexualidade no produtiva, isto , aquela no genitalizada e no fecunda,  condenada como ilcita e degradante. A tendncia  valorizao do objeto sexual em seu conjunto - o que significa a pessoa inteira -  considerada perversa. A sexualidade "boa" deve dar valor s aos rgos genitais. Fornari chega a falar na oportunidade de "fazer justia"  especificidade sexualidade adulta, ou seja,  genitalidade. Ele, fazendo referncia aos camponeses do antigo Egito, sublinha o fato de que a genitalidade procriativa est estreitamente ligada ao princpio da realidade e ao trabalho produtivo. Precisamente. Isto  o que quer a nossa civilizao mercantil. Sexualidade e trabalho devem dar-se as mos e caminhar juntos sobre a mesma estrada: um e outro devem acima  de tudo produzir riqueza. Ao trabalho cabe a produo de dinheiro,  sexualidade cabe a produo de filhos, isto , de fora de trabalho.  A sexualidade deve ento ficar circunscrita ao permetro dos rgos genitais e no sair dele. Inventamos a sexualidade econmica.
     Isto vale no apenas para o espao no qual a sexualidade  exercitada, mas tambm para o tempo de execuo do gesto sexual.  Assim como a relao deve ser genital, e por isso dirigida  procriao, ela deve tambm acontecer de modo rpido e eficiente. No se pode divertir-se muito, sem concluir. A demora, no ato sexual  uma perverso anatmica. O "prazer preliminar"  condenvel porque, no dizer de Fornari, poderia prevaricar sobre o prazer final, genital ou generativo. Assim, o importante  chegar rpido ao efeito  produtivo. Toda a outra sexualidade, desqualificada como pr-genital  antieconmica e por isso intil. E at mesmo perigosa.
     Aqui chegamos  concluso do procedimento diagnstico. A observao crtica dos devastadores monumentos erguidos pela soeiedade    permite uma correta interpretao da doena: a edificao colossal e incontida  nitidamente consagrada ao governo e  programao da riqueza,  sua produo,  troca,  acumulao, bem como  defesa do patrimnio e  manipulao da mente humana segundo as linhas pretendidas pela economia. E atrs da fachada das catedrais do dinheiro est a exaltao do trabalho alienante, a recusa do prazer sexual, o controle social, a explorao mercantil, a represso, o culto do tempo e em particular da tradio e da Histria, a propenso a dissolver-se na coletividade. E, principalmente, a adaptao a tudo isto. Uma adaptao global e sem reservas, que s vezes parece at entusistica.

12.
PROGNSTICO: A AUTODESTRUICAO
     A doena social que estamos examinando parece ser uma doena grave. Mas o prognstico no pode ser seno incerto. No  impossvel realizar uma cura eficaz, como veremos, mas se faltar o tratamento teraputico, ou se for praticado segundo orientaes incorretas, a doena poder se tornar mortal. No  preciso muita fantasia para adivinhar o tipo de concluso a que levar a nossa loucura. A biomassa humana, impulsionada por uma insensata voracidade de poder e por um tipo de puritanismo demogrfico, est caminhando de encontro a um crescimento anormal e acelerado, a despeito de todas as consideraes, os "se" e os "mas" lanados pela Conferncia Mundial de Bucarest sobre a Populao, em 1974, pelos moralistas de todas as vertentes ideolgicas. A indstria abre feridas sempre mais amplas no ambiente original, poluindo e desertificando com um ritmo uniformemente acelerado. O consumo de bens e o seu aproveitamento, transformou-se em um consumismo desenfreado de coisas inteis ou daninhas, enquanto a atividade do homem deu lugar a uma produo frentica de riqueza econmica. As relaes humanas encheram-se de contedos funcionais e esvaziaram-se de contedos afetivos. O que at h alguns anos parecia um futuro fantasioso hoje  a realidade cotidiana. A ltima praia no  mais a imagem de um apocalipse imaginrio, mas  uma perspectiva concreta. Talvez prxima.
     A fetichizao da economia est nos levando a uma impiedosa depredao do mundo em que vivemos. Ou pelo menos assim parece, mesmo que exista quem sustente - baseado em hbeis e sugestivos jogos de palavras - que esta espcie de pirataria est relacionada com a procura do prazer. Talvez esteja-se confundindo o desejo de prazer com a avidez econmica que promove a caa ao chamado bem-estar. Mas o desastre ecolgico  s um aspecto, e talvez nem mesmo o mais dramtico, de uma possvel catstrofe. Acredito que o fenmeno mais temvel seja o de uma irreversvel incapacidade do
homem de amar. Este indivduo j calejado pela caa ao poder, distorcido pela expanso da mentalidade financeira, submetido ao sentimento de culpa, alienado do prprio corpo, constantemente separado do prazer e dedicado a um trabalho frustrado e desconhecido em sua essncia, este indivduo desumanizado, mecanizado, condicionado, programado, competitivo, esterilizado e agrupado, prisioneiro da chamada "poltica do pecado, do cinismo e do desespero", este indivduo empobrecido e cruel, quanto amor e quanto prazer poder dar aos seus semelhantes?  O caso do erotismo - de uma sexualidade alegre e ldica - deixou atrs de si em incontida expanso a triste estepe das energias da morte. As quais, como veremos, expandem-se sempre mais firmes.
     Talvez o homem de hoje no seja mais capaz de amor, mas certamente  capaz de dio. No h um recanto do planeta no qual o rancor, a opresso e o massacre no ardam ferozmente. E amanh provavelmente ser pior, e o pior ainda depois de amanh. "A componente ertica - escrevia Freud em "O Ego e o Id" - no tem mais o poder de unir o conjunto dos elementos destrutivos procedentemente combinados com ela, e estes so liberados sob a forma de inclinaes  agresso e  destruio". No obstante todas as tentativas atuais de repensar em outras bases o sistema freudiano, parece-me que esta permanece como uma das intuies mais lcidas do grande pensador. Os elementos destrutivos espalham-se sempre mais vistosamente,  difcil neg-lo. E dispem de instrumentos sempre mais potentes. No esqueamos que os arsenais modernos esto transbordando de ogivas termonucleares. O que significa que a nossa doena poderia concluir-se com um episdio agudo e fatal.

13.
TERAPIA: A UTOPIA
     Se, como se formulou, a causa da doena coletiva da humanidade  a adaptao a uma condio de represso da sexualidade e de coao a um trabalho alienado, a cura deveria fundar-se na luta contra essa mesma adaptao. Por outro lado  bvio que uma luta deste gnero, dirigida  conquista de um vigoroso posicionamento crtico, de uma eficaz capacidade de contestao e de uma resistncia vlida contra o compromisso, dever pela fora das circunstncias ser radicalizada em uma medida notvel. De nada servir a tentativa de reformar os velhos sistemas: eles permanecero velhos. No adiantar nem ao menos jogar com a astcia e proceder como uma ttica cautelosa: a contradio entre escravido e liberdade no admite solues intermedirias. E tambm de nada adiantar a experincia de substituir de algum modo a livre sexualidade  qual se deve renunciar: a sexualidade, pelo visto, no pode ser alterada em sua natureza nem substituda. A cura  uma questo de princpio. Ou se age sobre a realidade existente - reconhecendo ao homem o direito de realizar-se- naquilo que  - ou se aceita a alterao do homem relativa ao que o sistema quer que ele seja. No primeiro caso  preciso combater a desonestidade dos mecanismos extra-humanos, no segundo caso pode-se apenas e tranqilamente obedecer estes mesmos mecanismos. Aos quais, indiferentemente, d-se o nome de Religio, Ptria, Dever, Natureza, Tradio, Economia, Destino. "Apegar-se ao destino - escrevia Fromm -  o herosmo do masoquista, alterar o destino  o herosmo do revolucionrio".
     J, porque o verdadeiro nome da terapia que estamos discutindo  exatamente este: revoluo, que Ferenczi chamou de "adaptao aloplstica", ou ao sobre a realidade externa, em oposio  "adaptao autoplstica", ou modificao passiva do homem conduzida pela realidade externa. Podemos ento emprestar os termos de Ferenczi e dizer que a adaptao autoplstica, nitidamente masoquista,  a causa da nossa doena, e que a adaptao aloplstica,	
declaradamente revolucionria, constitui sua nica cura possvel. N se trata obviamente de negar a realidade e colocar uma iluso em seu lugar, mas antes, de modificar a realidade. No se trata tambm de subtrair-se ao conhecimento do real, mas de combater por uma realidade agradvel.
     Para uma revoluo ser revoluo so necessrios certos requisitos. Em primeiro lugar deve ser criativa.  claramente impossvel construir alguma coisa nova sem inventar solues diferentes daquelas experimentadas no passado. Esta  uma verdade elementar e bvia que s os extremistas recusam-se a reconhecer. Um dos slogans mais importantes do "maio francs" foi o clebre e aparentemente paradoxal "A imaginao no poder!" E os surrealistas, j em seu primeiro manifesto de 1924, proclamaram que "s a imaginao pode dar uma idia daquilo que pode ser". A voz dos contestadores e dos artistas caiu no vazio opaco da reao imobilista, mas a sua intuio estava correta. Para a mentalidade econmica dominante, por exemplo,  inconcebvel tudo aquilo que no tenha como fim a produo, o comrcio e o lucro, ou mesmo o chamado "progresso". Mas uma flor continua atraente e maravilhosa, mesmo que ningum a colha e que ningum a venda. A mesma coisa se pode dizer do prazer sexual: ele  o mais especial dos prazeres que o homem pode gozar, mesmo que no produza matrimnios, famlias, consumismo e filhos. Mas  preciso um pouco de fantasia para se perceber que o prazer no tem um objetivo, se no o de ser um prazer, e para entender que a alegria intrnseca da sexualidade no precisa ser justificada por um fim social, ou biolgico, ou religioso, ou de outra natureza. E a fantasia, apesar dos estmulos dos surrealistas e dos revolucionrios de sesenta e oito, continua a escassear na nossa sociedade mercantil e utilitarista. Entretanto  claro que sem imaginao no h nem ao menos liberdade. Como se pode ter a possibilidade de satisfazer os prprios desejos se no se consegue libertar-se dos desejos sugeridos pelos outro? Para ser livre para fazer qualquer coisa  preciso saber o que fazer, e se no h fantasia sabe-se apenas o que os outros querem que seja feito.
     A segunda caracterstica necessria a uma autntica revoluo  a de ser permanente. No basta o esforo concentrado em um breve perodo. Nenhuma tentativa inovadora pode ter srias esperanas de sucesso se se exaure na chama do entusiasmo momentneo. A imaginao deve continuar a trabalhar, sempre, sem deter-se. A crtica que enfrenta as estruturas sociais, as conquistas cientficas, os costumes, as idias correntes, as predicaes moralizadoras, as normas impostas ou sugeridas pela autoridade, no deve nuna esmorecer. Nem deve esmorecer uma constante e atenta reviso de si mesmo. O homem, ao que parece, geralmente no alcana a perfeio em nenhuma fase da sua existncia, e no  infalvel. Portanto em qualquer momento ele pode aprender a fazer e a ser alguma coisa melhor, e a evitar os seus erros. E deveria faz-lo. Ousaria dizer que  uma mania bastante difundida e freqente entre as pessoas acreditarem-se j definitivamente evoludas e "maduras", e de considerarem como insupervel aquilo que foi construdo pela sociedade em que se vive. Entretanto nada h de definitivo e de insupervel. Muito menos as solues codificadas por um sistema que se rege sobre fundamentos ilgicos e desumanos, como a economia e o poder institucionalizado.
     A cura do nosso mal-estar social deve levar em conta tambm uma realidade que parece incontestvel: entre regime poltico e costume sexual h uma relao particularmente estreita. No  necessrio ser um grande conhecedor da histria para constatar que todos os regimes autoritrios sempre foram, e so, implacavelmente sexorrepressivos, e que a liberdade sexual faz par com uma verdadeira democratizao do governo da coisa pblica. Talvez a mxima intensidade repressiva tenha ocorrido sob a dominao nazi-fascista, e ainda se mantm em nveis notveis nos pases cuja influncia fascista  mais forte. Vice-versa, a represso parece tornar-se sempre mais "malevel" nos pases em que aumenta a participao popular na gesto do poder.
     Sem dvida a represso sexual e a represso sociopoltica nascem do mesmo tronco e crescem juntas, como tristes irms gmeas. Com efeito so a mesma coisa. Se se consegue convencer ou constranger um indivduo a renunciar  prpria sexualidade, pode-se induzi-lo agilmente a renunciar a todo o resto, liberdade includa. Isto quer dizer que nenhuma revoluo pode descuidar da questo da sexualidade, e que nenhuma revoluo pode ser se no  tambm revoluo sexual. Com certeza parece-me que a luta pela liberdade  portanto a luta por Eros, e a luta por Eros  sempre uma luta poltica.
     No nosso esquema de simbolizaes verbais  difcil dar um nome a esta luta, reconheo. Talvez pudssemos partir de uma considerao de Valsecchi, contida em seu livro Julgar por Si, j citado, que me parece esclarecedora:	"( ... ) o total processo de anarquismo sexual,  medida que comporta o desagregar-se da famlia-ncleo e, mais genericamente, o decompor-se da tica "burguesa" que  emanao e suporte da sociedade produtivista e das suas estruturas opressivas, pareceria sensivelmente benfico: uma estratgia revolucionria". Na realidade as posies libertrias, dentro e fora do ambiente sexual, sempre foram as mais claramente adversas a qualquer forma de represso, de maneira que se poderia repropor a palavra "anarquismo" como estmulo primrio a um processo de destruio do poder institucional. Isto , como primeira fase de um curso revolucionrio. Todavia, voltando ao que se dizia antes, parece fora de dvida que uma verdadeira revoluo deve sempre de per si ser tambm sexual, e que a sexualidade  de per si revolucionria. O problema teraputico, para diz-lo em poucas palavras, no pode extinguir-se em uma mera defesa contra o desprazer produzido pelos apertos econmicos, pela sujeio  autoridade e por um trabalho insensato, mas deve dilatar-se em uma ativa procura do prazer, 0 sexual sobretudo. S neste caso a luta pode tornar-se realmente permanente e radical, como se pretende.
     Creio que seja inegvel que a sexualidade constitua um impulso permanente  ao. No obstante a macia e tenaz obra esterilizadora do sistema, ela continua a fazer parte da pessoa humana e no a abandona nunca. Poder ser reprimida ou sufocada, mas no destruda. Trata-se simplesmente de ouvi-Ia e no de amorda-la. E da mesma forma me parece indiscutvel que a sexualidade seja uma fora de tipo radical. Ela de fato rejeita sem ambigidades os sustentculos do sistema, o poder e o dinheiro, e afirma no menos claramente aquilo que o sistema condena, isto , o prazer e o amor. A sexualidade  o espao onde o homem poderia encontrar a felicidade, se quisesse; e deste espao alegre est excluda a riqueza monetria. A sexualidade  o reino onde a satisfao do desejo ilumina o presente e concede ao homem a nica riqueza de que pode realmente gozar: a felicidade. A sexualidade  a mestra que nos revela o quanto  absurdo agir por necessidade e o quanto  humano agir por prazer, ou seja, o quanto o trabalho nos destri e o quanto o jogo nos enriquece. A sexualidade , enfim, o momento em que aquela distoro perceptiva que ns chamamos tempo deixa de existir, em que se detm o obsessivo transcorrer das horas, dos dias e dos anos, no qual o homem acredita mostrar-se  eternidade;  portanto o momento em que se cancela o tolo medo da morte, que governa todo o nosso comportamento de seres sociais e que nos estimula incessantemente a loucura do monumentalismo imortal. A revoluo sexual impe cruamente o confronto prazer-amor e poder, impe o encontro frontal de dois mundos. Partindo das observaes do mundo atual seramos levados a crer que o amor est destinado a uma perene e irremedivel derrota. Mas talvez no seja assim.  preciso recordar duas coisas: primeiro, que o poder  a mais frgil das estruturas humanas; segundo, que o amor permanece sempre a mais forte das energias humanas. Mesmo quando  sistematicamente trado, como na nossa sociedade.
     Se a cura dos nossos males deve consistir em uma revoluo sexual, ento est claro que o nico mtodo teraputico eficaz  o da educao sexual. Mas o da verdadeira educao, e no certamente da m educao sexual que analisamos na primeira parte deste livro. Uma educao, portanto, com srio empenho poltico. Estou convencido de que esta educao deve fundar-se essencialmente sobre um profunda respeito  sexualidade infantil. Mas o respeito pela sexualidade, e em particular pela da criana,  tambm respeito pela liberdade, e  esta a barreira que bloqueia a corrida dos pretensos educadores. Respeitar a liberdade sexual da criana, e por isso mesmo reconhec-la, significa colocar em crise a sexualidade deformada pelo sistema, comumente considerada a sexualidade adulta, e portanto a sexualidade normal. A criana no reprimida exercita uma sexualidade global, que envolve todo o seu corpo e que no tem por objetivo a procriao.  erotismo em estado puro. Portanto irremediavelmente contrastante com as regras que nos so impostas pela tirania dos costumes.
     Estou de acordo com Schrer quando diz que no h uma sexualidade adulta e uma outra, diferente, tpica da criana, mas que existe uma s sexualidade, mesmo que diversamente vivida e diversamente condicionada pelo sistema. Mas esta  exatamente a questo: se a sexualidade adulta  substancialmente idntica  infantil, chega-se  concluso de que a sexualidade considerada normal pelo adulto  apenas uma parte da sexualidade. A outra parte, talvez a maior, foi removida de conformidade com as exigncias sociais. E ento, se damos o nosso consentimento  liberdade sexual da criana, nos defrontamos com um desconcertante dilema: ou admitimos ter perdido uma parte da nossa sexualidade que a criana ainda no perdeu - e neste caso devemos tambm admitir que os nossos comportamentos esto empobrecidos e esmorecidos, e nessa medida precisam uma reviso crtica de fundo - ou, se consideramos a sexualidade infantil como imatura e perversa, acabamos nos encontrando na embaraante situao de permitir  criana ser perversa. E como isso seria intolervel somos constrangidos a realizar uma educao repressiva. E a no respeitar nenhuma liberdade.
     O segundo , obviamente, o caminho preferido pelos educadores atuais, os quais estabeleceram que a sexualidade infantil  completamente diferente da adulta, que  rude, primitiva, perversa e civilmente inaceitvel, e que portanto precisa ser "educada" e orientada de acordo com os modelos fornecidos pelo adulto. Em resumo, no se respeita de fato a sexualidade infantil. Consulte-se a propsito o ensaio de Fornari que recordei algumas vezes, no qual se afirma que a sexualidade infantil no promove praticamente nenhuma descarga, e portanto que a criana  incapaz de experimentar prazer. Seria o caso de perguntar a que coisa est aludindo o autor quando fala de "descarga" e de "prazer". Talvez ao desafogo puramente animalesco consistente na emisso de lquidos orgnicos? Mas ento esta magnfica sexualidade "madura" no seria assim to magnfica, nem madura, nem exemplar. Nem ao menos humana.
     Todos ns que obstinadamente acreditamos em uma possibilidade de redeno sabemos que o caminho da educao sexual pode ser acusado de utpico. Mas  o caminho do amor que, como se disse,  o mais forte dos poderes. E  tambm o caminho da f no homem, uma f peculiar ao revolucionrio, mais forte que a no Destino, tpica do conservador. O conservador, para diz-lo
uma vez,  um masoquista: ele acredita firmemente que a condio humana  determinada de maneira irrecorrvel por Poderes externos ao homem e aos quais  intil opor-se. A estes Poderes ele chama  Histria, Lei econmica, ou Vontade de Deus. Em qualquer caso para o conservador, a realidade  como deve ser e no se pode, nem se deve, procurar transform-la. O Destino, seja o histrico, o econmico, ou o estabelecido pela divindade, sempre dominou as coisas  humanas e sempre as dominar. Se tudo vai mal, significa que este  o decreto do Destino, e basta. O revolucionrio, contrariamente no aceita nenhuma predestinao. Ele acredita que o homem pode fazer aquilo que ainda no fez e que a condio humana pode, por meio de uma luta comum, tornar-se melhor do que a presente e a passada. Ele cr na capacidade do homem de amar e criar. Ele cr se quisermos aludir s palavras de Schiller, que os sonhos mais belos "podem tornar-se realidade, se nos empenharmos". Utopia? Talvez.  Mas para ser utopista.   preciso ter coragem, para no s-lo basta ter medo.

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VOLUMES PUBLICADOS
I - Linguagem Total - Francisco Gutirrez. A Pedagogia da Linguagem Total convida o professor a manipular os instrumentos de comunicao de massa, pois "o aluno que se auto-expressa (...) atravs das mais diferentes linguagens, deixa de ser um receptor passivo e passa a ser um perceptor ativo".
II - O Jogo Dramtico Infantil - Peter Slade. O jogo dramtico  uma
parte essencial da vida "pois  nele que a criana aprende a pensar, comprovar,	e relaxar, trabalhar, lembrar, ousar, experimentar, criar c absorver".
III - Problemas da Literatura Infantil - Ceclia Meireles.
IV - Dirio de um Educastrador- Jules Celma. Relato da experincia vivida por um professor, na Frana, de 1968 a 1969. Uma experincia pedaggica que mostrou as falhas da educao tradicional, na autoridade do professor, disciplina, liberdade de expresso dos alunos etc.
V - Comunicao No-Verbal - Flora Davis. A comunicao no-verbal reflete a necessidade que sentimos de restabelecer contato com as prprias emoes, expressas de modo no-verbal.
VI - Mentiras que Parecem Verdades - Umberto Eco e Marisa Bonazzi. Um levantamento sobre os livros didticos, que enchem a cabea das crianas de toda sorte de preconceitos, anacronismos e conformismos.
VII - O Imaginrio no Poder - Jacqueline Held. Este livro discute as posies mais recentes sobre a literatura infantil, citando livros de muitos pases.
VIII - Piaget para Principiantes - Lauro de Oliveira Lima, 20 artigos e ensaios analisando as grandes linhas da obra do genial educador suo em torno da criana, seu desenvolvimento, e do adulto.
IX - Quando Eu Voltar a Ser Criana - Janusz Korczak. Korczak apresenta aqui sua viso do relacionamento entre adultos e crianas, numa narrativa que suscita reflexes e leva a concluses de validade permanente.
X - O Sadismo de Nossa Infncia - Org. Fanny Abramovich. Este livro aborda o sadismo centrado na criana, sob diferentes prismas. Os autores - psiclogos, mdicos, educadores, escritores - recriam, em depoimentos e textos de fico, o mundo sdico-infantil.
XI - Gramtica da Fantasia - Gianni Rodari. O autor prope recursos destinados a ampliar a criatividade infantil, interligando-a com a experincia da criana no mbito escolar e no mbito familiar.
XII - Educao Artstica - luxo ou necessidade - Louis Porcher. Livro bsico para os cursos de Educao Artstica. Apresenta um painel das atividades expressivas - msica, teatro, poesia, desenho, dana, audiovisuais numa linguagem fcil e despretensiosa.
XIII - O Estranho Mundo que se Mostra s Crianas - Fanny Abramovich. Qual  o mundo que os autores - de literatura, de teatro, de msica, e assim por diante, chegando at aos brinquedos - apresentam s crianas de nossos dias? Uma anlise realista e construtiva da questo.
XIV - Os Teledependentes - M. Afonso Erausquin, Luiz Matilla e Miguel Vsquez. Uma anlise lcida da problemtica da TV, sob o prisma da educao infantil, em todos os aspectos: telefilmes, sries, anncios, programas ao vivo etc.
XV - Dana, Experincia de Vida - Maria Fux. Um grande nome da dana expe sua experincia de mais de 30 anos, como coregrafa e bailarina e, sobretudo, como educadora.
XVI  O Mito da criana feliz - Org.Fanny Abramovich. Uma reflexo sobre o mito da "infncia feliz", feita por educadores, escritor jornalistas, dramaturgos e outros. So contos, relatos e ensaios sobre o tema
XVII - Reflexes: Acriitica - O Brinuedo - A Educao - Walter  Benjamin. 19 ensaio-de um importante pensador de nosso sculo, falando sobre a vida infantil, os brinquedos, os livros, infantis e outros temas.
XVIII A Construo do homem Segundo Piaget Uma teoria da Educao Lauro de Oliveira l,ma. Em 50 pequenos textos,um guia bsico para os j iniciados em Piaget. e para aqueles com pouco contato com o seu pensamento.
XIX - A Musiica e a Criana  - Walter Howard. Livro destinario todos os educadores, no sentido mais amplo da palavra. Relaciona a msica com a leitura. A percepo das cores,  arquitetura e outros campos,
XX - Gestalpedagoggia o primeiro livro a mostrar a contrbuio que a Gestalt pode trazer a pedagogia
XXI - A Deseducao Sexual - Marcello Bernard. Uma denncia das falsas colocaes em torno da sexualidade infantil, do educador e do binmio prazer-amor.
XXII -Quem educa quem?  Fanny Abramovich. O que significa ter um diploma? Como se situa. hoje, a educao artstica? A estas e a outra indagaes a autora procura responder, com base na realidade brasileira.
XXIII A Afetiviidade do educador - Max Marchand. A educao existe uma das fomas mais elevadas de doao de si mesmo a uma s pessoa. Este despojamento permite uma formao autntica do homem a criana: eis o tema deste livro exato e sugestivo.
XXIV - Ritos de passagem da nossa infncia Fanny Abramovich. Escrtores, professores, discineninados a iniciao ou ruptura feita em amor. a religio, a morte,
XXV - A Redeno do Robo - Herbert Read. A fundamentao filosfica  da educao artistica, solidamente apoiada em grande., pensadores.
 XXVI - 0 Professor no ensiba - Guido de Almeida. Uma anlise do contedo semntico de redaes de professores e de especialistas em educao.  um  levantamento bem-humorado da ideologia educacional brasileira,
XXVII Educao de Adultos em Cuba Raul Ferrer Prez.  O livro descreve todo o processo de erradicao do analfabetismo em Cuba com sua fundamentao terica e aplicao pratica
XXVIII -  Direito da Criana oo Reepeito - Dalmo de Abreu Dallari e lanusz Korezak. Dois mestres, duas vises, confluindo para um objetivo comum: uma lcida, humana e intensa manifestao sobre os direitos da criana, sobretudo ao respeito.

XXIX - O jogo e Criana - lean Chatea. Neste livro. o autor nos mostra, sobre tudo as relaes entre o jogo e a natureza infntil e at que ponto o despertar do connportantento ldico est ligado ao da personalidade.

